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quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

O cantor

O suave ondular das pessoas nas ruas enfeitadas, a confirmar a época festiva, que se arrasta durante alguns dias vestida de frio e de nova esperança, dá vida e consola os que procuram o tempo de paz. Nada melhor do que o sentir do mundo ouvindo cantares dispersos que enchem o ar de flocos de alegria. O velho, descoberto, calva luzidia e indiferente ao frio, retirou de um carrinho de compras um pequeno Pai Natal a pilhas que começou logo a cumprimentar as pessoas que passavam. O pequeno sistema sonoro com altifalante incorporado, que colocou junto à traquitana, e um microfone, denunciavam estar perante um eventual artista de rua. Será? Fiquei cheio de curiosidade. O que é que vai sair daqui? Uma pequena caixa recoberta de papel de embrulho com motivos natalícios ficou ao lado do minúsculo Pai Natal que não se cansava de cumprimentar. Enquanto ia distribuindo o seu material no passeio em frente da loja fechada começou a cantar. A sua  voz, longe de ter sido treinada, com sabor a idade, começou a ecoar como se estivesse a ensaiar. O tema, "In Excelsis Deo", típico da época, soou no ar de forma muito peculiar. O artista, que há muito deve ter deixado os sessenta anos, transmitia simpatia. Deslumbrou-me o ar destemido com que se apresentou. Conseguiu-me cativar pela simplicidade e alegria que transmitia através do seu humilde cantar numa rua bastante movimentada. Os sons musicais da cidade foram momentaneamente esquecidos devido ao idoso cantor. As pessoas passavam, não olhavam, não paravam e até se afastavam. Continuei no ritmo do passeio anunciado, vendo o que já vi e recordando o que me apeteceu. A mente, sossegada e preguiçosa, o que é natural num sábado à tarde, obrigou-me a pensar no artista. Estive tentado a imaginar quem seria, mas deixei-me enlevar pelo silêncio da paz do espírito, dando-lhe alguma liberdade, que bem merece. Ao fim de algum tempo regressei ao mesmo local com o propósito de saber se ainda lá estaria. Ao entrar na rua, e depois de ter calcorreado alguns metros, o som grave da aparelhagem começou a fazer-se sentir. O amplificador sublinhava de forma agradável os seus cantos, motivos de Natal. Passámos em frente do cantor enquanto o minúsculo Pai Natal continuava a cumprimentar quem passava. Depois de termos andado uma boa dúzia de metros pensei que merecia alguma coisa. Parei. Dei o porta-moedas à minha mulher que concordou com o meu gesto. Deslocou-se na sua direção e colocou o que quis na caixa. O senhor deixou de cantar, agradeceu, falaram durante algum tempo, trocaram cumprimentos, e, depois, olhou-me com um largo sorriso de felicidade, porque deve ter reparado e imaginado a nossa conversa. Acenei-lhe, baixando a cabeça, retribuindo o gesto. Nesse preciso momento senti a falta do seu cantar. Depois retomou o seu ritmo. Um enorme som cheio de alegria inundou a rua, ofuscando tudo, o brilho das luzes que entretanto surgiram, a aparelhagem sonora da cidade engalanada e os andares e olhares de quem passava.
- Tinha a caixa vazia! Disse-me.
- E a alma cheia. Pensei.

6 comentários:

Bartolomeu disse...

Eu não Quero o Presente, Quero a Realidade

Vive, dizes, no presente,
Vive só no presente.

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.

O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.

Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas
como cousas.

Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.

Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.

Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

Alberto Sampaio disse...

E eu quase convencido que havia poeta grande por estas bandas, quando afinal aparece o Pessoa.
Apetece dizer, Pessoas somos todos, caro Bartolomeu.
Também apreciei o pequeno que retrata uma cena da vida quotidiana em época Natalícia, que devia ser sempre.

Alberto Sampaio disse...

Caro Bartolomeu,
quando relia o que escrevi, fiquei com a impressão que as minhas palavras poderão não ter transmitido o que pretendia. E o que pretendia era elogiar o facto de ter trazido um pouco de poesia.

Pinho Cardão disse...

Excelente, caro Professor. O meu amigo cuida do físico, mas vai à alma das pessoas!...
E, Bartolomeu, voltou à poesia? Muito bom!

Tavares Moreira disse...

Pela singeleza da cena e pela doçura com que é relatada, oferece-nos com este texto um belo apontamento de Natal, caro Professor.
Aproveito para o felicitar pela passagem, hoje, dia 11 de Janeiro, de mais um aniversário, que foi aliás lembrado em almoço que reuniu em Lisboa alguns resistentes autores do 4R (Margarida C. Aguiar, Pinho Cardão e este seu amigo) e ilustres comentadores, também resistentes (Pires da Cruz, Bartolomeu e o luso-brasileiro Pedro de Almeida), a que se associaram algumas Consortes dos presentes.
Foi um convívio muito agradável, em que naturalmente predominou o debate sobre temas da actualidade político/económica do País, tendo-se chegado à conclusão...

Salvador Massano Cardoso disse...

Agradeço a gentileza dos comentários. Um abraço amigo de alguém que vai ter redução de 50% nas viagens de comboio. O problema é ter tempo para andar e rever bons e saudosos amigos.