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quarta-feira, 21 de março de 2012

Poder e Moral

Divirto-me, é o termo, quando ouço os eticistas a perguntarem a uma audiência o que é que cada um faria no caso de "um comboio ao aproximar-se de uma agulha que dá para duas linhas, numa das quais se encontra um indivíduo e na outra cinco, qual das duas escolheria". A audiência ouve, sente estar perante um dilema, ter de escolher uma solução das duas previsíveis. Ouve-se, porque é fácil concluir, que optariam por matar uma pessoa em vez das cinco. Rio-me. Se estivesse presente na sessão e tivesse que responder diria simplesmente, quando estiver numa situação dessas logo verei. Não sei responder, tenho de a vivenciar e só nessas circunstâncias é que saberei.
As regras morais são construídas com o propósito de gerir e apaziguar as tensões dentro de um grupo facilitando a convivência. Alguns afirmam que perante indivíduos em risco de serem sacrificados escolheremos os que não têm qualquer parentesco connosco. Mas as coisas não são tão lineares como isso, apesar da força da selecção por parentesco. Se no exemplo supracitado a maioria optaria por sacrificar um indivíduo em vez de cinco, considerando como sendo uma atitude moralmente aceitável, já não aceitaria lançar deliberadamente um ser humano na via férrea para travar o comboio, salvando outros. Ou seja, intrinsecamente existe algo que nos impede de matar, pelo menos em oitenta e cinco por cento das pessoas estudadas, confirmando a existência de uma regra contra liquidar diretamente um ser humano, mesmo em caso de "maior bem ou necessidade". Tudo aponta para a existência de regras que "impedem" matar, violar e roubar, as quais são temporariamente suspensas quando dão jeito, caso da guerra, como é sobejamente conhecido.
As regras morais são construídas pelos humanos e sofrem alterações de acordo com o tempo e o momento, servindo para fortalecer a coesão social impedindo ou reduzindo conflitos, os quais, por sua vez, poderão dar azo a comportamentos inexplicáveis. Logo, as leis da moral têm muito que se diga.
Os animais têm comportamentos instintivos que não se podem confundir com a moralidade. No entanto, muitos dos conceitos morais subjacentes aos seres humanos parecem ser também instintivos no mesmo sentido que os observados nos animais. E é bom não esquecer que os nossos antepassados mais remotos, assim como os povos mais primitivos da atualidade, tinham e têm códigos e condutas morais.
Os códigos morais são passíveis de alteração e substituição, já que são construções humanas, desde que ajudem a fortalecer a coesão social. Quando se invocam "princípios morais" que não contribuem para esse fim, então, podemos interrogar, servem para quê? Podem inclusive criar perturbações mais ou menos graves.
De rajada li três notícias invocando "falta de moralidade". Cada uma oriunda de um continente. Nos Açores, um bispo levantou-se contra a distribuição de preservativos nas escolas, invocando que é um convite a atividade sexual precoce, logo, moralmente condenável. Na China, uma ativista conservadora, conhecida pela "Deusa da Virgindade", pretende casar com homem virgem e que "aguente" três anos nessa condição após o casamento. A chinesa afirma que uma "mulher solteira que perde a virgindade pode corromper a moral da sociedade". Em África, a Nobel da Paz, Ellen Johson, presidente da Nigéria, defende uma lei que criminalize a homossexualidade. Três exemplos, que valem o que valem, mas que traduzem a definição de conceitos de moralidade, que não são propriamente exemplos nem estímulos à coesão social, mas formas de pensar que, não sendo novas, continuam a perpetuar-se e que poderão fazer mais mal do que bem. Também é fácil de concluir que é precisamente ao redor da sexualidade que se observa mais conflitualidade, levando a pensar que esta, sendo uma força incontestável da vida, continua a incomodar muita gente. Estando a sexualidade "escondida" nas profundezas da consciência humana, quem a "dominar" sabe, perfeitamente, que poderá mais facilmente controlar e influenciar outras áreas.
A moral ao serviço do poder?

10 comentários:

Rui Fonseca disse...

Não me parece, caro Professor, que a situação configurada no início (a opção entre matar um ou cinco) seja uma questão moral e muito menos uma questão de poder. É uma questão instintiva, porque não pode ser raciocinada.

O maquinista não é colocado perante uma situação em que lhe seja dado sequer reflectir. Provavelmente mata os cinco da esquerda se reparar primeiro no único que está à direita.

Não lhe aconteceu já colocar-se na iminência de se atravessar na estrada e poder levar com um carro que venha em sentido contrário porque um cão lhe saltou, de repente, para a frente do carro que conduz?

E a pessoa que se atira à água para salvar um náufrago sem medir o risco que corre? Fá-lo por uma questão moral?

Já os três exemplos que refere no fim, esses sim, do meu ponto de vista, relevam relações entre a moral e o poder.

A moral, como código de conduta ética, é resultado da depuração dos conflitos sociais. E, já se sabe, qualquer conflito é derimido a favor dos mais fortes.

Se o senhor bispo for suficientemente forte na sua diocese, acabará por impor "a sua moral" mesmo contra as leis da República. O que, acabará por reforçar o poder do bispo. Se não
triunfa a "moral oposta".

A arte renascentista em Itália floresce com o mecenato daqueles que, como contrapartida das suas acções condenadas pela moral católica naquele tempo, patrocinavam a criação de obras de arte glorificadoras de Deus.

Digamos que, neste caso, não podendo o poder impor outra moral comprava a benevolência da moral prevalecente.

A moral ao serviço do poder?
Diria antes: a moral prevalecente é a moral do poder instuido. A Justiça também.

Massano Cardoso disse...

Rui

A introdução tem a ver com a análise moral da questão e não propriamente com a reação que se tem nessas condições. Para comprovar o que acabo de dizer basta ver a minha resposta, só nessas circunstâncias é que eu sei como vou reagir! No entanto, na abordagem que fazem ao assunto, abordagem teórica,obviamente, o que se pretende debater é sobre a moralidade do acontecimento. Além do mais, também queria transmitir a ideia de que certas atitudes "morais" têm na sua base instintos ou impulsos semelhantes aos observados noutros animais. Nada mais do que isso, o resto foi só desenvolver e alertar.

Bartolomeu disse...

Bom... temos de partir para já do princípio, que não é o maquinista do comboio que no caso apresentado opta pela escolha da linha. A selecção ou é feita pelo agulheiro, que poderia ser um dos elementos da equação, ou então, por um sistema automático.Isto, se a opção de travagem estivesse fora de causa. Podendo a opção partir da vontade do maquinista, não sujeita a um qualquer sistema de controlo, então, a avaliação da situação e a decisão da opção, poderiam passar também pela definição do género...
Suponhamos que os cinco indivíduos são do sexo masculino e na outra linha se encontra uma bela mulher... Qual seria o palerma que optaria pela linha onde se encontra a mulher?!
;))

Zuricher disse...

Interessante questão que coloca, caro Professor, muito interessante, na verdade e à qual pode contrapor-se a de se a moralidade deve ser usada como critério ou se, pelo contrário, quando aplicada de forma cega e universal, há casos em que é mais prejudicial que benéfica.

Um dos generais hoje em dia considerado como o melhor comandante de tropas na 2ª Guerra Mundial e talvez o melhor na história do pais, George S Patton, foi alguém que mandou a moral às urtigas e focou-se mais do que nada nos resultados. Pediu sacrificios às suas tropas mais do que qualquer outro general em posição equivalente. Mas conseguiu objectivos muito superiores a qualquer outro identicamente.

A moral, como tudo nesta vida, tem as suas aplicações e o seu lugar. Quando aplicada de forma cega pode ser mais prejudicial que benéfica.

Massano Cardoso disse...

Zuricher

Exato. Em determinadas circunstâncias pode ser muito mais prejudicial do que benéfica.

Bartolomeu
Ai meu caro amigo. o senhor deve andar fora da graça de Deus. Para já, como bem diz, o problema não é do maquinista, mas sim do agulheiro, mas se fosse do maquinista, perguntar-lhe-ia e se em vez de um homem fosse uma mulher a conduzir o comboio? De qualquer forma, estou convencido de que este caso nunca se colocaria entre nós, os maquinistas da CP entrariam logo em greve e resolviam o assunto. ;)

Bartolomeu disse...

;)))
Exactamente, caro Professor.
Mas, convém ressalvar que não foi equacionada também a hipotese de o/a maquinista, poder ser estrábico/a. Nesse caso, optaria certamente pela linha do meio, a menos que se tratasse de um/a operacional da Al-qaeda infiltrado/a, destacado/a para uma missão terrorista...

Suzana Toscano disse...

A questão da moral põe-se sempre em relação a um mal menor, quando as escolhas não levantam problema nenhum é muito fácil ser virtuoso, já dizia Napoleão, todos somos virtuosos quando nos falta a ocasião do vício. Não sei se é a moral ao serviço do poder, mas acho que o poder sempre se serviu e serve da moral para justificar as suas escolhas, todas as formas de poder - as democráticas para lá chegar por eleição e as outras para justificar a sua autoridade - invocam uma espécie de superioridade moral para dissuadir os contestários. A divisão entre "maus" e "bons" tornou-se até primária, na forma como é transmitida à percepção pública, invariavelmente endossadas com questões supostamente morais e de modo a criar problemas de consciência aos que têm que formar opinião. O caso das leis laborais, por exemplo, é muito nítido, os "bons" que são contra os despedimentos e os "maus" que são a favor, ou, pelo contrário, os "maus" que querem é proteger os sortudos que têm o privilégio de um emprego, contra os "bons" que querem defender os desempregados e arranjar espaço para os novos, tudo misturado com muita discussão sobre a eficiência das opções em termos económicos. A moral vigente pode até ser a mesma ou seja, o poder pode não querer impor uma nova ordem moral, mas distorce-a de tal modo que os mesmissimos prinmcípios passam a acomodar atitudes totalmente opostas. Uma discussão muito interessante e difícil, sem dúvida.

Zuricher disse...

Cara Suzana, sinceramente não vejo que a questão seja assim tão dificil. Se nos deixarmos de morais (que quantas e quantas vezes a invocação da moral não é mais do que eufemismo para politiqueirices) e nos focarmos mais do que nada no pragmatismo, na técnica, no custo/benefício das opções e no realismo se calhar todas as questões que elencou tornam-se substancialmente mais simples.

Suzana Toscano disse...

Duvido, caro zuricher, porque o que está demonstrado é que a "técnica", o "custo benefício" e sobretudo o "realismo" são tudo menos dados objectivos, basta ver os debates entre economistas, gestores, professores universitários e gurus de todas as espécies que prodigalizam conferências sobre evrdades absolutas. Além disso, um excelente técnico não é necessariamente um bom político (em geral nem são) nem um bom politico tem que ser um cientista, essa enorme confusão tem conduzido ao descrédito de uns e de outros.

Zuricher disse...

Cara Suzana, percebo o seu post mas não confundamos técnica com técnicos seduzidos pela política embora essa confusão hoje em dia seja muito comum, enfim. É que a coberto da formação técnica há uns quantos por aí que fazem política tentando disfarçar a pulhítica que fazem de técnica. A um, por acaso, há uns anos não muito largos, chamei em público "prostituto de diplomas". E não era insulto!

Esses debates da treta sinceramente dizem-me pouco. A esmagadora maioria das questões com que nos deparamos hoje em dia não se compadecem com essa forma tão leviana, simples e simplória de decidir e fraca figura fazem aqueles que se deixam embarcar nesse tipo de protagonismo pírrico. Alcançar a decisão certa requer estudo aturado e necessariamente moroso por equipas as mais das vezes multi-disciplinares. Requer tempo e trabalho feito calmamente e longe dos holofotes, sem pressões e com serenidade que permita partir das premissas A, B e C para chegar às conclusões X, Y e Z através de processos devidamente validados cientificamente.

Realmente os técnicos normalmente dão maus políticos, sem qualquer dúvida. E quando verdadeiros técnicos tentam meter-se em política dá asneira e cobrem-se a si mesmos de opróbrio tornando-se alvos de chacota generalizada. São estruturas de pensamento totalmente distintas, personalidades totalmente distintas, maneiras de ser e de viver totalmente distintas. Mas então se calhar o bom será atirar os políticos para o canto e instituir a tecnocracia a par com a meritocracia. Tudo se torna tão mais simples e benéfico para todos...