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quarta-feira, 7 de março de 2012

Capiroba

Gosto de escrever. Comecei a desenvolver esta apetência quando fui deputado, vai para dez anos, para compensar uma tarde estranha e monótona no hemiciclo. Foi em 2002, tarde de setembro, uma tarde de violenta tempestade, climática, porque politicamente foi de uma sensaboria confrangedora. E a partir daí não parei. Tornei-me num adicto. Aí de mim se não escrever, começo a sentir sinais de privação. Em contrapartida, umas linhas, que demoram por vezes muito tempo a parir, às vezes tenho de usar fórceps ou até fazer uma cesariana à memória, conseguem dar-me a necessária tranquilidade e prazer. Depois, em 2005, houve um amigo que me convidou a participar numa equipa, a dos "quarto-republicanos". Aqui estou eu. No entanto, confesso que já por mais de uma vez estive tentado a abandonar o grupo, devido a alguns comentários menos corretos ou injustos. Intervalo um pouco, mas depois regresso, sinal de dependência? É o mais certo. Tenho que aceitar todas as opiniões, mas esqueço-me sempre de que quem lê nem sempre afina pelo meu diapasão. Alguns têm visões do mundo e formas de ser muito diferentes perante os quais não consigo prever as suas reações. Tento ser correto e utilizar uma linguagem que evite chocar, mas nem sempre consigo. Em contrapartida, como viciado na escrita, tenho de dizer que me apraz ler comentários simpáticos. Mas quem é que não gosta de ser admirado? Eu gosto. E se souber que ajudo ou contribuo com algo de positivo fico muito satisfeito.
Os meus escritos são variados, sou um contador de histórias, gosto de analisar assuntos de natureza social, abordo sempre que posso assuntos de natureza científica e não deixo, de tempos a tempos, de fazer alguma incursão na área política. Já afirmei que, periodicamente, sou alvo de algumas críticas, que o tempo consegue eliminar, talvez mais por cansaço do comentador do que por meu mérito.
O último escrito foi sobre gatos, ratos, um protozoário e alguns efeitos no comportamento humano. Presumo ser a terceira vez que escrevo neste blog sobre o assunto. No entanto, um comentador veio a terreiro insurgindo-se por ter falado sobre este tema e ignorar os "verdadeiros assuntos de interesse nacional". Passo a transcrever o comentário de Caboclo: " ó Dr. Massano ..o que interessam os felinos quando os porcos estão à solta ? Vc viu as noticias do correio da manhã ? as escutas de socrates ? Porque será que este blog não tem noticias sobre tamanha vergonha nacional ? afinal o ex primeiro ministro nunca pôs os pés na faculdade ?????não se lembra da dissertação final ????ahahahahaha kakakakakakakkakaak
não fez um amigo ..um colega ..que farsa nojenta ...vai durar até quando ?
quem não fala no assunto vira cumplice..
e aqui neste blog ..se fala de miados ..miau ..miau ..ffff..miau miau..
Vamos longe sim senhor".
Fiquei sem pio! Ou melhor, não consegui miar! Mas que raio de interpelação foi esta?
Tentei saber quem era o Caboclo, mas nada. Apenas conclui que caboclo ou caboco é o "nome que se dá no Brasil aos indígenas de pele acobreada, geralmente mestiço de branco". Cliquei em cima do Caboclo e consegui descortinar que se tratava de Caboclo Capiroba, nome de um blogue vazio. Tentei saber quem foi Capiroba e verifiquei que se trata de uma personagem de um autor que aprecio, um dos melhores escritores de língua portuguesa, João Ubaldo Ribeiro, na sua obra "Viva o Povo Brasileiro" que, confesso, nunca li.
O caboco Capiroba, antropófago, descobriu as delícias da carne holandesa. Zernike o holandês é aprisionado como se tratasse de gado. A história passa-se no século XVII. Mesmo assim o holandês é obrigado a emprenhar a filha de Capiroba, Vu. Ubaldo pretende, ao parodiar a situação de antropofagia do caboclo ("O caboco Capiroba apreciava comer holandeses. De início não fazia diferença entre holandeses e quaisquer outros estranhos que aparecessem em circunstâncias propícias, até porque só começou a comer carne de gente depois de uma certa idade, talvez quase trinta anos...cujo paladar, antes rude, se tornou de tal sorte afeito à carne flamenga que às vezes chegava mesmo a ter engulhos, só de pensar em certos portugueses e espanhóis que em outros tempos havia comido"... ), definir a origem da identidade do povo brasileiro. Delicioso, no mínimo.
Mas por que razão estou a dar troco ao Caboclo? Por uma simples razão. O cara afirmou que aqui, no Quarta República não se fala e não se critica o Sócrates, mas pior ainda, põe-me na situação de "cúmplice" do dito! Cúmplice a p.q.p.! De todos os insultos que já recebi este é muito forte. Antes de os portugueses o terem escolhido para primeiro-ministro, por duas vezes, já eu andava às turras com ele. Não tenho pachorra para andar a fazer comentários sobre tal personalidade. Na minha terra costuma-se dizer que não se deve gastar cera com ruim defunto, mas não estou na disposição de vir a ser pasto de um Caboclo dos tempos modernos.
Pensando melhor, vou terminar este texto agradecendo ao Capiroba do século XXI. Por que razão? Por ter descoberto talvez a obra prima da literatura brasileira do século XX, "Viva o Povo Brasileiro", que já tenho à minha frente.
Caro Caboclo Capiroba, se não gostar do que escrevo passe em frente. Olhe que eu não me chamo Zernike. Como tudo isto começou com miados, gatos e quejandos digo-lhe o seguinte: se me apetecer "miar", mio, se me apetecer "ladrar", ladro, se me apetecer "grasnar", grasno, se me apetecer "zurrar", zurro.
Meu cara, se tiver fome de "carne humana", vá a Paris e "coma" o Sócrates...


15 comentários:

JM Ferreira de Almeida disse...

E passa pela cabeça do meu Amigo deixar de escrever neste 4R que é seu e privar-nos da delicia de ler apontamentos como este? Ó Professor Massano, isso nem a um caboclo tonto se faz!

Suzana Toscano disse...

Apoiado! Não tinha lido o comentário mas ainda bem que, desta vez, o Massano não nos privou da sua fúria :)

Zuricher disse...

ÃO ÃO ÃO - Um esgar de solidariedade para com os posts do caro Professor Massano Cardoso. Opto é pelo ÃO ÃO ÃO que é mais próximo das minhas afeições no que toca a animais domésticos do que os miados e ronronados felinos. Mas, caro Professor, continue com os seus posts, sejam em forma de miau ou qualquer outra que lhe aprouver porque muito enriquecem a blogosfera.

ÃO ÃO!!

Pinho Cardão disse...

Caro Professor:
Nada tem a ver com felinos, mas acontece que me atrasei num comentário obrigatório ao seu texto sobre o Dia Mundial da Mulher adornado por um quadro da sua filha Inês Massano. Coloquei ontem o meu comentário, mas o post já lá vai há dois dias e o 4R não pára. Assim, vou reproduzi-lo , em homenagem ao alto valor artístico da Inês.
" Embora tardiamente, e por seu intermédio, um grande abraço à sua filha, um verdadeiro talento. Aliás, com o marido, que fez as capas dos livros já editados pelo 4R, dois enormes valores.
E também os votos de grandes êxitos e de um justo reconhecimento público".
E parabéns também aos, naturalmente, orgulhosos pais

Anthrax disse...

Caro Prof. MC...

Estou chocada por ter, sequer, considerado a hipótese de não escrever por causa de um personagem que não contribui com nada de útil.

Eu sei que, também eu, trato quase tudo a tiro de canhão, mas tenho de confessar que na maior parte das vezes é porque acho divertido provocar os outros e lançar o caos na discussão. :) Tanto mais que, quando pretendo dizer algo mais sério, sinto-me na obrigação de informar toda a gente que "agora é que é a sério".

No entanto, não sei se já reparou que não costumo comentar muito nos seus textos. Isto não quer dizer que não os leio. Quer dizer que os leio e que estou a aprender (se é que posso dizer isso). Eu gosto de aprender, isso permite-me alargar as minhas perspectivas, analisar objectos por mais ângulos e estabelecer paralelismos e relações com outras coisas que conheço.

Se o Prof. não escrever, eu vou pensar sobre o quê? Fisíca quântica? Já li um capítulo da enciclopédia sobre isso e - apesar de até ser interessante - não tenho condições para conseguir pensar sobre esse assunto, nem para analisar o mundo sob essa perspectiva.

Assim sendo, ainda bem que mudou de ideias.

Amei a utilização de umas iglas que não digo quais são ;)

Bem haja Prof.

Anthrax disse...

Oooops! Quis dizer siglas e não "iglas", escapou-se-me!

Pinho Cardão disse...

Caro Professor:
Reporto-me agora ao presente post, certamente escrito de um só fôlego, dando largas à voz do coração e da razão. Compartilhei consigo durante 3 anos e picos o lugar de Deputado, um parêntesis na minha actividade profissional, que todavia encarei como trabalho de total dedicação e exclusividade. Conheci-o nessa altura, entrámos simultaneamente e simultaneamente saímos. Por acaso, se é que acasos há, calhou sentarmo-nos lado a lado ou perto um do outro, com o Tavares Moreira e, depois, com a Suzana. Admirei a sua ideia de serviço público e o denodo com que a procurava concretizar. Eu próprio lembro-me, até, de uma vez ter asperamente contestado a Direccção do Grupo Parlamentar por, em determinado debate sobre saúde, não ter entregue a defesa da bancada a uma pessoa com a sua autoridade e prestígio, substituindo-o por pessoa do aparelho, como tantas. Conversávamos muito, tínhamos muitas afinidades e também as suas diferenças. Fiquei amigo do Professor. Amigo e admirador, e também honrado com a sua amizade.
Juntámo-nos depois, aqui, no 4R, que o Prof. Massano honra com os seus brilhantes , cultos e deliciosos textos.
Assim terá que continuar. Os textos do Prof. Massano são um acto de serviço público. O Professor nunca se eximiu a esse acto de cidadania. Tê-lo-emos no 4R até à eternidade!

Caros Comentadores e Visitantes:

O 4R tem sido uma casa aberta. Ao contrário de muitos outros blogs, as visitas têm-se pautado por regras de bom convívio. Quando tal não acontece, e uma meia dúzia de vezes terá sucedido, chama-se-lhes a atenção, o suficiente para se comportarem a preceito. Nesses casos, foram geralmente os próprios a retirarem os seus comentários. Creio que apenas por duas ou três vezes, em 7 anos, a administração do blog se viu nforçada a eliminar comentários, não por razão de opinião, mas de ofensa pessoal intolerável. Não previsionamos os comentários, como alguns, deixamos a entrada livre. O bom convívio entre autores e comentadores constitui a nossa forma de estar.
Creio que todos comungarão deste princípio. A diferença é benfazeja, a ofensa intolerável. E neste blog não é tolerada.

jotaC disse...

Caro Professor Massano Cardoso,
Subscrevo o comentário da cara Anthrax, e acrescento que a leitura dos seus textos é para mim obrigatória... Por favor (!), continue.

Massano Cardoso disse...

Caros amigos e comentadores

Já comecei a ler a obra de Ubaldo Ribeiro. Vale a pena.

Bartolomeu disse...

Muitas vezes, dedico algum do meu tempo a "estudar" as atitudes e personalidades de autores e comentadores dos blogs, através daquilo que escrevem.
É claro que nunca chego a uma conclusão, mas sim a várias e por vezes controversas suposições.
São imensos e variados, os mundos individuais que fazem uso do teclado do computador para, através dele, comunicarem com um "exterior" que imaginam existir com uma determinada forma e num determinado plano. São imensos aqueles que por solidão, por altruísmo, por necessidade de reconhecimento, por vaidade, por temor, por insegurança, por intro e por extroversão, outros por intromissão e muitos nos quais me incluo, por adição, usam esta forma de comunicar, impessoal, insonora e inexpressiva.
O "estudo" que mencionei logo ao início deste comentário, nasceu das perguntas que coloquei a mim próprio, quando comecei a interessar-me por blogs, muito antes de decidir criar um, também: porquê? e para quê?
Foram estas duas questões, para as quais não encontrei ainda respostas conclusivas, que me levaram a seleccionar meia-dúzia de blogs que visito regularmente. Nem todos versam os mesmos temas, nem a todos atribuo segundo o meu critério, a mesma qualidade literária, alguns, roçam até o mau gosto, quer nos temas, como na apresentação dos mesmos, em alguns, não comento, noutros, quase não resisto a fazê-lo. Mas sei reconhecer que raramente escrevo comentários com interesse, quer na construcção gramatical, quer na abordagem ao tema. Contudo, não deixo de expressar os meus pensamentos, sempre na esperança de obter uma opinião, eventualmente divergente daquela que expressei, o que para mim, constitui um estímulo à reflexão e também, que alguém dedicou algum do seu tempo a ler a minha opinião e a formar a sua, ou a comunicar-me aquela que já possuía.
É sobretudo esta dinâmica que me leva a não deixar de ler e comentar os blogs que elejo.
Outros, preferirão usar a injúria e a provocação para marcar posição neste mundo de todos e de ninguém, um mundo sem rostos e sem identidades.
Mas como dizem na sua terra, caro Professor, para quê gastar cera?
Em casos destes, não ha nada melhor que responder como Mário Soares na anedota; quando abordado por um jornalista mais atrevidote e este o interpelou: Sr. Presidente, diz-se por aí que o Sr. tem cara de cu; o que tem a responder àcerca disso?
E o Dr. M. Soares terá respondido: pfhhh... pfhhh... toumacagar!!!

Tonibler disse...

:)

Catarina disse...

Já tinha desligado o pc. Entretanto, lembrei-me: ainda não passei pelo 4R! Tornei a ligá-lo e, mais uma vez, valeu a pena.
Fiquei muito bem disposta com a leitura deste texto. Caro Prof, há sempre uma razão para que as coisas aconteçam. Ora veja, sem esse comentário do Cab.. não sei quê... teria perdido a oportunidade de encontrar o “Viva o povo brasileiro”. Só por isso não foi tempo perdido.
E caro Prof, por puro egoísmo (o meu), não deixe de me propiciar leituras agradáveis. : )
Cumprimentos.

Ilustre Mandatário do Réu disse...

Caro Massano Cardoso,

O meu amigo é muito apreciado. Diria mesmo que algumas da suas histórias já fazem parte da minha memória de tão profundo que se entranharam.

Esta sua posta, está de se lhe tirar o chapéu. Não conhecia esta história que farei chegar a um colega holandês...

Cumprimentos,

bibónorte disse...

Caro Dr. Massano Cardoso
Que grande capirobada! Adorei o seu artigo. Aliás, o sr é a alma deste blogue!
maria

Caboclo disse...

Ahahah..

Valeu a pena ..

1º Dar a conhecer a História do Brasil pela perspectiva dos "perdedores". Grandes ..enormes lições se aprendem naquele livro.


2º Acordar para o perigo real do fim da nossa democracia .Ela ainda respira ..mas uma infecção generalizada irreversível tomou conta dela ..

3º Você só quer aplausos e palmadinhas nas costas ..ou também gosta que alguém lhe avise dos perigos ?

4º Vc pode espernear ..vociferar..dizer palavrões ainda que em forma de sigla ..mas o silencio nos faz cúmplices.
SIM CÚMPLICES !!!
VC É SIM CÚMPLICE!
Vcs ao fazerem silencio sobre as gravidades do que tem vindo a acontecer em Portugal estão a ser cumplices ..quer queiram quer não queiram .
Ou vcs ( tão cultos que são) nunca ouviram a frase , Quem cala consente ? Ouviu ou não ouviu ?
QUEM CALA CONSENTE!!!!

POR EXEMPLO ....HOJE O ENCOBRIDOR GERAL DO REPUBLICA FAZ 70 ANOS ..PORQUE ELE NÃO SE MANDA ?
PORQUE O 4ª RÉPUBLICA, CALA CONSENTINDO ? PORQUÊ ?

APARECEM ESCUTAS PROVANDO QUE O RASTEIRO NUNCA TERMINOU CURSO NENHUM ..E NEM UMA PALAVRA DE INDIGNAÇÃO NESTE BLOG !!
QUEM CALA CONSENTE!

PORQUE OS BLOGS NÃO PERMITEM PÔR UM TAMANHO DE LETRA MAIOR ? IRRA !!
É PORQUE ESTOU GRITANDO MAS ESTE TAMANHO DE LETRA NÃO EXPRESSA O VOLUME DA MINHA INDIGNAÇÃO !!


Mas vc prefere que lhe escrevam ..que belo texto ..que história linda..
Tudo bem ..vc escreve histórias que me fazem lembrar minha infância em trás os montes ..mas nem só de belas historias hoje vivemos .
O nosso país está em perigo ..não podemos passar a vida a ler historias bonitas ..é hora de arregaçar as mangas ..limpar armas ..