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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

"Liberdade de pensar"

Acabo de ler uma entrevista de José Maria Castillo, ex-jesuíta, ao Público. Aos 78 anos, e depois de ter pertencido durante 52 anos à "Companhia", decidiu sair, argumentando a necessidade de manter a liberdade de pensar. É assustador, ou talvez não, o retrato e as críticas que faz à Igreja, sem por em causa a fé, a sua e a dos outros. Castillo diz que "há medo na Igreja", que há um poder baseado na fragilidade da vivência, ficando acautelado deste modo a força da hierarquia. Afirma que "a Igreja acabou por se organizar de maneira que o centro da vida cristã de muita gente não é já o Evangelho, mas a própria Igreja. Para muitas pessoas, tem mais importância o que diz o Papa do que diz o Evangelho". Uma bela chamada de atenção. Quanto aos processos de perseguição e silenciamento dos que defendem o regresso ao espírito do Evangelho, o dissidente da Igreja revela o sofrimento por que passou e relata outros casos de perseguição a teólogos alguns dos quais quase que chegaram a utilizar a arma do suicídio. Um deles, Bernard Häring, escreveu que "teve dois processos: um da Gestapo, e outro do Santo Ofício, depois do Concílio. E dizia: Prefiro o da Gestapo, é mais suportável". Arrepiante!
A força da Igreja baseia-se no poder que tem sobre as consciências, e, para o efeito, o pecado dá muito jeito. Castillo afirma igualmente uma certa incongruência dentro da esfera de ação da Igreja que quer controlar até ao ínfimo pormenor a sexualidade, mas é complacente com outros pecados, muito mais perigosos e com consequências terríveis, como é o caso do poder económico. Tomara, então, dinheiro não é poder?
Que pena não podermos ouvir a opinião de Jesus nos tempos que correm sobre as atividades da "Sua" Igreja.
Ficaríamos surpreendidos? Eu não, e a Igreja tão-pouco. Mas como Ele não aparece, acabo por perder, mas, pelo menos, mantenho a "liberdade de pensar", algo que em tempos seria impensável!

13 comentários:

Bartolomeu disse...

Perdoe-me a impertinência, caro Professor, mas, ouvir Jesus, podemos sempre e a todo o momento. Seja naquilo que concerne à igreja católica, que creio não ser a precursora do verdadeiro sentido da palavra que ele disseminou, como relativamente à liberdade de cada um de nós.
Sinais como este que o Professor de Teologia denuncia, levam-me a pensar, que as profecias de Nostradamus acerca do fim do mundo e do anti-Cristo, poderão não ser somente uma mera alegoria...

Massano Cardoso disse...

O meu amigo Bartolomeu não é impertinente!
Quanto ao fim do mundo e do anti-Cristo, e Nostradamus, que me diverte imenso, mas prefiro o Bandarra, prefiro produtos nacionais! digo o seguinte: todos os dias são fins do mundo para muitas pessoas e quanto a anti-Cristos, bom, sempre andaram e andam por aí, às "paletes"!

Bartolomeu disse...

Fico grato pelas suas palavras.
Não era propriamente ao fim do mundo físico, que me referia, caro Professor, mas sim; ao fim do mundo, dominado pelo poder eclesiástico, católico, romano.
E se nos nossos dias, este ainda se mantem com a preponderância que se conhece, é facto que se deve, em minha opinião,à proliferação de seitas que apoiadas por uma máquina publicitária, iludem uma fatia significativa de crédulos supersticiosos.

Rui Fonseca disse...

"o pecado dá muito jeito"

Dá muito jeito ou é essencial?
Sem a ideia de pecado com que ideia se consolidariam os credos?

Se Asia Bibi é morta porque, sendo cristã, bebeu da água do poço muçulmano, como se matariam os povos "in nomine dei", e se sustentariam as devoções se todos bebessem do mesmo poço?

Massano Cardoso disse...

Bartolomeu.
Entendido, mas como estamos num ano escatológico, 2012, o melhor é traduzir o que se entende por fim do mundo!

Rui Fonseca
É mesmo isso. Se não fosse a "construção" dos pecados como viveriam as religiões? Entravam em bancarrota...

Rui Fonseca disse...

Já agora, se me permite, gostava de colocar ao Bartolomeu, que também desta poda sabe mais que eu, (desculpe o tosco da rima) uma dúvida:

Leio no Público que o Estado (o Estado, neste caso, também sou eu) foi condenado no passado dia 15 pelo Supremo, uns dias depois do BPN ter sido vendido, uns anos depois do BPN ter sido nacionalizado, ao pagamento de mais 3,5 milhões de euros mais juros contados a partir de 2006, à Consolata, um Instituto Missionário em Fátima, ludibriada
por um bancário do BPN.

Agora a questão:
Aqueles 3,5 milhões foram, certamente, donativos para remissão dos pecados dos doadores ou companhia.

Acontece que o dinheiro evaporou-se pelo caminho e não chegou ao destinatário, partindo do princípio que o destinatário não joga na bolsa. Mas ainda que jogasse, a causa da chegada seria outra.

Quem é que vai pagar, finalmente, à Consolata (com juros, não esquecer os juros)? Eu, o Bartolomeu, suponho, e mais uns quantos "tansos fiscais".

Pergunta: A quem credita o tesoureiro do Céu o dinheiro: aos pecados dos doadores ou aos pecados dos pagadores?

Ilustre Mandatário do Réu disse...

O homem tem um blog http://josemariacastillo.blogspot.com/ onde os que não estão para pagar o fraco jornalismo do Público podem consultar em directo as suas opiniões.

Pessoalmente o que mais me espanta nesta história é que José Maria Castillo tenha ido para padre aos 14 anos e agora queira ser um homem livre. Faz-me lembrar (salvaguardando as devidas diferenças) os comunas que só nos anos 90 é que se aperceberam que afinal o comunismo não era bem o que pensavam e saíram com grande estrondo.

Bartolomeu disse...

Caríssimo Professor, escapa-me inteiramente o sentido do adjectivo que emprega, para caracterizar o ano que agora se inicia. Apesar de não existirem sinais que nos animem a perspectivar um ano em que as mudanças necessárias a uma melhoria do estado social venham a acontecer, nada, que não seja fazer um esforço para manter o ânimo e reforçar o sentido de unidade, poderá sustentar melhor a vontade de inverter a tenebrosa situação em que nos encontramos.
Afinal... nem todos somos maus, alguns de nós, possuem qualidades suficientemente fortes, capazes de nos contagiar e conduzir ao caminho que conduz às alterações que tanto necessitamos operar.

Bartolomeu disse...

Caro Rui Fonseca,
Aquilo que o meu acanhado entendimento consegue perceber, é que existem nas gerências de algumas religiões, paradoxos que nenhum dogma tem o condão de tornar claro.

Massano Cardoso disse...

Bartolomeu. Então não anda a par daquela coisa dos Maias? Segundo dizem o calendário daquele pessoal termina no solstício de 2012. Daí a minha afirmação "ano escatológico". Veja lá que a RTP apresentou no dia 1 o filme 2012. Muito apropriado, sem dúvida.

Caro Ilustre Mandatário do Réu.
Compreendo-o. Mas se não fosse assim perdíamos um bom tema para discutir ou refletir. Afinal, há sempre tempo para o arrependimento. De qualquer modo, ter ido para padre aos 14 anos pode ter sido devido a inúmeras circunstâncias muitas das quais escapam a um garoto com aquela idade. Às vezes ponho-me a olhar para pessoas da minha idade, que conheço bem demais, e fico admirado pelas condutas tomadas aquando do 25 de Abril. Quem os vê e quem os viu! Como tenho dificuldade em interpretar os seus comportamentos, remato, simplisticamente, com a seguinte frase: "são apenas seres humanos"!
Obrigado pela direção do blog.

Bartolomeu disse...

Sim, é verdade, caro Professor, mas, a esse respeito, confirma-se cientificamente o alinhamento dos planetas, com resultados imprevisíveis, nessa mesma data.
Em 1755, o padre Jesuita Gabriel Malagrida, profetizou a ocorrência do terramoto que destruiu Lisboa, tendo acertado na data e na hora da ocorrência. O Marquês de Pombal não lhe deu (aparentemente) importância, porque o padre atribuia à catástrofe, um castigo divino.

Massano Cardoso disse...

Malagrida? Um rapaz interessante, muito interessante, e muito louco, que acabou por ser assado. Meu caro Bartolomeu, de Malagrida sei apenas o que li no romance
"O Profeta do Castigo Divino", de Pedro Almeida Vieira, que vale a pena ler. Nao tenho ideia dessa capacidade profética em termos do terramoto, o que retenho foi um aproveitamento do mesmo para as suas teses meio loucas de castigo divino face aos "pecados" de Lisboa.

Pedro Almeida Vieira disse...

Permitam-me uma só achega, para que a ficção não passe por realidade... No meu romance «O Profeta do Castigo Divino» coloco Malagrida a «profetizar» o terramoto de 1755, adivinhando a data e hora. Mas essa é uma parte romanceada, embora baseada num opúsculo que ele escreveu mais tarde (Juízo da Verdadeira Causa do Terramoto) em que afirma ter tido conhecimento de uma profecia de uma freira do convento do Louriçal e que terá tentado tomar diligências (mas profecias que se "revelam" depois dos acontecimentos eram frequentes naquelas épocas). Em todo o caso, curiosamente, em anos anteriores tinha havido mais profecias, inclusive de terramotos para o Dia de Todos os Santos, mas para os anos de 1752 e 1753 (salvo erro...). A única profecia que efectivamente Malagrida fez foi de novo terramoto para 1 de Novembro de 1756, e causou tanto pânico que o futuro marquês de Pombal viu-se obrigado a «fechar» a capital para evitar uma debandada geral... Esclarecimento feito. Abraços.