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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Procriação medicamente assistida

Para ler no Quarto da República. É mais sossegado!


“D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, dona Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje não emprenhou. Já se murmura na corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, insinuação muito resguardada de orelhas e bocas delatoras e que só entre íntimos se confia. Que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade não é mal dos homens, das mulheres sim, por isso são repudiadas tantas vezes, e segundo, material prova, se necessária ela fosse, porque abundam no reino bastardos da real semente e ainda agora a procissão vai na praça."

Acabo de transcrever o primeiro parágrafo da obra do nobel português, Saramago, O Memorial do Convento. Há uma razão para isso. Quando olhamos para a magnificência e grandiosidade do monumento de Mafra temos de encontrar uma razão para a sua edificação. Poderá haver muitas, escondidas, claro, mas a que se sobrepõe a todas elas foi o facto de ter ocorrido um momento de infertilidade real, entretanto, ultrapassado, graças, presumivelmente, à intervenção divina. Tinham passados mais de dois anos sobre o enlace matrimonial e a rainha não emprenhava. Estava definido um dos critérios utilizados para a definição de infertilidade.
Não interessa dissecar como foi verdadeiramente resolvido o problema, mas a sua existência fora um facto que deveria preocupar a segurança e os interesses do estado. Hoje em dia, penso que seria impossível construir algo semelhante com esse propósito, fosse porque dificilmente se acreditaria na boa vontade divina, sem menosprezo da fé de ninguém, fosse porque já não há ouro dos “brasis”. De qualquer modo, o monumento satisfaz e honra os anseios da nação. Que o conservem.
Contrapondo à grandiosidade e magnificência do Convento de Mafra - sinal de gratidão pela resolução de um problema de infertilidade -, gostaria de apresentar outros monumentos de satisfação, desta feita hodiernos, testemunhos do sucesso no tratamento desta doença. Quais? Milhares de sorrisos de alegria estampados nos rostos de pais anónimos que, graças às tecnologias e saber médico, almejaram a satisfação da maternidade e paternidade. Cada um agradece da maneira como pode.
...

4 comentários:

Bartolomeu disse...

Mas vem agora entrando D. Nuno da Cunha, que é o bispo inquisidor, e traz consigo um franciscano velho.
Entre passar adiante e dizer o recado há vénias complicadas, floreios de aproximação, pausas e recuos, que são as
fórmulas de acesso à vizinhança do rei, e a tudo isto teremos de dar por feito e explicado, vista a pressa que traz o
bispo e considerando o tremor inspirado do frade. Retiram-se a uma parte D. João V e o inquisidor, e este diz,
Aquele que além está é frei António de S. José, a quem, falando-lhe eu sobre a tristeza de vossa majestade por lhe
não dar filhos a rainha nossa senhora, pedi que encomendasse vossa majestade a Deus para que lhe desse sucessão,
e ele me respondeu que vossa majestade terá filhos se quiser, e então perguntei-lhe que queria ele significar com
tão obscuras palavras, porquanto é sabido que filhos quer vossa majestade ter, e ele respondeu-me, palavras enfim
muito claras, que se vossa majestade prometesse levantar um convento na vila de Mafra, Deus lhe daria sucessão,
e tendo declarado isto, calou-se D. Nuno e fez um aceno ao arrábido.
Perguntou el-rei, É verdade o que acaba de dizer-me sua eminência, que se eu prometer levantar um
convento em Mafra terei filhos, e o frade respondeu, Verdade é, senhor, porém só se o convento for franciscano, e
tornou el-rei, Como sabeis, e frei António disse, Sei, não sei como vim a saber, eu sou apenas a boca de que a
verdade se serve para falar, a fé não tem mais que responder, construa vossa majestade o convento e terá
brevemente sucessão, não o construa e Deus decidirá. Com um gesto mandou el-rei ao arrábido que se retirasse, e
depois perguntou a D. Nuno da Cunha, É virtuoso este frade, e o bispo respondeu, Não há outro que mais o seja na
sua ordem. Então D. João, o quinto do seu nome, assim assegurado sobre o mérito do empenho, levantou a voz
para que claramente o ouvisse quem estava e o soubessem amanhã cidade e reino, Prometo, pela minha palavra
real, que farei construir um convento de franciscanos na vila de Mafra se a rainha me der um filho no prazo de um
ano a contar deste dia em que estamos, e todos disseram, Deus ouça vossa majestade, e ninguém ali sabia quem
iria ser posto à prova, se o mesmo Deus, se a virtude de frei António, se a potência do rei, ou, finalmente, a
fertilidade dificultosa da rainha.

E então, nasce uma menina que vem a ser rainha de Espanha, só à 3ª, mas sem recurso à promessa de construção de qualquer convento, nasce o primeiro José de Portugal, aquele que vem a ser rei, deixando a governação para quem sabia da poda.

Suzana Toscano disse...

Caro Professor, è muito importante saber que há instituições que honram o compromisso e os objectivos que determinaram a sua existência, mesmo que o papel que lhes destinam seja tão complexo e tão delicado, incluindo o de fazer o espírito acompanhar a evolução técnica embora lhe reconheça a naturalidade de diferentes velocidades. Dessa competência e dessa exigência depende, sem dúvida, o sucesso e o equilíbrio dos progressos científicos, e depende, muito especialmente, que não se deite mão de certos temas com a leviandade de uma agenda política oportunista, a querer ganhos de ocasião. Difícil tarefa, sem dúvida, da qual a CPMA se tem saído com competência e critério, apesar de todas as dificuldades que os temas suscitam, mas o debate é também parte fundamental da evolução das mentes ou da resistência ao que, muito justificadamente, assusta. Seja qual for a evolução que estas matérias venham a ter é, sem dúvida, uma garantia de que esse crivo funcionará e que o que resulte terá sido ponderado e avaliado. Gostei, por isso, de ver o seu testemunho, tão confiante e ponderado, aqui claramente expresso.

Rita disse...

No livro do Saramago, se bem me lembro, está bem patente o sofrimento dos muitos que contribuiram para a construção do "capricho real". Querer o que desejamos tem consequências que por vezes suplantam a bondade do nosso desejo.
Para ter um bebé dos nossos genes, faz sentido o sacrifício de tantos embriões? Faz sentido impor aos outros concidadãos níveis de impostos mais elevados, ou perdas de qualidade noutros serviços de saúde, esses sim imprescindíveis?

Massano Cardoso disse...

Sacrifício de tantos embriões? Mas eles não são sacrificados! Tem havido excedentes, mas com as novas técnicas tem-se vindo a diminuir o número dos que necessitam ser criopreservados. Além do mais já se consegue criopreservar ovócitos, guardando-os para eventual fertilização, caso não se consiga às primeiras vezes. Tudo aponta para que esses problemas de "sacrifício" de embriões desapareça.
Níveis de impostos elevados para a PMA? Não aceito, por várias razões. Em primeiro lugar o delapidar dos impostos é uma constante obscena em muitas áreas e não ouço nem vejo indignação a esse propósito. Em segundo o dinheiro que se gasta neste campo é irrisório, e pergunto: há dinheiro que pague a felicidade de um pai e de uma mãe ter um filho? Não, não há. Basta perguntar aos que conseguiram procriar com esta técnicas ditas antinaturais. Se quiser, basta perguntar-lhes e decerto verá a alegria e a emoção a transbordar em pleno das suas almas.
Minha senhora, falar em perda de qualidade dos serviços de saúde por causa da PMA nem merece comentários, como é óbvio. Ninguém de bom senso será capaz de invocar um argumento desta natureza.
Se faz sentido tanto sacrifico para a construção daquele monumento? Não, nem para aquele, nem para nenhum outro, seja religioso ou não. No entanto, quando olhamos ou entramos em muitos recintos para orar, esquecemos do sangue e da dor que lhes estão subjacentes, e não são tão poucos como isso...

Da minha parte tudo farei para que mulheres e homens consigam ter a alegria de poderem usufruir o amor de um filho, contrariando os desígnios de uma qualquer "vontade" que não aceito.