Terça-feira, 26 de Julho de 2011

Ética, isenção e independência da advocacia



Vai por aí uma polémica sobre o anúncio da designação de conhecidos advogados como administradores não executivos da Caixa Geral de Depósitos. Decerto que os próprios e quem os designou terão tido em atenção designadamente os princípios e normas do Estatuto da Ordem dos Advogados que visam assegurar a isenção e a independência do exercício da profissão e não terão visto na acumulação qualquer incompatibilidade. Nem mesmo por via da norma que torna expressamente incompatível o exercício concomitante da profissão de advogado e as funções de gestor público. Porém, a polémica justifica-se se não no imediato plano jurídico, ao menos no plano ético e de boas práticas no que à administração do que é público diz respeito, mas também no que tem que ver com os princípios que preservam a dignidade e a honestidade de que depende o prestígio social da profissão. Continua, para mim, a ser válida a ideia segundo a qual “a independência da profissão, relativamente a todas as formas de poder, é incompatível com qualquer cargo que a afecte, ou que proporcione condições de angariação de clientela” (Arnaut, 2001). Impõe-se, por isso, o debate  sério e sereno sobre o alcance da ética profissional para que a importância de uma questão que tem vindo a lume, com insistência, nos últimos dias, não se dissolva no populismo de uns ou no calculismo de outros. Um debate sem tabus nem complexos, que envolva, designadamente, a questão da compatibilidade entre o exercício de funções em órgãos de soberania (designadamente no parlamento) e a advocacia.

E.T. : Assinalo como muito positiva a designação como vice-presidente do CA da CGD do Dr. Norberto Rosa, cujo saber e competência tive em tempos ocasião de apreciar. 

4 comentários:

Bartolomeu disse...

Caro Dr. José Mário, que lhe parece a ideia de submeter os Senhores conhecidos advogados, designados para administrar executivamente a Caixa Geral de Depósitos, ao juízo do polígrafo?
Ah! E já agora, aqueles que os designaram, também.
Penso que daria uma série cómica muito interessante, para passar nas nossas televisões, com direito à Júlia Pinheiro a acirrar os espectadores, para ligarem o 286 500 500 "que está a passar em rodapé" e votar no advogado/administrador/gestor público que acha mais ético e mais profissionalmente independente.

JM Ferreira de Almeida disse...

Pelo andar da carruagem qualquer dia chegamos aí, caro Bartolomeu.

Paulo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marina disse...

Não gosto de suspeições genéricas e universais, terreno fértil para o fanatismo e a violência.
E penso muitas vezes nisso quando se assiste a crimes odiosos praticados em nomes de "valores" que os próprios criminosos se auto-atribuem.
O contributo cívico para a polis deveria ser mais reconhecido por todos nós o que será possível com um novo paradigma que privilegie o rigor, a seriedade, a isenção.
Só presumindo a boa fé do governante se presume a boa fé do governado-eleitor. Com essas duas presunções consensualizadas socialmente seria possível que os melhores de entre nós aceitassem contribuir para a gestão do colectivo.