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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Muito bem, Baião. Viva a greve infantil!

Pela hora do almoço, a RTP, serviço público, exibiu uma extensa reportagem sobre a greve às aulas das crianças de uma escola de Baião, incluindo as inevitáveis entrevistas aos pequenos líderes grevistas. Greve certamente espontânea, e que só revela a inultrapassável capacidade da RTP em prever manifestações espontâneas onde quer que se realizem. A escola não estava aquecida!...
Eu acho muito bem esta greve infantil. Se o trabalho infantil está proibido, não se pode, nem deve, trabalhar na escola. Obrigar a aprender é uma violência e vai contra os direitos da criança. Sobretudo no inverno; uma greve quer-se quente e no exterior até se está mais protegido da intempérie. Além do que falar aos microfones aquece.
Mas há uma outra razão de fundo para achar muito bem esta greve infantil. É preciso preparar o povo, desde o berço, para fazer greve. A escola tem esse dever patriótico. A miudagem do básico tem que ser habituada a contestar tudo e todos, os professores e a cantina, o peso dos livros e o formato da caneta, o frio no inverno e o calor no verão.
Têm que assimilar que a contestação e a greve são um modo de vida como os outros. E têm que aprender que há muitos que não querem outra forma de vida, para além de serem profissionais da contestação. Com as televisões sempre ao lado, importantíssimo para a garotada que quer ser gente.

Nota: Claro que falo assim, porque, há umas dezenas de anos, não havia frio nem calor na minha escola, havia ar condicionado, a temperatura era sempre de 21 graus, não nevava nunca, nem chovia, nem gelava, além de que ninguém tinha que ir para a escola a pé, a miudagem andava bem agasalhada e bem calçada. E bem alimentada, mesmo que a côdea e sardinha. Por isso é que essa gente era capaz de se abalançar a fazer exame da 3ª e da 4ª classe. Podendo reprovar. Um traumatismo para a vida para os grevistas de hoje.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Um caso à portuguesa...

Este é mais um caso à portuguesa. Uma fábrica da Companhia de Pescarias do Algarve, revela a notícia, foi inaugurada há um ano, mas ainda não está a funcionar. Falta a ligação ao ramal de esgotos.
Várias entidades oficiais que estão no circuito dos numerosos pareceres prévios à emissão da licença de utilização da fábrica dizem que não têm responsabilidades. Ninguém tem responsabilidades, ou melhor, ninguém as quer assumir, porque a culpa, à portuguesa, é sempre do vizinho. Mas há quem aponte o dedo ao Terreiro do Paço. É que falta a autorização do Ministério das Finanças, e muito provavelmente falta o dinheiro, para lançar a obra da ligação do Porto a uma ETAR que permitirá o tratamento dos esgotos.
O Porto do Olhão, zona onde está situado um pólo de indústria de pesca, não possui tratamento de esgotos, os efluentes são despejados directamente na Ria Formosa.
Entretanto, está prevista a abertura de mais uma fábrica de conservas, mas já está feito o aviso, não vai poder funcionar. As razões são as mesmas. Não há saneamento básico adequado, portanto, não há licença de utilização.
Foram feitos vários milhões de investimentos em fábricas de conversas que estão encerradas por falta de infra-estruturas básicas. Os investimentos estão parados. Não geram actividade económica, não geram emprego, não geram riqueza.
Assim se vão desbaratando recursos económicos e financeiros. Faz algum sentido? Estes casos - onde não faltam o esbanjamento de recursos, as falsas expectativas e a burocracia, a incompetência e a desresponsabilização e várias entidades públicas viradas de costas umas para as outras, assim parece – demonstram bem o muito que há para mudar. É toda uma cultura de estar e fazer que precisa de ser reformada…

Os linces da economia

Fico verdadeiramente espantado, estupefacto, perante a ciência precisa de alguns economistas, distintos investigadores e doutos professores universitários. Como aqueles economistas investigadores do Observatório da Economia e Gestão da Fraude que, observando a fraude à lupa, concluíram que a economia paralela representa 24,8% do PIB, em 2010. Não é 25%, nem 24%, que números redondos só servem para apoucar a investigação. Mas 24,8% precisos. Verdadeiramente notável o trabalho que eles não terão tido para registar uma economia “não registada”em precisamente 24,8!...
Mas não ficam por aqui. Dizem eles que o “peso da informalidade” teve um aumento absoluto de 0,6% entre 2009 e 2010. Zero, vírgula seis por cento! Rigor absoluto.
Claro que este rigor científico nunca poderia alcançado se a “informalidade” se medisse por números redondos. Mas não, a informalidade nunca é redonda, tem arestas e as décimas são essenciais para a medir.
Temos pois verdadeiros especialistas da gestão da fraude, assim se chama o Observatório. Recrutados certamente pelo olho de lince que revelam. E ainda dizem que os linces desapareceram. Não! Eles estão activíssimos. E observam-nos a todos.

Perante isto, vou-me já desarriscar da Ordem. Nem com óculos reforçados sou capaz de visão tão nítida e precisa!

A irresistível (inútil) tentação de clamar contra as agências de "rating"...

1.Acabamos de viver mais um daqueles momentos de exacerbado “patriotismo” por parte de habituais comentadores políticos da nossa praça, tendo como alvo desta vez – mais uma vez, de resto – as odiadas agências de “rating”, com especial atenção na malvadez praticada pela Standard & Poor’s que decidiu colocar o nível de “rating” da dívida pública portuguesa em “junk” – traduzido para “lixo”, no léxico doméstico.
2.Um dos mais destacados comentadores foi mesmo ao ponto de dizer “lixo não somos nós, são eles”, como se a classificação dada pela S&P tivesse alguma coisa a ver com pessoas e não com a qualidade da dívida que a República emite...
3....mas compreendo que para um republicano de excelência e crente incondicional nas virtudes axiomáticas desta República, o gesto da S&P até possa ser tomado como ofensa pessoal...
4.Desta vez nem o Governo escapou às manifestações de indignação, tendo um dos seus mais destacados membros sugerido a necessidade de uma “resposta europeia” às decisões da S&P...
5....no que entedi tratar-se quiçà de uma sugestão para mega-manifestação em Bruxelas, reunindo milhares de burocratas (eurocratas à cabeça), políticos e outras notabilidades, munidos de bandeiras e de cartazes com frases de protesto contra a malvadez imperialista, ao pior estilo “Yankee”, das agências de “rating” que atentam contra o Euro...
6. Felizmente, o Presidente da República manteve desta vez prudente silêncio, percebendo provavelmente que caberia em última análise aos mercados dar às agências de “rating” a única resposta com sentido útil.
7.E os mercados aí estão a responder, de forma inequívoca e sem perda de tempo; hoje aceitando tomar dívida pública portuguesa por um montante elevado - € 2,5 mil milhões – e a taxas bem inferiores às de anteriores leilões: € 496 milhões a 3 meses, taxa média de 4,346% (igual à de há 2 semanas, muito inferior à do último leilão de Dezembro); € 754 milhões a 6 meses, taxa média de 4,74% (anterior 5,25% em Nov/2011); € 1.250 milhões a 11 meses, taxa média de 4,986%.
8.Note-se que o IGCP já não realizava leilões de dívida por prazo superior a 6 meses desde a altura em que foi celebrado o acordo com a Troika, em Maio de 2011, o que confere especial (positivo) significado à colocação de dívida a 11 meses, a qual reflecte uma curiosa aposta dos investidores, ou seja do mercado (execrável criatura, para os nossos comentadores) na dívida portuguesa.
9.Com este resultado, adicionado ao sucesso da colocação de dívida espanhola ontem e de dívida francesa na 2ª Feira, está dada a resposta dos mercados ao anúncio da S&P, da última 6ª Feira, de baixar os “ratings” das dívidas da França e da Áustria de AAA para AA+ e de outras dívidas para “lixo”...
10....é a única resposta possível, face à considerável inutilidade das reacções dos nossos patrióticos comentadores... cujo patriotismo, suspeito, terá mais a ver com a ameaça de perda de vantagens e mordomias pessoais/grupo que esta República bendita lhes proporciona do que com a defesa da independência nacional ou da honra nacional...
11....mas tenho de admitir que essa suspeita será infundada/injusta, os ditos comentadores lá no fundo até serão grandes patriotas...

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A "lei da cópia privada", uma aberração mais...



Findava o ano de 1937 quando foi promulgado o decreto para valer como lei que recebeu o nº 28219. Estabelecia uma licença anual obrigatória, pesadamente paga pelos cidadãos que pretendessem deter "isqueiro" ou outros "acendedores". O Estado mostrava-se implacável com quem pretendia aproveitar-se dos avanços da tecnologia, e fazia pagar por essa liberdade quem se propunha empobrecer a protegida indústria do fósforo. Lembro-me da preocupação de meu avô, fumador compulsivo, em andar permanentemente acompanhado da licença do isqueiro, tão apertado era o controlo dos "fiscais das finanças" e da polícia mesmo a quem não o exbindo, era suspeito de possuir um desses objetos.
Aos olhos de hoje esta agressão fiscal - que durou até, salvo erro, 1970 -, pode parecer ridícula, própria de um País redutor da mais inocente das liberdades, que agigantava o Estado para menorizar o cidadão, um Estado pacóvio mais pacóvio do que os seus pouco instruídos subditos.
Mas eis que nesse mesmo País, em pleno século XXI e num tempo em que no discurso político se enaltece a capacidade de aproveitarmos novas tecnologias para o progresso que outros há muito alcançaram, o parlamento se lembra de fazer uma lei destinada a taxar a memória. Não a memória dos tempos em que o legislador reprimia quem possuia "isqueiros" e outros "acendedores". Mas as memórias que hoje permitem registar e guardar essas outras memórias. A memória dos computadores, os discos rígídos, os discos mltimédia, os "discos" SSD, os vulgares leitores MP3/4, os telemóveis com capacidade de armazenamento.
Por iniciativa do PS, que pelos vistos os outros partidos acompanham, está em discussão uma lei que, se aprovada, implicará o agravamento de mais de 20 € do preço do disco de 1TB onde pretendo guardar as fotos de família. Ou de mais de 50 € na aquisição de um disco multimédia onde pretendo armazenar os filmes que fiz ao longo da vida, ou outros que comprei.
Dizem que é para proteger os autores e os seus direitos e não para gerar uma receita mais para o Estado. Mas quais autores e que direitos? Os autores que, por via das novas tecnologias, viram multiplicado por mil o poder de difusão das suas obras? Aqueles que se tornam conhecidos em dias quando no tempo do vinil demoravam anos a mostrar o seu talento? Que direitos de autor (e de que concreto autor) violo eu quando adquiro uma PEN para guardar os meus documentos, as minhas fotos, as minhas crónicas para a rádio?
Está visto, continuamos no mesmo País bacoco e pacóvio onde a capacidade das máquinas não se sobrepõe nem se substitui à falta de inteligência de quem nos dirige. Este legislador, em pleno século XXI, nem percebe que de qualquer parte do mundo se encomendam hoje esses dispositivos, transportados num vulgar envelope postal. Ou será que, para além do absurdo de taxar a aquisição de novas tecnologias, pensa o parlamento determinar com força de lei que os inspetores do fisco ou os polícias voltem a abordar quem suspeitem ter cometido o crime de não pagar tributo pela memória?

Sem conserto!

Ouvi hoje que a Intersindical ficou de fora do Acordo de Concertação Social.
Supremo eufemismo de linguagem. Pois como é que uma coisa sem conserto pode concertar o que quer que seja?
E péssima utilização do português. Pois quem está fora de tudo pode alguma vez ficar de fora de alguma coisa?

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Mercado baixa o rating da Standard & Poor’s

A França financiou-se hoje no mercado a um custo mais baixo, apesar de na sexta-feira a Standard & Poor’s ter cortado o “rating” da segunda economia do euro de AAA para AA+.

O meu momento oriental


O ´Publico´ de hoje noticia que o governo de Passos Coelho já nomeou mais em 7 meses do que o outro em 2,5 meses. Como já desisti de perceber os critérios jornalísticos não reclamo. O que a notícia traz de revelador é a panóplia de nomes dos nomeados que não destoariam se constituissem o plantel de uma qualquer equipa de futebol da liga nacional. Vejamos alguns exemplos. Esperancinha para a Saúde. Excelente nome para esta área. O mesmo se diga de Manso para o mesmo setor, carecido como está de tranquilidade e mansidão. Já Robalo para uma das ARS mete-me impressão. Pelo menos até se esfumar a conotação que o peixe adquiriu nos últimos tempos, de tão transacionado. Menos auspiciosa para a Segurança Social é a nomeação de um Lérias.
Nas culturas orientais crê-se que quando alguém vem a este mundo transporta consigo uma missão. O nome deve traduzi-la. Noutros aspetos da governação o Executivo já se mostrou sensível ao poder do conhecimento oriental. E por isso admito que os nomeantes tenham atendido à boa prognose de alguns dos nomes dos nomeados. Faço votos para que os bons vaticinios desta nova nomenclatura se confirmem no exercício de funções, com exceção do designado para a Segurança Social onde se espera tudo menos o que o nome indica...

sábado, 14 de janeiro de 2012

"O Poder do Nada"!

O preciosismo científico exige que em muitas experiências clínicas se utilize o placebo para avaliar a eficiência de certo produto que se pretende testar. Basicamente o placebo não tem qualquer atividade o que permite avaliar se o que está em causa, nomeadamente um fármaco, atua ou não de forma adequada. Esta prática é consensual desde há muito e faz parte dos paradigmas de investigação. Também é do conhecimento geral que o placebo constitui um dos mais eficazes fármacos ao dispor da humanidade. Por esta razão, os que estão envolvidos em experiências clínicas não podem saber se estão a tomar ou não placebo, porque se soubessem reagiriam como se nada tivesse acontecido, na medida em que um bocado de farinha ou de açúcar não pode ter o efeito esperado. Mas será que é mesmo assim? Será que uma pessoa, que saiba que está a tomar uma coisa inerte, sem efeito terapêutico, pode melhorar? Tudo aponta para que sim. Em determinadas circunstâncias, um indivíduo, que sabe que está a tomar um placebo para a sua maleita, pode melhorar inequivocamente. Estes achados têm sido abordados por especialistas na matéria e começam a por em causa muitas conclusões. Pode acontecer que as pessoas que estejam a usar placebo, versus outras que não tomem nada, e que saibam o que se está a passar, apresentem resultados positivos. Estes factos vão obrigar a reavaliar um dos paradigmas da investigação clínica. Graças à ação terapêutica de um produto inerte surgiu uma nova terminologia, "O Poder do Nada" (The Power of Nothing), título de um interessantíssimo artigo publicado no passado mês de dezembro na prestigiada revista NewYorker.
Estes achados, que vêm a reforçar o papel cada vez mais importante do placebo, conheça-se ou não a sua existência, poderão abrir a porta a muitos dos nossos concidadãos que se veem à nora com a falta de dinheiro e, muitas vezes, impossibilitados de aceder a medicamentos e aos serviços de saúde. Não tarda que algum eminente responsável da saúde venha a propor o uso de placebos, porque, atendendo ao valor comercial da farinha, do leite (que até conseguem com que seja vendido a preço inferior ao custo no produtor) ou de qualquer outro produto similar, ficaria muito mais económico, resolvendo a faturação dos fármacos. Se viesse alguém a dizer, mas isso não atua, não tem qualquer efeito na doença, ainda teriam como argumento, qual quê, atua pois, está devidamente comprovado que os que sabem que estão a tomar placebos também melhoram. Vá, vamos a isso, a partir de agora só se deve tomar placebos, não se pode usar os genéricos, e, como são mais do que económicos, não vão ser comparticipados.
O "Poder do Nada" já está instalado entre nós há muito tempo, não no campo da saúde, mas nos campos da política e da economia, onde ilustres "terapeutas" propõem dia sim dia sim as melhores soluções para este pobre país. Verdadeiros placebos. Nós, os imbecis de uma sociedade, que se pauta mais pela iniquidade do que pela solidariedade (esta ocorre só em casos de "epidemias"), enfiamos por tudo o que é sítio os tratamentos propostos, que não são mais do que placebos, e, apesar de começarmos a conhecer que são placebos, ainda acreditamos no seu efeito! Uma ingenuidade que se vai perpetuar, permitindo que muitos dos "terapeutas" consigam obter lucros muito interessantes, "lucros" na sua aceção mais ampla. Sendo assim, não fico muito admirado pelos achados dos cientistas sobre o papel ativo do placebo nas investigações clínicas.
O cérebro humano é um mistério, sem dúvida, e muito esquisito, também!

O cronómetro da mudança...

Aqui podemos acompanhar as dívidas dos países em tempo real. É um gráfico interessante. No fundo, mostra a evidência de que as economias prósperas, com elevados PIBs per capita e equilíbrio das finanças públicas e da balança externa correspondem a países com vastos territórios e densidade populacional relativamente baixa. No mesmo registo, apesar da péssima gestão interna de recursos e das insuficiências institucionais, temos os países petrolíferos ou com uma imensidão de matérias-primas.
A China e a Índia com os seus modelos de economia low cost em crescente internacionalização estão em vias de obrigar os países ocidentais a um retrocesso civilizacional.
Depois, temos os países industrializados do Ocidente que se deixaram desindustrializar e que se adoptarem todos simultaneamente políticas de combate aos défices poderão conduzir a uma depressão à escala mundial.
Restam os maus alunos, como Portugal, que há muito perderam toda a capacidade de influenciar o que quer que seja e onde a soberania real é mínima desde há algum tempo, constituindo hoje mais territórios do que Estados - o que se aplica, aliás, à larga maioria de médios e pequenos países desprovidos de matérias-primas significativas.
A mitigação da tragédia anunciada apenas se poderá fazer com doses significativas de disciplina colectiva, coesão social, melhoria da formação e sobretudo com alterações nas formas de pensar das pessoas. Há que produzir mais bens e serviços que tenham crescente procura no mercado internacional.
Mas poderão e terão os nossos empresários (todos nós) capacidade para responder de facto a este desafio? E os trabalhadores vontade de aumentar a sua produtividade? Haverá inteligência e bom senso para isso?

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

As nomeações e os seus riscos políticos...

1.Estamos a assistir à curiosa e habitual novela das nomeações de influência política para cargos em órgãos sociais de empresas, de que são exemplos mais marcantes - e mediaticamente mais explorados – as nomeações para o C. Geral da EDP e para o C. Administração das Águas de Portugal.
2.A agitação é muito grande e mesmo figuras públicas da área do Governo, como é o caso do Dr. Marques Mendes, discordam abertamente de algumas das escolhas feitas.
3.Trata-se de um problema que não é novo, que de resto se repete ciclicamente com a chegada de um novo Governo de cor política diferente do cessante.
4.Há sempre um enorme “exército de reserva” nos partidos chegados ao poder, e na sua órbita de influência - a famosa “clientela partidária” – constituído por elementos desejosos (alguns famintos, mesmo) de se apoderarem dos despojos que a vitória política lhes pode proporcionar, que são os lugares de nomeação política na administração pública (segurança social e saúde, por exemplo) e nos órgãos sociais de empresas públicas ou de outras para os quais o Estado tem o direito ou poder de nomear membros.
5.Essa gente é mais ou menos conhecida, ou pertence aos aparelhos partidários ou aparece normalmente a frequentar as reuniões partidárias, ainda em tempos de oposição, quando o “cheiro a poder” começa a ganhar intensidade...
6.Só que, desta vez, o ambiente de intensa crise em que o País se encontra mergulhado torna este exercício muito mais visível e delicado, alvo fácil de crítica e destruidor de CAPITAL POLÍTICO, por isso parece recomendável que o Governo adopte especiais cautelas nesta matéria...tem-se a noção generalizada de que se está a “rapar o fundo do tacho” e isso socialmente é muito censurável ...
7.Com efeito, a nomeação de pessoas com carreira essencialmente política para cargos empresariais, com a simultânea divulgação das condições de remuneração desses cargos, em alguns casos principescas, um momento de tão grave crise em que são exigidos sacrifícios muito significativas a uma boa parte da população, arrisca-se a derreter, rapidamente, o CAPITAL POLÍTICO de que o Governo tanto carece para prosseguir a ciclópica tarefa de corrigir os desequilíbrios da economia e das finanças públicas...
8. ...e não é preciso ser um génio para perceber que com esse CAPITAL POLÍTICO derretido ou em rápido derretimento, o risco de os objectivos fundamentais do Programa de Assistência Económica e Financeira virem a derrapar pode tornar-se incontrolável...

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

"Stayin' Alive"

Não tenho hábito de andar a ler bisbilhotices, histórias mundanas, vidas de artistas ou de outras figuras ditas públicas, mas, atendendo à prolixidade com que são produzidas, é difícil não tropeçar nas ditas. Até nas áreas cientifica e ética são por vezes objeto de atenção para debater assuntos muito importantes. Foi o que me aconteceu com a notícia de Robin Gibs que sofre de um cancro do fígado. O membro da banda Bee Gees adoeceu gravemente e foi sujeito a terapêutica adequada, quimioterapia, porque provavelmente estaria numa fase complicada que impediu outras técnicas, nomeadamente cirurgia e transplantação. Agora, face à situação que parece ser complicada, sujeitou-se a "naturapatia oncológica", através de uma boa nutrição e sessões de desintoxicação de forma a eliminar as toxinas e a permitir que organismo se cure a si próprio.
É óbvio que o desespero pode levar qualquer um a socorrer de práticas ultra duvidosas e nada condicentes com as evidências cientificas, pelo que a escolha de Gibs e da sua mulher, que parece que é uma sacerdotisa druida, não deverá ser criticada, o que não impede que se possa fazer algumas considerações sobre certas pessoas que se auto intitulam como praticantes de medicinas alternativas e que se alimentam como sanguessugas, como vampiros do desespero humano, levando-lhes o coiro e o cabelo o mais rapidamente possível enquanto a morte anunciada não faça a sua entrada fulminante.
O desplante e a falta de pudor levam mesmo os praticantes a afirmar, em caso de insucesso, que não puderam fazer grande coisa porque os "químicos" destruíram as defesas do organismo, ou seja, a responsabilidade passa a ser sempre da medicina, evitando a penalização das trafulhices de uma fauna repugnante.
Estes tipos de comportamentos deveriam ser denunciados ad nauseam.
Ao longo da vida tive oportunidade de ver muitos casos de actuação que classifico como criminosos. Doentes fragilizados física e psicologicamente foram e são alvos de abutres ávidos de ganhos fáceis. Não culpo os doentes ou os seus familiares que, em momentos de desespero, querem acreditar em tudo a fim de fugir à morte e ao sofrimento atroz, mas repugna-me os "outros", os vigaristas que se aproveitam da situação. Este fenómeno, real na área da saúde, tem, também, o seu equivalente na área social. Em tempos de miséria, de insuficiência de valores e de princípios, de desigualdades socioeconómicas verdadeiramente obscenas e incompreensíveis num estado democrático, que vendeu ilusões atrás de ilusões, é de esperar o aparecimento de grupos de oportunistas que quererão sacar aos mais carenciados o pouco que ainda possuem, empobrecendo-os a uma escala difícil de entender. Entretanto, vamos assistindo à promoção de "sempre os mesmos" como se vivêssemos no país mais rico do mundo, capaz de por a salivar de inveja o D. Manuel I ou o D. João V. E nós, os papalvos, deprimidos, ansiosos, que é que poderemos fazer? "Stayin' Alive"!

Vinho tinto!

Mais um cientista apanhado em contramão por ter manipulado dados. Desta feita tem a ver com o vinho tinto e o resveratrol, uma substância que faz bem ao coração, ao colesterol, às artérias, à cabeça, previne o cancro e sei lá o que mais.
Agora há menos uma desculpa para beber um tintito, como se houvesse necessidade de desculpas, mas é bom ter em consideração o que anda por aí. E se fosse só com o tinto...

A influência deve ser igualitária?

É verdade que alguns factos relevantes se esfumam quando os media passam a dedicar a sua atenção ao espetáculo seguinte. Vivem do ritmo dos acontecimentos, e aos primeiros sinais de esvanecimento do seu impacto espetacular, deixam de prender a atenção do consumidor de publicidade e desaparecem da tabela. Ao toque de caixa do que os órgãos de comunicação social levam para a agenda do dia, abdicamos nós de travar debates importantes para a melhoria da nossa vivência coletiva, e damo-nos por satisfeitos com as análises superficiais dos tudólogos habituais.
Por vezes, porém, o assunto desperta algo adormecido e traz à consciência um assunto versado numa aula, num debate, numa tertúlia, um texto lido em tempos. A interrogação que constitui título deste post é de Ronald Dworkin, feita a propósito da reflexão sobre as instituições democráticas, em especial dos EUA (A Virtude Soberana - A teoria e a prática da igualdade, trad. port., ed. Martins Forte, S.Paulo, 2005). Recuperei o que o famoso catedrático de Direito e de Filosofia escreve em resposta à pergunta que ele próprio coloca e aqui a partilho com aqueles que levam a sua preocupação cívica para lá da espuma dos dias:
  • "A sociedade  igualitária também aprecia a finalidade agencial para a atividade política: que os cidadãos devem ter o maior espaço possível para estender à política a sua experiência moral e de vida. Contudo, as pessoas que aceitam a igualdade de influência como uma restrição política não podem tratar a sua própria vida política como agência moral, pois essa restrição corrompe a premissa suprema da convicção moral: que só a verdade importa. As campanhas políticas sob limites de influência auto-impostos não seriam uma agência moral, mas apenas um inútil minueto de deferências" (p. 273).

Os erros do Estado...

Como é que o Estado comete estes erros? Notificados 117 mil para devolverem 570 milhões de euros de prestações pagas indevidamente. Os pagamentos indevidos remontam a 2004. É paradigmático que a Segurança Social pague a quem não tem direito às prestações sociais e que leve anos para concluir que fez pagamentos indevidos e outros tantos anos para actuar junto dos falsos beneficiários para que regularizem as dívidas.

É este estado de coisas que tem de mudar. Este caso, que agora veio a público, mostra bem a "roda livre" em que anda a gestão dos dinheiros públicos e a mentalidade instalada junto de muitas populações que vale a pena enganar o Estado, nem é preciso fazer muito, não há controlo e os esquemas e truques da pobreza impressionam no momento de despachar a concessão de um subsídio social.

Tem muita razão Marco António Costa, o Secretário de Estado da Solidariedade e Segurança Social: "Nós consideramos que cada euro que fica por entregar a quem precisa dele e portanto, no plano social, a justiça social passa por entregar a quem efectivamente precisa e por reaver de quem recebeu indevidamente".

Mas é necessário ser consequente, reavendo, sim, o que indevidamente foi pago, mas corrigindo os erros na origem. É aqui que são necessárias reformas, no modo de actuação e no funcionamento e organização dos serviços. Mais legislação, tenho dúvidas. Um Estado que não zela pelos dinheiros públicos perde autoridade e presta um péssimo serviço ao país. A Segurança Social não é excepção, com a agravante da ineficácia das políticas de protecção social - geradora de injustiça e iniquidade sociais - e do incentivo a comportamentos fraudulentos. São custos insustentáveis, que pesam no bolso dos contribuintes e em nada ajudam no esforço de repor a sanidade ética e moral perdida.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Euro mais fraco? Pois que seja bem-vindo!

1. Estamos a assistir a um movimento de progressivo enfraquecimento do Euro, que nos últimos meses tem registado perdas em relação às demais divisas, mais visivelmente em relação ao USD.
2.Concretamente, desde um pico em Maio último, o Euro perdeu em relação ao USD 14% e 8% em relação às divisas dos principais parceiros comerciais, em média ponderada pelo valor das trocas comerciais (“trade weighted basis”).
3.Empiricamente, admite-se que uma desvalorização de 10% em “trade weighted basis” propicie um ganho de 1% no PIB da zona Euro...caso essa desvalorização seja duradoura, claro está.
4. As notícias mais recentes sugerem que o Euro tem vindo a ser utilizado para as conhecidas operações de "carry-trade", nas quais os operadores se endividam numa moeda considerada em tendencial desvalorização e com taxa de juro mais baixa, para a seguir aplicarem os fundos em activos expressos em moedas com potencial de valorização e vencendo taxas de juro mais elevadas (dólar australiano, por exemplo).
5.Supostamente, os famosos “hedge-funds” terão vindo nas últimas semanas a intensificar esse tipo de transacções, as quais pressionam o Euro para a baixa, e, com o Euro a baixar aumenta o incentivo para que mais operações dessas se efectuem...
6.Direi que estamos perante boas notícias neste início de 2012, que poderão contrariar os cenários mais pessimistas que para aí se vão desenhando em relação ao desempenho das economias do Euro no novo ano...
7.Paradoxalmente, estas boas notícias são “filhas” de más notícias, pois esta fragilidade do Euro decorre em grande medida da especulação que tem sido feita em torno da crise da dívida soberana e do próprio risco de desintegração da zona Euro...
8.Considerando a lista dos nossos principais 10 parceiros comerciais, que representam mais de 75% das nossas exportações, verificamos que existem quatro que não pertencem à zona Euro – Angola (4º), Reino Unido (5º), EUA (8º) e Brasil (10º) – para os quais se dirigiram 15,3% das nossas exportações no período de Janeiro até Novembro do corrente ano.
9.Temos aí um ganho directo significativo, embora não possamos ignorar que uma boa parte das nossas importações de matérias-primas minerais são expressas em USD...
10.Tudo ponderado, a fraqueza do Euro é uma boa notícia, em tempo de vacas tão magras de boas notícias...façamos votos para que os "carry-traders", sobretudo os temíveis especuladores dos Hedge-Funds, prossigam essa acção de bem-fazer e levem o Euro, se possível, até à paridade com o USD...

A importância do grau

A revelação da existência de um elevado número de “irmãos” no Parlamento e, sobretudo, de que os líderes parlamentares dos três maiores partidos são “irmãos” põe-nos uma nova dificuldade para entender e devidamente enquadrar o discurso parlamentar. É que os "irmãos" não são todos iguais, têm "obediências" próprias e hierarquias bem definidas. De modo que, antes de qualquer discurso na Assembleia, cada Deputado deveria logo declarar a sua obediência maçónica, se à Maçonaria Antiga Tradicional e Legítima, se ao Rito Escocês Antigo e Aceito ou qualquer outro e, acima de tudo, o seu grau hierárquico. É que ouvir um general não é ouvir um capitão: a palavra final é sempre a do general.
Ouvir um mero “aprendiz” é diferente de ouvir um “companheiro” e, sobretudo, ouvir um “mestre” é diferente de ouvir qualquer dos dois primeiros. O conhecimento, a autoridade, a sabedoria são muito diferentes. Como não sabemos quem é “mestre” ou “aprendiz”, vemo-nos agora completamente incapazes de enquadrar o verdadeiro significado das palavras proferidas. Mas a dificuldade vai mais além. É que, havendo na hierarquia 30 categorias de mestres, certamente que um Secretário Íntimo tem uma autoridade e um saber diferente de um mero Mestre e um Cavaleiro do Sol tem certamente um discurso mais sólido do que um Cavaleiro da Serpente de Bronze.
A questão revela ainda maior acuidade quanto aos três líderes parlamentares. Pois se um tiver o grau máximo 33 de Soberano Grande Inspector-Geral, outro o grau 31 de Inspector Inquisidor Comendador e o terceiro apenas o grau 26 de Escocês Trinitário, certamente que palavra mais sábia e autorizada é a do líder com grau 33.
De modo que o melhor é deixarmo-nos de partidos. As votações no Parlamento deverão seguir a dos “irmãos” com grau mais elevado. Cumprindo a “obediência”, seremos todos irmãos. E assim aperfeiçoados, haverá finalmente harmonia entre os homens. Basta seguir o grau!

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Caminhos indignos...

Chama-se desumanidade. Todos nos devíamos interrogar se é isto que queremos. Aqui mesmo ao nosso lado. São pais que em desespero renunciam às suas crianças por não terem dinheiro para lhes dar um prato de sopa e uma cama onde dormirem. Não são os maus tratos e a negligência, agora é a pobreza extrema que impõe a separação de pais e filhos. Só pode ser grande o sofrimento. Para ambos. As crianças que não compreendem porque são abandonadas, que se vêem privadas dos afectos mais importantes da sua existência, do calor do colo dos pais. A tragédia é que estes pais podem ser aqueles que amam verdadeiramente os seus filhos. Não deixa de ser irónico que a mesma sociedade que trata dos filhos dos pais abandonados seja a mesma que não trata dos pais para que estes não abandonem os filhos. Não é apenas uma tragédia grega. Assim vai a Europa dos direitos humanos, da liberdade e da democracia...

Será possível?

Vou contar tal e qual me contaram, garantiram-me que o episódio é um caso real e actual, insisti e confirmaram. Aqui fica, pois.
Uma pessoa que vive algures no centro do País andava com umas indisposições insistentes e decidiu consultar um médico, que o aconselhou a fazer uma colonoscopia para despistar uma suspeita. O exame foi feito com urgência numa clínica privada, sem comparticipação, e demonstrou haver um polipo já com algum grau de desenvolvimento, a aconselhar uma cirurgia sem demoras. Foi então ao hospital da zona, viram o exame, confirmaram o diagnóstico e a necessidade de intervenção, podiam marcar a operação para os próximos dias mas era preciso que a pessoa fosse primeiro ao respectivo centro de saúde, onde o encaminhariam então para o hospital. Assim fez, obteve a consulta em poucos dias, viram o exame, confirmaram o diagnóstico mas havia um problema, o exame médico tinha sido feito numa clínica privada e não servia para fundamentar o envio para o hospital. Era preciso fazer outro igual, desta vez através do centro de saúde, mas infelizmente só havia vaga para daí a quatro meses, sim, era urgente, claro, era igual, claro, não havia razões para duvidar, mas é a regra e acabou-se. A pessoa viu-se assim devolvida à estaca zero, com o exame na mão, a preocupação acrescida e uma longa e arriscada demora à sua frente. Aparentemente, esta é a regra, a saúde pública faz muita questão de pagar os exames ela própria, de fazer o doente sofrer novo exame, por muito invasivo que seja, e de aumentar a lista de espera, tudo a saldar-se em prejuízo, sofrimento e perda de tempo, incluindo dias de trabalho, para não falar no provável agravamento da doença. Será possível que a saúde tenha mundos incomunicáveis, em prejuízo de todos, ou será mais um erro de zelo interpretativo, desperto para a regra e cego para os resultados?

Austeridade atinge, em cheio, selecção nacional de futebol...

1.Foi notícia divulgada em jornais espanhóis na semana passada, em Portugal cuidadosamente omitida por razões que se prendem naturalmente com a necessidade de preservar os mais complexos “segredos de Estado”, matéria em relação à qual os nossos “media” são, como se sabe, especialmente ciosos...
2.E a notícia refere-se ao custo diário da estadia das 12 selecções nacionais de futebol concorrentes à fase final do Euro/2012, a realizar na Polónia e na Ucrânia. Assim, de acordo com a classificação obtida a partir desse custo diário, podemos concluir que a selecção portuguesa é desde já campeã europeia. Vejamos o seguinte quadro:

SELECÇÃO LOCAL DE ESTÁGIO CUSTO DIÁRIO (€)

Portugal Opalenica 33.174
Russia Varsóvia 30.400
Polonia “ 24.000
Irlanda Sopot 23.000
Alemanha Gdansk 22.500
Rep. Checa Wrodaw 22.200
Inglaterra Cracovia 19.000
Holanda “ 16.200
Italia Wieliczka 10.500
Croacia Warka 8.300
Dinamarca Kolobrezeg 7.700
Espanha Griewino 4.700

3.Desconheço se na elaboração desta classificação o conceito de “custo diário” foi devidamente harmonizado (incluindo os mesmos items de despesa/encargo em todos os casos), a fim de tornar os valores rigorosamente comparáveis, admito que não...
4.Mas, mesmo com essa ressalva (que poderá favorecer a Espanha, por hipótese), e a fazer fé nessa notícia, não deixa de ser estranha a disparidade entre o custo diário da estadia da selecção portuguesa em relação a selecções como a espanhola, a holandesa, a italiana, a inglesa...
5.Uma vez que se trata de custo diário global, tenho de admitir que a dimensão da comitiva possa ter aqui uma influência dominante...
6.Mas uma feliz conclusão é desde já possível: temos o campeonato europeu “no papo”, com esta enorme vantagem que levamos em relação à generalidade das demais selecções...
7.E não há dúvida de que a fase de austeridade que vivemos já bateu à porta da selecção nacional de futebol e da digna Federação (financiada tb com impostos/dívida pública) que organiza estas comitivas, atingindo-a em cheio! Aprendamos com este exemplo...

Procriação medicamente assistida

Para ler no Quarto da República. É mais sossegado!


“D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, dona Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje não emprenhou. Já se murmura na corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, insinuação muito resguardada de orelhas e bocas delatoras e que só entre íntimos se confia. Que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade não é mal dos homens, das mulheres sim, por isso são repudiadas tantas vezes, e segundo, material prova, se necessária ela fosse, porque abundam no reino bastardos da real semente e ainda agora a procissão vai na praça."

Acabo de transcrever o primeiro parágrafo da obra do nobel português, Saramago, O Memorial do Convento. Há uma razão para isso. Quando olhamos para a magnificência e grandiosidade do monumento de Mafra temos de encontrar uma razão para a sua edificação. Poderá haver muitas, escondidas, claro, mas a que se sobrepõe a todas elas foi o facto de ter ocorrido um momento de infertilidade real, entretanto, ultrapassado, graças, presumivelmente, à intervenção divina. Tinham passados mais de dois anos sobre o enlace matrimonial e a rainha não emprenhava. Estava definido um dos critérios utilizados para a definição de infertilidade.
Não interessa dissecar como foi verdadeiramente resolvido o problema, mas a sua existência fora um facto que deveria preocupar a segurança e os interesses do estado. Hoje em dia, penso que seria impossível construir algo semelhante com esse propósito, fosse porque dificilmente se acreditaria na boa vontade divina, sem menosprezo da fé de ninguém, fosse porque já não há ouro dos “brasis”. De qualquer modo, o monumento satisfaz e honra os anseios da nação. Que o conservem.
Contrapondo à grandiosidade e magnificência do Convento de Mafra - sinal de gratidão pela resolução de um problema de infertilidade -, gostaria de apresentar outros monumentos de satisfação, desta feita hodiernos, testemunhos do sucesso no tratamento desta doença. Quais? Milhares de sorrisos de alegria estampados nos rostos de pais anónimos que, graças às tecnologias e saber médico, almejaram a satisfação da maternidade e paternidade. Cada um agradece da maneira como pode.
...

Confusão a mais

Diz o povo que “zangam-se as comadres, sabem-se as verdades” e o caso das intrigalhadas que têm vindo a público sobre as lojas maçónicas e respectivos filiados, com todos a apontar o dedo uns aos outros nas páginas dos jornais, parece confirmar este ditado. Mas o que mais impressiona não é saber-se que há pessoas que confundem as suas preferências associativas e as lealdades ajuramentadas, seja em que sede for, com o exercício do poder público, sempre houve e sempre haverá, infelizmente, quem sirva a dois senhores e não distinga o que deve dar a um e a outro. Seria de supor que a violação grave de deveres funcionais no exercício de cargos públicos, a existir a suspeita, daria lugar ao imediato esclarecimento do caso, julgamento e punição se assim se provasse, seja de pessoas da maçonaria ou de outro agrupamento qualquer. E, se houvesse conluio, era uma questão de apuramento de responsabilidades e da sua extensão, fosse lá qual fosse a irmandade em causa. O que impressiona, digo, é a facilidade com que rapidamente se salta desta simples equação do problema para as teses que exigem como “remédio”, suponho que preventivo, a obrigatoriedade de “confissão”, por parte de quem assume cargos públicos, da pertença a essa organização em concreto. Ora, quem diz a essa diz a outras, é uma questão de amanhã, ou depois, surgir outra confusão com quem pertence à Confraria X ou Y, ou à Igreja tal ou tal, ou aos escuteiros, ou à Filarmónica... O que impressiona, e muito, é a ligeireza da desconsideração pela liberdade individual, assim logo à cabeça, antes mesmo de apurados, fora dos jornais e na sede própria, o dano e a sua extensão.
Cada um tem o direito de pertencer livremente, secreta ou publicamente, ao que quer que seja, desde que seja legal, e ponto final. E, do mesmo modo que não podemos admitir que haja quem esteja acima da lei por pertencer a esta ou àquela organização, também não podemos imaginar que haja quem, por isso mesmo, mereça especial reserva e suspeição. O que é do interesse de todos, e deve ser divulgado, é saber quem, porquê e como exerceu as funções em que esteve investido, se abusou do poder que tinha, se perseguiu ou favoreceu ilicitamente alguém, se, em suma, causou dano ao interesse público que devia defender. Tudo o mais está a mais.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Conflito ético ou falta de ética no conflito?

O PS considerou hoje que a nomeação de Eduardo Catroga para presidente do Conselho de Supervisão da EDP representa um conflito ético, já que esteve envolvido nas negociações com a troika, que resultaram na privatização da empresa.
Ora a privatização da EDP estava no programa do Governo do PS e foi o PS a negociar com a Troika o programa de venda das participações do Estado. O PSD (e, por delegação, Eduardo Catroga) limitou-se a concordar, porque também estava no seu Programa.

Conflito ético? Entre o PS e a verdade isso é, sem qualquer dúvida. Seguramente!...
O PS maximiza o conflito. E minimiza a ética. Seguramente, também!...

Mais palavras para quê?


Extrato de uma notícia do Económico. Já sabíamos que um dos problemas do País está na falta de comprimento das promessas. Mas dito à margem de um presépio vivo, ainda para mais na terra do famoso abade, é outra loiça...

domingo, 8 de janeiro de 2012

"Amarelo"

Amato Lusitano, uma das maiores figuras que Portugal viu nascer, morreu de peste em Salónica. Doente, apercebendo-se do fim, lembrava-se com mais frequência da bem-amada e longínqua pátria. Uma pátria que se acostumou a perseguir e a expulsar os que são inconvenientes ou os que não perfilham de determinadas doutrinas. Ao morrer não pensava na morte, nem naquilo que se lhe segue, se é que se segue algo, pensava apenas nas dores que sentia e "no ar que já não consegue vivificar os nossos pulmões - e eu penso sobretudo nos livros que ainda gostaria de escrever, mas que nunca escreverei...".
Todos se afastaram dele, a peste assim o determinava, exceto a bela Almitra que o auxiliou com ternura nos seus delírios e sofrimento.
A peste determinou muitas condutas e regras. Uma delas a necessidade de estabelecer o aviso de perigo, através do içar da bandeira amarela, nos navios, nos portos ou em localidades. Amarelo a cor do perigo, da peste. Em pequeno, aprendi que era a cor da fome e poucos gostavam dela. Eu não sei porquê mas gostava imenso. Recordo que de todos os lápis de cor era do que gostava mais, o amarelo. Talvez por ser mais suave a pintar, não se visualizando os riscos produzidos pelas outras cores, ou então por o associar ao sol. Mas porquê o amarelo como sinal de perigo? Terá sido devido à representação dos quadros clínicos de palidez acentuada das doenças, da febre amarela, por exemplo? Não sei. Jorge Luís Borges confessa que é a última cor a desaparecer para quem perde a visão. Com o tempo a névoa visual acentuava-se cada vez mais, fazendo com que perdesse a capacidade de ver as cores, até chegar ao momento em que só conseguia descortinar o amarelo dentro de todo aquele nevoeiro. Era a única cor que conseguia ver, todos as outras tinham desaparecido. Talvez o amarelo seja a cor mais visível em condições péssimas de visibilidade, daí, dizia Borges, talvez seja por essa razão que os taxis nova-iorquinos são amarelos, mais fáceis de identificar no espesso nevoeiro. Uma tirada tipicamente borgiana.
Andamos mergulhados num espesso nevoeiro, cheios de riscos. Seria melhor colocar bandeiras amarelas em todas as atalaias possíveis advertindo dos perigos que estão a ser construídos neste país. São muitos.
Começo a partilhar da filosofia do médico Amato Lusitano, que nasceu em Castelo Branco em 1511 e que foi pouco lembrado em 2011. O habitual, nada de novo.
Quando se está a morrer não se deve pensar na morte, apenas nas dores e "no ar que já não consegue vivificar os nossos pulmões", mesmo que não consigamos ver a última das cores, o amarelo...

Uma lógica pouco secreta I

A ligação de agentes dos serviços de Informação, vulgo “Secretas”, à Maçonaria foi motivo de grande espanto, a avaliar pelos títulos da comunicação social. E causou enorme estupefacção entre as virgens puras da nossa sociedade mediática e política.
Não vejo razão.
Sendo ambas sociedades secretas, é perfeitamente natural que os agentes se sintam bem nas duas. Ou, então, a lógica é uma batata. É isso: somos um país perfeitamente ilógico. Quando as coisas até se harmonizam, logo começa a batatada.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

"Rosa de Jericó"


Há muitos anos, um amigo, que me tinha convidado para degustar um leitão à maneira, mostrou-me a quinta e a casa. Numa das salas disse-me: - Vou-lhe mostrar uma coisa, que, provavelmente, nunca viu. Coloca-me nas mãos uma massa seca, disforme, revelando que teria tido uma natureza vegetal, mas estava seca, morta. - Sabe o que é? - Não! - Uma rosa. - Uma rosa? - Uma rosa de Jericó. Se colocar em água ressuscita e fica muito bonita. Depois, sem água, volta a secar e retorna a este aspeto, podendo permanecer durante décadas neste estado, até voltar a viver. Fiquei estupefacto. Nunca mais esqueci este episódio. Depois, a curiosidade levou-me a conhecer que esta planta, quando não tem humidade, fica com aquele ar mirrado, sem raízes e deixa-se levar pelos ventos do deserto até encontrar condições que lhe permitem ressuscitar, daí ser conhecida, também, por flor da ressurreição.
Este fenómeno faz-me recordar outro, o aprisionamento do movimento por parte do artista, de forma a rete-lo artificialmente, permitindo que mais tarde, décadas ou séculos depois, volte a ganhar vida. O homem sabe que é mortal e por isso tem necessidade de criar coisas imortais capazes de adquirir movimento em qualquer momento. A isto podemos chamar vida.
Ao encontrar uma velha carta, o seu conteúdo pode adquirir movimento se, entretanto, escrever ou falar sobre o assunto. Esbarrar num velho livro, cair no meio de uma conversa em que velhas histórias são despertadas, defrontar-me com um acontecimento inusitado a relembrar vivências únicas, tocar ou ver um belo artefato, constituem, entre muitos exemplos, formas de por em movimento a vida.
Foi o que aconteceu com a história da checa Milada Horáková, que lutou contra os nazis e contra os comunistas, levando a que fosse enforcada por estes últimos em 1950, a paga para quem militava contra a falta de liberdade, o oxigénio da vida. Mulher desconhecida entre nós, mas que, tal rosa de Jericó, soprada pelos ventos da cultura, acabou por ressuscitar em minhas mãos, obrigando-me a pensar na maldade e na perseguição que os homens fazem uns aos outros. Não fui o único a ler esta história, outros também o fizeram e passaram a dar movimento a outras histórias, como o caso de uma checa que, já depois da liberdade do jugo comunista, foi ao seu país para assistir à morte do velho avô, médico, que, na altura do domínio totalitário, ouvia a "Voz da América", desafiando a vigilância dos controladores da consciência humana, gente ordinária, capaz das maiores atrocidades. Agora, sabia que estava a morrer em liberdade, fez o seguinte pedido à neta: - "Lenka, fazes-me um favor? Telefonas para "A Voz da América" e diz-lhes que "eles" aqui agora já deixaram de me perseguir".
Considero estes dois casos como verdadeiras "rosas de Jericó". Hoje desabrocharam. Amanhã poderão voltar ao estranho repouso, mas estou certo de que irão ressuscitar vezes sem fim ao longo dos tempos.
Horáková criou algo imortal que merece ser ressuscitado, e o velho médico checo, cujo nome desconheço, sei apenas que a neta se chama Lenka, também tem uma história para viver, que hoje me alimentou, ao recordar o significado da liberdade, um bem que pode vir a escassear...

A arte de perder tempo e o nosso Parlamento

Os ilustres Deputados gastaram horas e horas em intermináveis audições sobre as "secretas". Interrogaram, espiolharam, argumentaram, consideraram e desconsideraram, acusaram, confrontaram, declararam. No caminho, sempre se precipitaram para todas as câmaras e microfones da vizinhança para publicitar tão árdua tarefa. O país tinha que conhecer o grandioso trabalho que os vinha ocupando.
No fim, não se conseguiram entender sobre o que ouviram; no pitoresco dizer de uma Deputada, não encontraram uma "narrativa idêntica", para coroar tanto labor. Pelo que surgiram quatro narrativas, a gosto de cada qual.
A cada momento, o Parlamento vem sofisticando a sua arte de perder tempo. Para muitos dos nossos Deputados, tal arte é, por certo, o grandioso objectivo de vida. Ou a única coisa que sabem fazer. Objectivo verdadeiramente extraordinário! Ou não será, mesmo, muito ordinário?
PS: Ah, parece que encontraram uns secretos "veneráveis". Não era o objectivo, mas por sorte caiu-lhes na rede. Vão ter matéria para mais umas audições. Sem narrativa final, que o assunto, para além de secreto, é mesmo veneravelmente secreto.

‘Sócrates volta, estás perdoado’! Será possível????

Alguém é capaz de me explicar esta onda que se está a gerar?
"Volta Sócrates que estás perdoado"!
No Facebook começam a aparecer comentários sobre o ex-grande "líder".
Tinha projecto e liderança! não este lodaçal de mercearia que nos conduzirá a indicadores macro-económicos ainda piores..."
Não sei o que dizer, mas se esta onda continuar, não tarda muito e ainda vão chamá-lo a Paris para tomar novamente conta do País.
Não consigo compreender estes comportamentos!

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Milada Horáková, uma heroína checa (a partir do blogue malomil.blogspot.com)



"Apesar de se ter convertido num símbolo nacional da República Checa, a figura de Milada Horáková (1901-1950) é ainda pouco conhecida no Ocidente e, segundo creio, praticamente ignorada em Portugal. (...) Na trajectória biográfica de Milada Horáková, a tragédia e a militância cívica e política sempre caminharam a par."


É assim que começa o brilhante texto escrito com a mestria e o rigor de António Araújo e publicado no blogue http://www.malomil.blogspot.com/ sobre a heroína checa Milada Horáková e figura marcante da História do século XX. Milada Horáková, jurista, defensora dos direitos das mulheres, militou activamente em defesa da liberdade, da justiça e da democracia, combatendo pela palavra e pela acção primeiro o nazismo, depois o comunismo, sacrificando aos seus ideais os melhores anos da sua vida e, por fim, a própria vida. Em sua defesa levantaram-se vozes poderosas em todo o mundo, mas em vão, provando, ainda e sempre, que a força e a tirania podem sobrepor-se e esmagar os direitos e as liberdades que hoje nos damos ao luxo de dar por adquiridas, nesta Europa aflita pela economia.
Visitem este blogue de grande qualidade, leiam o texto biográfico mas também as cartas que Milada Horáková escreveu à família, pouco antes de ser executada, em 1950.
Tenho a certeza de que, tal como me aconteceu a mim, não serão capazes de parar de ler até ao fim.
Conhecer a Europa, as árduas lutas e sofrimentos e muitos dos seus heróis, tantos deles ignorados ou esquecidos, é uma forma privilegiada e insubstituível de construir um projecto comum, se ele for de facto possível.

O mediatismo no seu melhor...

Depois dos apelos aos boicotes às compras no Pingo Doce, as televisões assentaram arraiais à porta das lojas Pingo Doce para indagar se os consumidores querem ou não continuar a ser clientes do Pingo Doce, com reportagem do tipo “apanhados”, com direito, ou melhor dever, a honras de telejornal. Uns disseram que não, outros que sim, outros que sim mas talvez não, outros que não mas talvez sim, enfim, muitos sem fazerem uma pálida ideia do porquê de um súbito interesse das televisões pelos seus hábitos de compras e consumos. Um caso mesmo à mão de explorar, mas não de esclarecer. Uma vende e rende, a outra não, nada disso. São os “shows” mediáticos habituais, temperados com a necessária dose de demagogia.

Quando falta a sensatez, falta a razão...


Uma das notícias do dia revela que alguns centros de saúde estão a interpretar a Portaria nº 306-A/2011 (publicada no dia 29 de Novembro de 2011) como obrigando ao pagamento de taxa moderadora a quem solicite informação médica por qualquer meio que não o presencial. Consultei a dita. E se no texto não se prevê expressamente a cobrança, o anexo parece confirmar o que se noticia. Por uma "consulta médica sem a presença do utente" devem os estabelecimentos de saúde cobrar 3 euros, 2 euros a menos do que a consulta presencial. Ora, a portaria define como consulta médica o "acto de assistência médica prestado por um médico a um indivíduo, podendo consistir em observação clínica, diagnóstico, prescrição terapêutica. aconselhamento ou verificação da evolução do seu estado de saúde". Neste elenco, ainda por cima exemplificativo de atos que integram o conceito de consulta, cabe verdadeiramente tudo. E a sua conjugação com a tabela constante do anexo, não deixa dúvidas que qualquer informação médica transmitida ao utente por qualquer meio (telefone, mail...) se encontra sujeita ao pagamento daquela taxa.
Pode até encontrar-se uma razão para esta medida. Será, porém,  razão que não se enquadra nem no conceito de moderação do consumo de serviços médicos (antes o contraria), nem sobretudo no conceito de serviço público que o governo tem afirmado ser a natureza da prestação de cuidados de saúde, garantida a todos os cidadãos em estabelecimentos públicos. Mas essa razão assentará numa lógica comercial, a mesma que levou o senhor ministro a afirmar há dias que a maioria dos hospitais está em situação de insolvência, como se a ideia de "insolvência" possa ser usada fora do âmbito do que é puro negócio.
Ninguém mais do que eu reclama do Estado maior rigor na utilização dos dinheiros que são de todos nós, e por isso não regateio aplausos a quem se esforça por racionalizar a despesa. Mas não compreendo e muito menos apoio este tipo de medidas que, desde logo por insensatas, nada têm de racionais. Irracionalidade e insensatez são habitualmente dois ingredientes perigosos. Terá o governo a sensatez de o perceber?

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

É proibido permitir

Neste post o Pinho Cardão refere que há quem proponha o “aumento da tributação como castigo para quem deslocalize as holdings”. Não me admira nada que seja esse o impulso imediato porque na verdade é sempre essa a reacção típica dos portugueses. Sempre que se fala em resolver um problema qualquer, a primeira coisa que se faz é punir, dificultar, sobrecarregar os que insistirem em manter a actuação contrária, em vez de criar estímulos e desbloquear os obstáculos a quem quer adoptar novas atitudes. Ainda se tentou, timidamente, mas tentou, introduzir na nossa linguagem política e legislativa a palavra estímulo, ou invocar e premiar o mérito, tudo muito engalanado com exemplos “estrangeiros” e “boas práticas” e até “reconhecimento”, mas bastaram os primeiros assombros da crise e logo se recuou rapidamente, muito antes de se ter sequer arriscado ver os resultados. Basta ver que a grande inovação dos prémios de gestão, da fixação de objectivos com prémios de mérito, do estímulo à poupança através dos PPR, do incentivo a que as pessoas tivessem carreiras contributivas estáveis, ambicionassem progredir nas carreiras, ousassem ter mais formação para facilitar a mobilidade, etc, etc, tudo isso se foi num fósforo. De um dia para o outro, os prémios foram congelados, mal vistos e vilipendiados a título de um ou outro abuso alardeado até à agonia, e deram lugar a quê? Adivinharam. Ao despedimento em caso de não se cumprir os objectivos, ao fundamento para demissão em caso de se ficar aquém dos resultados, ao fim da relevância fiscal das poupanças, a degradação insensata do rendimento dos certificados de aforro, à mobilidade imposta e sem direito a qualquer melhoria de situação. Aceitamos muito melhor, e achamos sempre muito mais eficaz, impor e punir, do que estimular e dar oportunidades para que as pessoas procurem, por ser do seu interesse, situações que beneficiam todos.

Queremos, por exemplo, inverter o drama da degradação dos imóveis, espelho cruel da absurda política de arrendamento? Temos pressa em que os proprietários invistam no que, apesar de tudo, é deles? Pois ainda hoje li que os prédios devolutos vão passar a pagar… o triplo do IMI! Sim, o triplo, como castigo, claro, os impostos, fiquem sabendo, são uma arma punitiva de excelência, o facto é que é mais fácil que a generalidade das pessoas reconheça a eficácia da ameaça, por absurdo que seja o seu fundamento, do que a esperança de uma mudança por estímulo.
Desta mentalidade, que não melhorou com as novas gerações, resulta um ambiente opressivo para quem quer mudar confiando que será reconhecido e o seu exemplo seguido e, o que é pior, resulta uma permissividade total para quem aproveita o mais que pode da ausência de punição, até que, mais cedo ou mais tarde, ela chegue. É este ciclo vicioso, permanentemente alimentado, que leva ao que temos: regras aos montes, parangonas sobre o sucesso das cobranças em multas, como um êxito, quando o que devia era haver constrangimento com o aumento das faltas, desânimo dos que levaram a sério os estímulos e acabam enxovalhados, prejudicados e, não raras vezes, ridicularizados por terem sido trouxas. Não sei se a crise é uma oportunidade, estou um pouco farta de clichés. O que eu gostava de ver era a coragem de olhar, por uma vez, os que têm o mérito, o tempo e a paciência para persistir no caminho do sucesso, deixando falar quem fala, e mantendo o seu rumo, na esperança de que, pela crise ou apesar dela, seja reconhecido que todos ganhamos com os resultados, em vez de nos empolgarmos a contar o espólio das multas e número dos “apanhados” nas pequenas vinganças com que punimos os que escapam à fina malha das proibições e punições.

"Chiça"!

O acaso existe e precisa de ser reconhecido e interpretado, de outro modo pode induzir em erro, criar preconceitos e ser fonte de infelicidade. O raio do acaso ameaça tudo e todos, quer no dia a dia quer na ciência. Neste último caso dispomos de alguns meios que permitem controlar ou minimizar evitando os seus efeitos negativos. Um dos fenómenos com que nos confrontamos com certa frequência é a "regressão para a média". Para dar uma ideia simplificada do mesmo, podemos utilizar alguns exemplos. Um aluno regular, que vai tirando aquelas notas meio mixuruca que lhe permite passar de ano, vê-se de repente com uma alta classificação. Os pais, orgulhosos, veem no filho algo de novo. Está mudado. Até tirou uma nota altíssima. Vai daí premeiam-no à maneira. O rapaz merece, dizem ufanamente. Mas logo a seguir volta tudo ao mesmo. Conclusão dos pais, não deviam ter premiado daquela forma, estragaram-no. Em contrapartida, um bom aluno pode ter um insucesso sem que isso signifique algo de mal, mas corre o risco de apanhar um castigo dos pais, injustamente, apenas porque o acaso lhe pregou uma partida, mas logo a seguir volta tudo à normalidade, embora não se tenha livrado de algum sofrimento ou incompreensão. No desporto também acontecem casos semelhantes, heróis casuais que logo a seguir acabam na mediania que sempre os caracterizou; entrementes conseguiram gozar de fama e proveito quais novos Pelé ou Eusébio. Enfim, a regressão para a média é um fenómeno em que medidas subsequentes tendem a aproximar-se da média.
Esta introdução serve para explicar algo preocupante que está a ocorrer na sociedade portuguesa. O nível de conhecimentos está em franca diminuição, a cultura estremece, a ignorância torna-se arrogante e os cidadãos não se incomodam minimamente em demonstrá-la publicamente como se fosse a coisa mais "normal" (média) do mundo. A televisão, na sua missão de serviço público, é um bom exemplo e, também, uma boa escola, ao promover espetáculos de qualidade mais do que duvidosa, alguns mesmo deploráveis, enquanto noutros, usando e abusando dos conhecimentos, pretendem fazer com que passemos o tempo a consumi-la e, quiçá, aprendendo alguma coisa. Tenho muitas dúvidas se aprendemos ou não com certos concursos televisivos, mas, pelo menos, informa-nos da qualidade cultural dos intervenientes, alguns dos quais conseguem provocar arrepios convulsivos, umas vezes de riso outras de tristeza. Passo a exemplificar com um programa do concurso "O Elo Mais Fraco", um programa em que o apresentador, meio taranta, põe-se a fazer perguntas de rajada, acabando por insultar os participantes de forma pouco educada, ou mesmo sem qualquer educação. Num deles, e a propósito da bandeira nacional, um dos intervenientes começou a dar explicações sobre as cores e os símbolos da bandeira. Meu Deus. Nem queria acreditar. Ouvi tanto disparate, tanta ignorância, tanto despudor e o concorrente sempre com ar sorridente! Como é possível? O senhor era mesmo português, falava português, tinha nome português, Angelo, de sua graça. Incrível. Não consigo compreender. Muito fracos, demasiados fracos, fracos demais... O facto de agora haver muitos canais permitiu-me refugiar num mais simpático e menos agressivo, o Canal Panda, devido à crescente influência dos netos! Este fenómeno que acabo de escrever não é isolado, não senhor, está em franco crescimento, denotando uma "média" nacional baixa e convidando naturalmente a uma "regressão para a média" por parte dos restantes.
A solução de muitos males está precisamente em fugir à "regressão para a média", o que exige muito esforço, estudo, empenhamento e determinação. Mas com programas deploráveis e de fraco nível o que é que estamos a criar? Abaixamento das nossas capacidades, no sentido literal do termo, acabando por comprometer qualquer sucesso ou crescimento da sociedade.
"Chiça"! É demais.

Quem cria emprego é o mau da fita!...

A transferência para a Holanda da sede de uma sociedade detentora de 56% da Jerónimo Martins é o tipo de operação do mais racional que pode existir. E a celeuma que tal acto levantou só comprova as razões da nossa actual situação económica e o subdesenvolvimento da nossa classe política.
A deslocalização deu-se tão só porque há liberdade de circulação de capitais e a Holanda tem um regime fiscal favorável para as sociedades em geral e para as holdings em particular, por isso muito atractivo para capitais nacionais e estrangeiros. Regime que vai para lá de uma mera tributação de dividendos, espantalho logo levantado, mas abrange um vasto leque de operações, a começar pelas condições de acesso ao mercado financeiro.
Mas o maior paradoxo desta estúpida discussão em que vi envolvidos Deputados e também jornalistas está no remédio com que se pretende remediar a situação: aumento da tributação como castigo para quem deslocalize as holdings, em vez de uma aproximação ao regime holandês.
Fiz parte do Grupo muito restrito coordenado pelo Dr. Eduardo Catroga (apenas 4 pessoas, incluindo o próprio) encarregado de redigir o Programa do PSD apresentado nas últimas Legislativas.
Na base da opinião de destacados fiscalistas e na experiência dos membros desse Grupo de Trabalho, nomeadamente do Dr. Catroga, e escrita pelo meu próprio punho, lá constava na versão apresentada a revisão do regime das sociedades holding, em linha com as melhores práticas internacionais. Mais se dizia que essa revisão se tornava necessária como forma de atrair entidades dessa natureza (isto é, holdings) para Portugal e para impedir a deslocalização de entidades portuguesas para outras praças internacionais.
Não tenho à mão a versão final aprovada pelo PSD, mas, e falando de memória, creio que essa disposição não foi minimamente alterada.
E até se ia mais longe, ao propor medidas com vista a transformar Portugal num centro financeiro para os investidores dos Países Lusófonos, criando um regime especial de isenção nas SGPS’s e nos fundos de investimento.
Este era, e é, o caminho.
Melhor fariam pois os Deputados se nele investissem o seu tempo, em vez de o gastarem em asneiras próprias de quem se move num mundo virtual. Se do Bloco, do do PCP e do PS nada se espera, os dois primeiros pela sua natureza, e o último pela sua demagogia, já do PSD e do CDS se estranha a forma condenatória com que se referiram ao assunto. Mas tudo isso explica a situação portuguesa. Com Deputados fora de tempo, não há políticas públicas correctas. Só vozearia. No fim, e como sempre, quem cria emprego é o mau da fita.

Austeridade criativa...

Pode ser uma questão de tempo, lá mais para o Verão...

"Praga" da baixa dos juros da dívida pública chega a Portugal...

1.Nas últimas semanas de 2011 editei alguns Posts pondo em relevo a aparente contradição entre, POR UM LADO, as análises extremamente negativas que os nossos principais especialistas vinham fazendo sobre as conclusões da famosa Cimeira Europeia de 9 de Dezembro e as decisões do BCE do mesmo dia e, POR OUTRO LADO, a crescente facilidade com que a partir daquela data diversos países da zona Euro – com destaque para a França e a Espanha e até a própria Grécia – conseguiram colocar dívida, sobretudo de curto prazo, a taxas muito mais baixas do que antes...
2.No caso português não houve possibilidade de testar em 2011 essa inconsistência, uma vez que o IGCP cancelou o único leilão de dívida que estava agendado para esse período (20/XII)...
3....mas o IGCP acaba de efectuar hoje o 1º leilão de dívida de 2012, tendo conseguido colocar a totalidade do montante anunciado, € 1.000 milhões em Bilhetes do Tesouro, com vencimento para 22 de Abril próximo, obtendo uma taxa média ponderada de 4,346%, a qual é inferior em mais de 0,5% à taxa do último leilão de 2011 (tinha sido 4,87%)...
4.Assim, também o Tesouro português, pelo menos por agora, consegue maiores facilidades de financiamento no mercado, contrariando as previsões pessimistas dos citados especialistas...nunca fiando é certo, mas "enquanto o pau vai e evm, folgam as costas"...

5. Neste quadro de tamanhas divergências entre discursos e realidade, talvez seja tempo de os nossos especialistas em temas europeus começarem a trabalhar um novo discurso, refazendo os raciocínios catastrofistas com que nos bombardearam durante semanas a fio e em que zurziram os líderes europeus, sem dó nem piedade, acusando-os de falta de visão europeia e de não entenderem nada sobre a crise do Euro...
6.Mas os nossos especialistas são personalidades dotadas de grande poder imaginativo e de adaptação às mais diferentes e adversas circunstâncias.

7. Se esta “praga” dos juros mais baixos prosseguir (como seria desejável, de resto), ainda os vamos ouvir tecendo elogios – tímidos de início, mas ganhando a pouco e pouco maior intensidade - à forma como a zona Euro e os seus decantados líderes souberam, em boa hora, encontrar o antídoto para a crise...
8....e, quem sabe, abraçar uma nova tese, sustentando o pleno restabelecimento do Estado Social que as novas condições de financiamento começarão a propiciar...

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Desequilíbrio externo e vendedores de ilusões...

1. A informação mais recente sobre as contas externas, cobrindo o período Janeiro a Outubro, mostra uma forte melhoria no saldo das balanças de Bens e de Serviços (ou Bens+Serviços).
2. Assim, e com referência aos primeiros 10 meses do ano, o défice conjunto de Bens+Serviços passou de -€ 9.084 milhões em 2010 para -€ 5.000 milhões em 2011, uma queda de 45%. Que se explica por:
- Redução do défice de Bens, de -€ 14.702 milhões para -€ 11.581 milhões (-21,2%);
- Aumento do superavit dos Serviços (com destaque para Turismo), de € 5.648 milhões para € 6.584 milhões (+16,5%).
3.Trata-se de uma melhoria muito assinalável, cabendo ainda referir, no tocante à redução do défice de Bens, que este resulta sobretudo do crescimento das exportações, de € 30.402 milhões para € 35.272 milhões (+16%), uma vez que as importações, apesar do arrefecimento da procura interna, ainda aumentaram passando de € 45.145 milhões para € 46.853 milhões (+3,8%).
4.Pelo andar da carruagem, caso as exportações de Bens e de Serviços mantenham um razoável ritmo de crescimento em 2012, poderíamos aproximar-nos de uma situação de equilíbrio no saldo conjunto Bens+Serviços, o que seria um enorme progresso no sentido da correcção do desequilíbrio externo, se não fosse...
5. ...uma outra componente da Balança de Pagamentos, a dos Rendimentos, cujo défice, em resultado do brutal crescimento da dívida ao exterior nos últimos anos (15 anos), disparou para valores quase astronómicos, tendo conhecido novo agravamento no corrente ano: de -€ 6.544 milhões em 2010 (primeiros 10 meses) para -€ 7.696 em 2011, devendo no final do ano exceder € 9 mil milhões ou seja cerca de 5,5% do PIB, nível máximo histórico...
6. Curiosamente, o défice dos Rendimentos será um dos poucos temas em que o Dr. Medina Carreira se tem mostrado optimista, pois ouvi-o afirmar há algum tempo que este défice era de tal monta que “levava a totalidade das receitas (líquidas) do turismo”...
7. ...quando a realidade é que este défice não “leva” só as receitas (líquidas) do turismo, “leva” também a totalidade das receitas líquidas dos demais Serviços e ainda “leva” a quase totalidade das remessas dos emigrantes...
8.Podemos assim concluir que, apesar da melhoria muito sensível das componentes da balança de pagamentos cuja evolução pode ser influenciada pela política económica (Bens+Serviços), isso não nos resolve o problema de desequilíbrio externo pois temos este pesadíssimo “ jugo” dos rendimentos a pagar ao exterior, resultante de um endividamento absurdo, um “jugo” que teremos de carregar não sei por quantos anos mais...
9.E lembrarmo-nos de que em 1996 o saldo dos Rendimentos era ainda positivo!
10.E lembrarmo-nos que nos disseram, há alguns anos, para não nos preocuparmos com o endividamento externo, agora que estávamos numa zona monetária como a do Euro não se justificava atribuir significado macroeconómico ao desequilíbrio externo...
11.Mas quem “nos” mandou dar ouvidos a vendedores de ilusões?! Ou será que ainda continuamos a dar?...

É oficial!

Há por aí quem considere possível que um concurso para contratação de serviços jurídicos pela entidade gestora de um programa oepracional preveja no respetivo caderno de encargos que "durante toda a execução do contrato a celebrar o adjudicatário [i.e., a sociedade de advogados a contratar] não pode estar em situação de conflito de interesses relativamente a mais do que cinco das entidades beneficiárias" desse programa público? Pois não só é possível como é oficial - Vd. Diário da República, II Série, nº 240, Parte L - Contratos Públicos - Anúncio de Procedimento nº 6073/2011.
Realidades escandalosas? Bah!...

"Liberdade de pensar"

Acabo de ler uma entrevista de José Maria Castillo, ex-jesuíta, ao Público. Aos 78 anos, e depois de ter pertencido durante 52 anos à "Companhia", decidiu sair, argumentando a necessidade de manter a liberdade de pensar. É assustador, ou talvez não, o retrato e as críticas que faz à Igreja, sem por em causa a fé, a sua e a dos outros. Castillo diz que "há medo na Igreja", que há um poder baseado na fragilidade da vivência, ficando acautelado deste modo a força da hierarquia. Afirma que "a Igreja acabou por se organizar de maneira que o centro da vida cristã de muita gente não é já o Evangelho, mas a própria Igreja. Para muitas pessoas, tem mais importância o que diz o Papa do que diz o Evangelho". Uma bela chamada de atenção. Quanto aos processos de perseguição e silenciamento dos que defendem o regresso ao espírito do Evangelho, o dissidente da Igreja revela o sofrimento por que passou e relata outros casos de perseguição a teólogos alguns dos quais quase que chegaram a utilizar a arma do suicídio. Um deles, Bernard Häring, escreveu que "teve dois processos: um da Gestapo, e outro do Santo Ofício, depois do Concílio. E dizia: Prefiro o da Gestapo, é mais suportável". Arrepiante!
A força da Igreja baseia-se no poder que tem sobre as consciências, e, para o efeito, o pecado dá muito jeito. Castillo afirma igualmente uma certa incongruência dentro da esfera de ação da Igreja que quer controlar até ao ínfimo pormenor a sexualidade, mas é complacente com outros pecados, muito mais perigosos e com consequências terríveis, como é o caso do poder económico. Tomara, então, dinheiro não é poder?
Que pena não podermos ouvir a opinião de Jesus nos tempos que correm sobre as atividades da "Sua" Igreja.
Ficaríamos surpreendidos? Eu não, e a Igreja tão-pouco. Mas como Ele não aparece, acabo por perder, mas, pelo menos, mantenho a "liberdade de pensar", algo que em tempos seria impensável!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

"Tempo uterino"!


ESTA PONTE FOY PRINCIPIADA NO ANNO DE 1793 EM QUE NASCEO A SERENÍSSIMA SENHORA PRINCESA D. MARIA THEREZA, E ACABOU-SE NESTE ANNO DE 1795, EM QUE NASCEO O SERENÍSSIMO SENHOR PRINCIPE DA BEIRA D. ANTÓNIO.”


Quando se caminha, com ou sem propósito, somos, muitas vezes, surpreendidos pelo que nos rodeia, mesmo nos trajectos palmilhados vezes sem conta. As imagens são sempre diferentes, a atmosfera respira de acordo com os sentimentos, ofegante umas vezes, calma outras e todo o espaço envolvente, como se tivesse vida própria, põe-se a rir ou a chorar numa súbita e incompreensível bipolaridade, a imitar os humanos e a querer dizer-nos qualquer coisa. Falas que não se entendem mas que se fazem sentir.
Olho para o relógio e calculo o tempo que disponho. Não muito. Será suficiente para descobrir algo de novo? O quê? Não sei. Sinto uma vontade tipo aditiva, esquisita, a relembrar os velhos tempos de nicotinodependente. Eis que olho pela enésima vez para o memorial da ponte, que já conheço de cor. Curioso, pensei. Há várias formas de contar o tempo, mas esta é de facto original. Uma ponte que foi construída entre dois partos. Um útero prolixo e devidamente fecundado marcou o início e o fim da sua construção. Hoje, com tantas limitações à fecundidade, seria impossível cronometrar em termos uterinos.
Um tempo uterino é um tempo vivo que contrasta com tempos mortos. Acabei por concluir que não se deve matar o tempo mas dar vida ao tempo.
Foi o que fiz com o pouco tempo que ainda dispunha. Dei-lhe vida.

Zona Euro sobreviverá em 2012? Sim; Intacta? Ainda não se sabe...

1.As respostas às questões colocadas em título, sobre as quais muita gente viveu durante 2011 em razoável dúvida ou mesmo angústia, é explicada nos pontos seguintes.
2.Os compromissos dos líderes europeus e do Banco Central Europeu em especial, no sentido de manter a zona Euro no seu formato actual parecem suficientemente fortes para a manter em funcionamento por mais um ano certamente...
3.Os governos dos países que se encontram em situação mais vulnerável deverão prosseguir a aplicação de programas de austeridade, cujo impacto estará escorado por programas ajustados com o FMI bem como pelo crescente apoio dispensado pelo BCE aos bancos em dificuldades...sendo tb de esperar novas reduções das taxas de juro do BCE face à perspectiva de um crescimento mais anémico na zona Euro...
4.Mas esta estratégia fundada na adopção de políticas restritivas não poderá persistir indefinidamente, tornando-se necessário, mais cedo ou mais tarde, um regresso a um cenário de crescimento, possivelmente aceitando níveis de inflação mais elevados no grupo de países “core” (...) para facilitar os ajustamentos na competitividade nos países de economias mais vulneráveis...
5.Por favor, não me chamem optimista: esta opinião sobre o futuro da zona Euro em 2012, que acabei de sintetizar nas breves linhas anteriores, não é minha: é de Martin Wolf, famoso articulista do F. Times, e foi divulgada na última edição de 2011 deste jornal ...
6.Mas não fujo a emitir a minha opinião/aposta: penso que a zona Euro vai chegar ao fim de 2012 e que Portugal continuará a fazer parte da mesma...só não estou certo de que chegará intacta, podendo acontecer que chegue sem um dos seus membros actuais e ainda em tratamento intensivo forçado por essa amputação traumática mas não fatal...
7....não nos esqueçamos que a Grécia deverá realizar eleições gerais em Fevereiro e o que se irá passar depois disso talvez nem mesmo os deuses do Olimpo tenham ainda por claro...

Asia Bibi

Cristã bebeu água de um poço no Paquistão muçulmano. "Conspurcou" a água. Blasfémia. Acusada e condenada à morte!
Uma expressão horrorosa provocada pela religião, a lembrar outras. Mas quem pode acreditar na espécie humana e nos seus dirigentes, enquanto se comportarem assim? Eu não. Definitivamente não consigo acreditar na humanidade, com h pequeno. A outra, com H grande, não existe, nem nunca existirá. Uma utopia que nos faz sonhar. Só isso.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Fim de ano

Não sinto grande atração pelas passagens de ano. Considero, no entanto, que é um ótimo pretexto para as pessoas se divertirem, permitindo que a maioria da população planetária conspire ao mesmo tempo em perfeita sintonia com os fusos horários. Uma repetição cansativa. Presumo que toda aquela alegria, construída em seu redor, se deva ao facto de terem terminado com a vida a um ano, mais do que festejar a vinda de um novo, sempre imprevisível e frequentemente ingrato.
Tento reviver os meus momentos de fim de ano. Nada de especial, considerando que nunca os desfrutei com a exuberância com que pretensiosamente devem ser festejados, exceto, talvez, em criança. Nessas alturas alegrava-me a ideia do fim de ano, porque permitia-me cantar as janeiras. Ia de casa em casa, umas vezes sozinho outras com os meus amigos. Recebia nozes, passas, bolos e, sobretudo, alguns valentes tostões, cinco, dez, vinte e cinco e, uma vez por outra, mesmo cinco escudos o que era uma verdadeira proeza. As saídas à noite, desrespeitando os tradicionais horários de recolha, eram, per si, uma maravilha, ao permitir que apreciássemos o significado de liberdade, versão infantil, claro está! Bater e entrar em casas, em que o braseiro das lareiras e o velho candeeiro de petróleo constituíam as únicas fontes de iluminação, era muito mais agradável e quente do que as que ofereciam uma amarelada e fraquíssima luz elétrica capaz de esfriar a vontade da alma mais quente.
Nunca participei na corrida contra o "velho", em que se usava todo o tipo de instrumentos capazes de produzir barulho, mas os chocalhos eram os que predominavam. Lá em casa havia dois, um grande, que ninguém levava, devido ao peso, obviamente, e um mais pequeno, muito jeitoso, que tinha uma sonoridade única e que era requisitado por alguns familiares. Eu era capaz de o identificar entre todos os outros artefactos. Nunca mais o vi nem ouvi, mas, hoje, se por qualquer motivo tivesse de o ouvir, seria capaz de o identificar. Um som inocente que, misturado com o somatório das doze badaladas do respeitável sino da igreja e o cantar das águas da ribeira, afugentavam qualquer mal personificado no findar do ano.
Outras vezes comemorava a chegada do "ano bom" no café, vendo programas televisivos construídos para o efeito, ou em pequenas festas improvisadas à última hora, sempre mergulhadas em frias e escuras noites, mas sem grande entusiasmo. Nem daquela vez, em que quatro adolescentes, num supetão habitual da turbulência da idade, se lembraram de atacar uma capoeira, sacando do sossego uma pobre galinha que nem um cácárácácá conseguiu emitir, me entusiasmou. Pobre animal que se viu alvo de um sacrifício improvisado ao novo ano. A casa, vazia, de um de nós, foi escolhida para templo. E agora? Como cozinhar? Vamos à fábrica, que está mesmo em frente e sacamos alguma madeira. O pior é que estava molhada e resistia a qualquer tentativa de acendimento. O fumo começou a incomodar e os sinais de insucesso eram mais do que evidentes. Mesmo assim, teimosamente insistiam no propósito. Vinho? Esse não faltava, a adega estava recheada. Comer galinha sem mais nada? É preciso pão. E agora? Já passa da meia-noite! Melhor! Vai-se à padaria. À padaria? Mas fica do outro lado da vila! Fica longe. Quem é que vai lá? Olhámos uns para outros e como era o mais novo vi de imediato dedos a apontaram-me. Ainda tentei refutar, mas sem sucesso. Fiz um rápido balanço da situação. A meia-noite já tinha ido há algum tempo, o fumo não agoirava nada de bom quanto ao futuro do lume, a galinha ainda não tinha sido depenada e não havia água quente. Pus-me a caminho contrariado. Noite fria, demasiado, com um vento cortante. Cheio de sono, vi-me em frente da minha casa, já não sentia os dedos e o nariz ameaçava a cair a qualquer momento. Tinha de andar mais de um quilómetro, regressar, passar novamente em frente da minha casa, voltar a subir a avenida para chegar à casa dos pais do meu amigo, que na altura estavam em África. Muito provavelmente ainda iria assistir à luta para atiçar o lume. Parei, abri a porta e deitei-me. Não digo que ainda hoje estão à espera do pão quentinho. Não. Não estão. Éramos quatro amigos, e os três que ficaram no aconchego da casa a quererem acender a lareira para tratar do galináceo, desiderato que nunca conseguiram concretizar, porque madeira molhada não arde, desapareceram.
Durante algum tempo ainda me chegaram a perguntar se "o pão estava quentinho". Não sei, respondia. Mas rematava: Eu é que tive de ir para o quentinho. Numa noite daquelas só um louco andava na rua a beber ar gelado. Depois deixei de ouvir o ditote. Desapareceram os três, ainda novos...