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terça-feira, 13 de março de 2012

Realidades

Tive contacto pela primeira vez com a filosofia no decurso do antigo sétimo ano do liceu, o equivalente ao atual décimo segundo. Recordo-me do livro de capas azuis de Augusto Saraiva que servia de base ao estudo da disciplina. Foi um pouco complicado entrar nestas matérias. Comecei com uma jovem professora, bonita, que substituíram, ao fim de algumas semanas, por um ex-seminarista que se interessava mais pelas videiras, em cultivar batatas e a apanhar couves do que propriamente ensinar filosofia. Mesmo assim, agarrava-me ao livro, tentando compreender aqueles conceitos. Não foi nada fácil. Aprendi nomes de alguns filósofos e consegui "apreender" uma ou outra ideia. Nunca mais me esqueci de um, Soren Kierkegaard, não sei se pela estranha sonoridade do nome ou se pelo facto de ler que a realidade é condicionada pela nossa forma de ser e sentir as coisas, o que varia, e muito, de pessoa para pessoa. Um conceito simples e útil para quem não conhecia nada do assunto. Chamaram-lhe existencialista. Gostei da palavra. Nunca li nada sobre o dinamarquês, mas agora deu-me para aí, embora não esteja com vontade nenhuma de ler todos os seus escritos, apenas compreender um pouco melhor o seu pensamento. Ainda tenho algum juízo.

Considero como interessante a escalada da "existência", que, segundo Kierkegaard, abrange três conceitos básicos. Começa pela estética, em seguida passa à ética, terminando no religioso. No primeiro, o ser humano procura o que lhe dê prazer, coisa dos sentidos, do agradável, mas que acaba por se esgotar na melancolia. Em seguida surgem os valores éticos que condicionam a nossa forma de ver as coisas. Por fim mergulha-se no religioso ou no seu equivalente, a espiritualidade, em que o mundo dos sentidos não tem lugar, apenas a vivência espiritual.

O “desespero” da fase final da estética abre a porta para a seguinte, em que o indivíduo começa a sentir-se responsável pelas suas ações e a respeitar as normas e convenções. No entanto, Soren considera que só através da religiosidade o indivíduo pode encontrar a satisfação existencial plena. Trata-se da religiosidade individual de cada ser, algo que o relacione com o absoluto.

Interessante esta visão do filósofo a que não é estranho o seu comportamento. Desregrado, passou a eticista e terminou em pastor luterano! Esta "ascensão" fez-me lembrar outras individualidades, casos de Santo Agostinho e de frei Gil de Santarém, diabos na juventude, santos na velhice. Como a vida é breve, cumpriram a regra, viver o máximo possível.

O motivo por que abordo este assunto é fácil de explicar. Na vida em geral, e na política em particular, a realidade que cada um quer mostrar aos outros é fruto da interação entre os acontecimentos e a sua forma de estar, de sentir, de olhar, de cheirar e, naturalmente, de pensar. Acontece que, muitas vezes, os outros ficam incomodados, porque têm formas próprias de existência, criando realidades diferentes. Não havendo justaposição das diferentes "realidades" surgem os conflitos. Então, na vida política, é um ver se te avias! Não podemos esquecer que os políticos, de um modo geral, permanecem na fase estética da existência gozando à brava. Analisando-os bem, parece-me que não ficam muito "desesperados" por isso, embora haja alguns que conseguem sentir o peso da responsabilidade ética e viver em conformidade, o que constitui uma subida na escalada da "existência". Tento ver à minha volta se algum já sentiu a necessidade de se relacionar com o "absoluto", mas por mais voltas que dê só se for com o absoluto do poder, do dinheiro e pouco mais. Religiosidade na política? Não. Há, de facto, pessoas ligadas à religião com interesses neste campo, mas isso é outra coisa. A satisfação existencial na política não chega a esta fase. Mas, também, não queria que chegassem tão longe, bastaria que vivessem eticamente, cumprindo com as regras, com as normas, respeitando os outros e contribuindo para a verdade, seja o que esta for. Não o fazendo originam conflitos e incompatibilidades difíceis de resolver.

Ler o prefácio do último livro do Presidente da República para saber quem foi Sócrates não interessa a muitos, mas mesmo assim incomoda as “realidades” dos apaniguados do ex-primeiro ministro. Quanto ao visado, presumo, pelo simples facto de não responder, que já terá entrado na fase “religiosa” da existência, passando por cima da fase ética. Às tantas já estudou Kierkergaard!

9 comentários:

Pinho Cardão disse...

Caro Professor:
Hum...cheira-me que o político Sócrates se ficou pela estética, deixando-nos, a nós, entregues à fase religiosa. A dizer ai Jesus e a recorrer a Nossa Senhora de Fátima...

Tonibler disse...

Ainda não. Mandou um cartão...

Fartíssimo do Silva disse...

Tanta filosofia, tanto existencialismo, para, afinal, dar importância ao sr. Pinto de Sousa que já nos deixou há meses, penso que definitivamente.
Que o PR o faça, num assomo de vindicta e de pequenês, ninguém, com um mínimo de cabeça, estranhará o facto. Já estamos habituados.
Porém, não tendo contribuido para a eleição do PR, como cidadão português que sou e porque Cavaco Silva é também o meu Presidente, confesso que córei de vergonha por ter assistido àquele tristíssimo episódio a bordo de um navio da Armada Portuguesa, invocando (MAL) o artigo 201º da CRP - que nem sequer foi capaz de reproduzir- pretendendo convencer quem o ouvia de que a Constituição diria aquilo que Cavaco disse!
O que estranho é que o Prof. Massano Cardoso, um universitário respeitado, não guardasse o silêncio perante o prefácio do Prof Cavaco Silva (por ser seu apoiante não se exigiria que crticasse o Presidente). Mas citá-lo para ironizar com um morto político, convenhamos que não lhe fica nada bem!
Concluo, assim, que o espírito daquela personagem ainda paira por aí como um fantasma...
Não seria melhor ir à bruxa?

Massano Cardoso disse...

Não Fartíssimo da Silva, desculpe, enganei-me do "Silva". A sua posição revela aquilo que disse, cada um tem a sua "realidade". E as bruxas também têm as suas. E, que eu saiba, na política não há mortos, Além do mais, a história tem tendência para repetir-se. E ser-se académico não implica, nem impede que se ironize. O homem está vivo, que eu saiba!

Fartíssimo do Silva disse...

Mas parece ainda que o incomoda! Será falta de tema? Claro que a ironia é uma coisa saudável. Mas, se resulta de uma obsessão, então a ironia deixa de ser uma coisa saudável!
Que tal um exorcismo? A Igreja católica já o admite em certas circunstâncias. Força, Professor!

Massano Cardoso disse...

A mim não me incomoda o Sócrates ou o Fartíssimo. Temas para abordar é coisa que não me falta! Obsessão é um diagnóstico errado da sua parte. Não sofro de quaisquer perturbações obsessivo-compulsivas (POC) e se sofresse não era com exorcismos que as trataria, como é óbvio, Fartíssimo da Silva. Em que século é que o senhor vive? Hoje, as POC são perfeitamente tratáveis com fármacos muito eficazes, felizmente. Quanto aos exorcismos acho que são muito interessantes, sob o ponto de vista psicológico, claro está, mas mais depressa iria à bruxa, conforme o senhor me aconselhou do que acatar tal prática! Até porque nunca me passou pela cabeça considerar os seus mentores políticos e ideológicos como diabos! Alguns são mesmo uns diabretes, mas dar-lhes estatuto de diabos, é demais!

jotaC disse...

Caro Fartíssimo do Silva,
Não leve a mal meter a foice em seara alheia, mas na verdade não posso deixar de a fazer porquanto o respeito a admiração que tenho pelo Professor Massano Cardoso a isso me obriga.

Compreendo muito bem que não goste do prefácio do roteiro do PR, eu também não, acho que é no mínimo extemporâneo, mas o facto de eu não gostar não me dá o direito de censurar quem gosta, todas as opiniões são válidas, acho eu!

Bartolomeu disse...

Quatro anos depois de ter casado, moramos uma temporada em casa do meu sogro. O homem tinha enviuvado, sentia-se um pouco só e o coração de filha, convenceu-me a anuir. Fechámos a nossa casa e mudámo-nos. Como o meu sogro habita uma moradia com um grande quintal, decidi comprar uns frangos e colocar num espaço que vedei com uma rede. Ao final da tarde, quando chegava do emprego, antes do jantar, dirigia-me à garagem, enchia um balde de plástico com milho e entrava no local onde as galinhas se encontravam. Os animais, assim que me viam com o balde na mão, atiravam-se à rede como se fossem kamikaze a lançar-se contra a marinha americana no ataque a Pearl Harbour, após se lhe terem gasto as munições. Depois de entrar no recinto vedado em que as galinhas se encontravam e para que não voassem para cima de mim, pegava punhados de grãos de milho e atirava-os para longe, por forma a afasta-las mas, algumas mais espertas, não íam no "engodo" e saltavam mesmo para cima do balde, tentando comer mais que as outras.
As galinhas são animais muito interessantes, são o paradigma do existencialismo animal, e o homem, limita-se a confirmar-lhes essa crença, tratando-as com os maiores cuidados enquanto pintos, resguardando-as dos frios e dos calores, alimentando-as convenientemente e, por fim, corta-lhes os pescoços e come-as.
Ah!!!!
Convem ressalvar; antes de as comer, cozinha-as de diferentes formas, algumas delas, segundo preceitos elaborados, os quais seguem com rigor, complexas fórmulas alquímicas...

Fartíssimo do Silva disse...

Caro jotaC

Eu não gosto nem deixo de gostar do prefácio do PR. Estamos já habituados ao seu estilo. Acho que foi mais um tiro no pé a juntar a tantos outros que tem disparado.
Mas que fique claro, caro jotaC, que não censurei quem quer que seja. Censurar é coisa que não entra no meu vocabulário. O que disse é que é uma imensa perda de tempo gastar cera com defuntos como o sr. Pinto de Sousa. É, no fundo, dar-lhe a importância que ele não mereceria. E também no fundo, no fundo,ver o seu fantasma em toda a parte. Por isso falei na necessidade de ir às bruxas ou de se exorcizarem!