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sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Um filme a ver

O filme “Hannah Arendt”, de Margarethe von Trotta,  dá-nos uns lamirés sobre a vida e pensamento da filósofa mas centra-se sobretudo no momento histórico do julgamento de Adolf Eichmann, um oficial nazi capturado em 1960 em Buenos Aires, julgado em Israel e condenado à morte. Ao assistir a esse julgamento, H.A. tentou compreender para além do que via, procurou explicar as raízes daquele mal, daquela atitude individual de anulação da consciência que, multiplicada e assumida, permitiu uma atuação coletiva de puro horror. Defendeu assim a tese da Banalidade do Mal, publicando na Revista New Yorker uma série de artigos que lhe valeram críticas ferozes e perseguições, suscitando uma polémica que ela explicou pela facilidade com que as pessoas renunciam à sua capacidade de pensar.O filme obriga-nos a pensar e mostra bem como é fascinante a capacidade de pensar e como é curta a apreciação que fazemos das coisas e como nos contentamos com isso, sem reparar que é precisamente pelo efeito de “deixar de pensar” que acontecem e se suportam todas as iniquidades. Quando renunciamos à nossa capacidade de olhar, analisar e compreender, - o que não implica aceitar -, tornamo-nos peças de uma máquina, renunciamos à nossa consciência e pensamos assim ficar livres de responsabilidades. É um erro tão comum que mal reparamos nele. O filme é dialético, apresenta os argumentos dela e o modo como os outros reagiram a eles, tornando-a persona não grata entre os judeus, cujos lideres criticou.
Tenho uma enorme admiração pela coragem intelectual, são pessoas como esta que podem fazer mudar o mundo para melhor, se possível, ou pelo menos impedem que ele mergulhe definitivamente na barbárie.

6 comentários:

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Suzana
Que importante seria e como o mundo poderia ser diferente se não renunciássemos a essa extraordinária capacidade de pensar. Há muita gente que prefere não pensar, vêem nesta atitude uma comodidade. Os outros que pensem, pensam eles...

JM Ferreira de Almeida disse...

Suzana, não vi ainda o filme, mas a propósito da ideia profunda da Banalidade do Mal que quase provocou a "excomunhão" de Hannah Arendt da comunidade a que pertencia, e em especial sobre a mensagem do seu post, é de ver ou rever um documentário há uns tempos passado na RTP2, creio eu, titulado "Os fantasmas de Abu Ghraib". Consegue-se visualizá-lo no youtube.

JM Ferreira de Almeida disse...

Descobri. Aqui: http://www.youtube.com/watch?v=_TpWQj0MjvI

Luis Moreira disse...

Deixar de pensar, perder a consciência do bem e do mal, perder o sentimento de culpa individual é o que todos os estados totalitários ambicionam fazer aos cidadãos

jotaC disse...

Cara Dra. Suzana,
Começo por dizer que acho brilhante esta abordagem, li-a mais de uma vez, despertou-me para refletir sobre a obra inacabada que somos. –O homem, capaz de distinguir o bem e o mal, de sentir dor e tristeza, não consegue em momentos críticos suster os seus impulsos mais irracionais.
Já li que a violência encontra explicação em alguns aspetos antropológicos, pois desde sempre o homem conflituou com o próprio ambiente, com a sua e outras espécies, tanto pela sobrevivência como pelo domínio territorial... Chegados aqui damo-nos conta que evoluímos em todos os campos: da cultura, do conhecimento, da ciência, enfim, comparativamente com os nossos ancestrais somos “deuses”. Contudo, nos tais momentos críticos, não conseguimos ficar aquém do limiar da barbárie, como prova o genocídio de que o sr. eichamann foi cúmplice.
Gostei de rever o filme da prisão Abu Grahib, gentilmente partilhado pelo Dr. Ferreira de Almeida.
Excelente post, ***** estrelas :)

Suzana Toscano disse...

Margarida, pensam eles e pensam mal, como se sabe, cada um pensa em si e não temos o direito de confiar que alguém se mace a pensar em nós para nossa comodidade. O que é incrível é a facilidade com que qualquer argumento de inevitabilidade cria uma legião de gente amorfa que fica à espreita de passar incólume só porque se dispensaram de pensar.
Obrigada Zé Mário, não conhecia este impressionante documentário, o terror numa das suas variantes.
É assim, caro Luís Moreira, só que os estados totalitários não nascem do nada...
Caro jotac, belíssimo comentário o seu, a acrescentar muito à reflexão que propus, de facto a civilização é uma patine muito ligeira, como se viu e como se vê , ainda que em graus muito diferentes a fragilidade salta ã vista , é fácil ser boa pessoa e muito generosa se tudo corre bem. Há aquela música da Alanis Morisette, creio eu, If I would be good" que é um belo resumo da nossa fragilidade.