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quarta-feira, 21 de março de 2012

Mercado parece querer desmentir Profetas do 2º resgate...

1.Um País totalmente ATURDIDO vem assistindo a uma sucessão de declarações, de eminências nacionais e estrangeiras, próprias de quem está perante uma bola de cristal cujo mecanismo domina na perfeição, todas elas augurando a necessidade de um segundo resgate financeiro da República Portuguesa, não poucas delas ousando até antecipar o valor de tal resgate...
2.Tenho escutado ou lido essas declarações com algum espanto, devendo confessar que me intriga a certeza com que essas individualidades se pronunciam sobre o tema em questão: a necessidade de um segundo resgate é algo que, tanto quanto sou capaz de entender, está dependente de um conjunto de variáveis cuja avaliação se desconhece quase em absoluto neste momento, com algum optimismo talvez comecem a definir-se lá para o fim do corrente ano...
3.Com efeito, a questão da necessidade de um segundo resgate depende, essencialmente, da possibilidade de acesso da República, em condições (de prazo e de juro) mais favoráveis do que aconteceu num passado recente, aos mercados da dívida: se a República até meados de 2013 conseguir normalizar (razoavelmente) as condições de acesso ao mercado da dívida, lá se vai a necessidade do 2º resgate...
4....mas se, pelo contrário, a República não conseguir até essa altura normalizar as condições de acesso ao mercado da dívida, um 2º resgate será necessário, mas por montante que neste momento se afigura absolutamente prematuro quantificar...
5.Sucede que hoje mesmo a República colocou no mercado, pela última vez no corrente trimestre, dívida (Bilhetes do Tesouro) a 4 meses e a 12 meses...e em condições que, apenas há 2 meses atrás, seriam consideradas impossíveis: num total de € 1.992 milhões, foram colocados € 1.610 milhões a 12 meses, à taxa de juro média de 3,652% (anterior para este mesmo prazo tinha sido de 4,493%) e € 382 milhões a 4 meses, à taxa de juro média de 2,168% (anterior para este mesmo prazo tinha sido de 3,845%).
6.Repito que há dois meses atrás ninguém acreditaria que a República fosse capaz de aceder aos mercados nestas condições, sobretudo no que se refere à taxa de juro da colocação.
7.Especialmente significativa é a colocação no prazo de 12 meses, pois se trata de dívida que se vai vencer já no final do 1º trimestre de 2013 e que transmite por isso um sinal de que o mercado está crente na capacidade da tesouraria do Estado bem para lá do corrente ano...
8.É evidente que este facto nada garante...se houver acidentes de percurso, as condições agora bem mais favoráveis para a colocação da dívida podem muito bem (ou muito mal...) inverter-se rapidamente...
9.Mas este episódio ajuda pelo menos a perceber que as profecias sobre a necessidade de um 2º resgate são claramente prematuras; em última análise exprimirão mais um desejo do que uma genuína profecia...

18 comentários:

(c) P.A.S. Pedro Almeida Sande disse...

Sinais contraditórios, principalmente quando possa ser confundido com a curva de Gaspar.

«De acordo com o documento, a receita fiscal nos dois primeiros meses do ano desceu 5,3% para 5,63 mil milhões de euros. Nesta rubrica destaque a quebra das receitas fiscais com IRC em 46% para 158,2 milhões de euros, do IVA em 1,1% para 2,86 mil milhões de euros e do imposto sobre veículos em 44,6% para 75,8 milhões de euros. Nos impostos indirectos, que sofreu uma queda de 9%, apenas as receitas com o IRS subiram 0,3% para 1,668 mil milhões de euros. A receita não fiscal, por seu turno, subiu 5,5 % para 628 milhões de euros.»

Gonçalo disse...

Acho que o maior problema é que os "mercados", neste momento, não são mais que os Bancos privados a agir sob orientação do BCE onde foram buscar fundos...
Não há mercados a comprar dívida. É tudo uma farsa e não vale a pena valorizar nada do que se vai passando a esse nível.
Acho eu...
A situação actual assemelha-se ao que se passou há um ano atrás, em Portugal, com os bancos nacionais manietados na aquisição de dívida, nos teatrinhos montados pelo governo PS que adiaram (com que consequências) por muitos - demasiados - meses o resgate mais que necessário.
É a versão Constâncio europeu face ao Constâncio português de há um ano atrás.

http://notaslivres.blogspot.pt/2012/03/regresso-aos-mercados-em-2013.html

Carlos Sério disse...

"Repito que há dois meses atrás ninguém acreditaria que a República fosse capaz de aceder aos mercados nestas condições" e o mérito é do governo, claro. O desemprego diminuiu, a receita do Estado vem aumentando, a despesa por sua vez vem diminuindo, e todos os restantes indicadores económicos são deveras positivos pelo que "os mercados", tomando isso em consideração, decidiram diminuir os juros da divida.
Claro que a injecção de dinheiro barato a 1% de juros que o BCE agraciou a Banca 450 mais 560 mil milhões de euros em Dezembro e Março nada tem a ver com a redução dos juros da dívida agora presenciada.
Não, o mérito é todo do governo e as "profecias" de um resgate são meras especulações dos profetas da desgraça.
Esta "verborreia" apologética do governo já cansa.

Luís Lavoura disse...

Acho que Gonçalo e Carlos Sério têm razão.
Isto nada tem a ver com mercados nem com a apreciação que quaisquer investidores privados independentes façam dos méritos do programa de ajustamento. Tem tudo a ver com bancos que recebem dinheiro a 3 anos à taxa de 1% do BCE.
(Note-se que os 3 anos pelos quais o BCE empresta dinheiro aos bancos privados são um prazo superior ao 1 ano pelo qual o Estado português pede dinheiro emprestado.)
Ou seja, este "mercado" é uma fantochada, os bancos privados são os (bem pagos) fantoches, e Mario Draghi é quem puxa os cordelinhos.

Tonibler disse...

Eh, pá, eu li isto duas vezes e não consegui perceber onde é que se fala de governo.

Por acaso o post é claro naquilo de que estamos a falar e que os meus companheiros comentadeiros parecem omitir ou não entender.

Não é Portugal que precisa de pedir dinheiro emprestado. É o estado, é a república. O BCE não tem nenhuma obrigação de emprestar dinheiro à república portuguesa, como o Banco de Portugal não tinha nenhuma obrigação de emprestar à câmara municipal da Póvoa do Varzim (podia ser outra? podia, mas não era mesma coisa...) só porque esta estoirava dinheiro sabe-se lá no quê. Não só não tem obrigação, como não pode, por regras básicas de mercado (pela mesma razão pela qual a eng. militar não anda a construir pontes civis, por ex.).


Mas o BCE tem obrigações perante os bancos portugueses que são membros do sistema da mesma forma que o ING ou o DB. Agora, os bancos que emprestam dinheiro à Póvoa não estavam dispensados de devolver o dinheiro ao Banco de Portugal da mesma forma que os bancos portugueses não estão dispensados de devolver o dinheiro que emprestarem ao estado português e por isso devem impor o spread de mercado como imporiam a mim ou a vossas exas.

O estado português não é mais do que qualquer outro devedor na UE. Claro que isto pode ofender alguns espíritos mais republicanos e socialistas mas, na verdade meus caros, a terra a quem a trabalha, não a quem a estoira...

Gonçalo disse...

O BCE está impedido de ceder liquidez a Países. Ora, mete os Bancos privados no processo. É a táctica Constâncio que manteve Sócrates no poder mais uns bons meses. Uma táctica que só adia e não resolve.
O dinheiro que o Estado obtém nestes processos resulta de acordos que devem ser dissimulados entre o BCE que disponibiliza liquidez a 3 anos a 1%. Depois, este Bancos emprestam a 4, 8 ou 12 meses ao Estado Português ( a juros de 4, 5 ou 6%). Prazos que, estando "dentro" do Plano da troika, dão a segurança necessária.
Infelizmente, estas colocações de dívida nada nos dizem... Nem que estamos bem, nem que estamos mal. Apenas que estamos ... adiados.

Pinho Cardão disse...

Bom, segundo percebi da prosa de alguns comentadores, os Bancos emprestam simplesmente porque se financiam no BCE a 1%, etc, etc.
Fico estupefacto e perplexo com a análise. O principal factor na análise de um crédito é o risco que se corre, não a taxa a que se obtêm os fundos. Na dívida grega, os credores perderam 65% dos créditos. Acham os meus amigos que os Bancos, ao concederem o actual crédito a Portugal, não se lembraram das perdas com a Grécia? E, se emprestaram, emprestaram a pensar aque vão perder 10%, 20% ou 65%?
Haja paciência!...

Carlos Sério disse...

Caro Pinho Cardão,
Vá lá, nada de mistificações. Emprestar a Portugal a 12 meses, portanto durarante o tempo de intervenção da Troika, não existe riscco algum.
Já agora, quanto às perdas da Grécia, gostaria de saber onde estão as perdas uma vez que trocaram titulos "insolventes" no mercado a custo de 70% do valor nominal por títulos garantidos e com um valor de 46% do valor nominal?

Pinho Cardão disse...

Caro Carlos Sério:
Provavelmente sem querer, a mistificação é toda sua.
Mesmo nos pressupostos que indicou, quem adquiriu os títulos da dívida grega ao valor nominal, e foram genericamente os Bancos, perde 54% desse valor.
No que respeita aos títulos da dívida portuguesa agora colocados, não tenho notícia que a Troyka os tenha avalizado. Se o meu amigo tem, é uma grande notícia. E em primeira mão.

Carlos Sério disse...

Caro Pinho Cardão,
Novamente se encontra equivocado.
Os títulos da dívida grega eram transacionados no mercado a menos de 70% do seu valor. Por exemplo, um titulo de divida de mil euros era agora transacionado a menos de 300 euros. Titulos esses que agora foram trocados por novos titulos com total garantia por 460 euros no nosso exemplo. Fazendo as contas não há uma perca mas uma mais valia de pelo menos 160 euros.
Dir-me-á, bem mas poder-se-ia esperar pela maturidade e então já não havia perda.
Só que não se poderia esperar mesmo pela maturidade, uma vez que a Grécia entraria em default de imediato e então perder-se-ia tudo.
É de facto uma mistificação afirmar-se que os credores perderam.

Carlos Sério disse...

Caro Pinho Cardão
Já agora, eu não disse que a Troika tinha avalizado os títulos portugueses como anuncia.
Disse que "durante o tempo de intervenção da Troika", o que significa portanto que durante essa intervenção haverá dinheiro para pagamento dos títulos emitidos. Como se tratam de títulos a menos de 12 meses encontram-se portanto dentro desse prazo.
Será que não compreende a diferença?

Joao Jardine disse...

Caro Tavares Moreira

Apenas para reforçar a sua ideia. Neste momento, isto é hoje, ninguém minimamente sério, pode afirmar se iremos ou não necessitar de mais ajuda; como ninguém sério, pode afirmar como será, caso seja necessário, o tipo de ajuda que, eventualmente, venhamos a necessitar.
Isto nem sequer é original, estou acompanhado personalidades de referência, como, por exemplo, o Prof. César das Neves.
Que os comportamentos daqueles que compram e vendem dívida soberana, parece indicar que, pelo menos uma parte, estão mais tranquilos quanto à nossa capacidade para cumprir com o prometido, senão, não teriam vindo ao leilão.
O que se tem ouvido muito é ruído originado por uma série de palpites sobre o desempenho futuro da nossa economia; ora, para além da duvidosa autoridade moral de alguns "palpitadores", não posso deixar de notar que, no que ao palpite toca, os termos como apresentam "a coisa" são fáceis: ou dá ou não dá.
É assim a modos como os que atiram a moeda ao ar...ou como a anedota da pergunta ao recém pai: é menino? Não é menina. Resposta: errei por pouco.
Os nossos palpitadores, ou muito me engano, assim que for conhecido o desenlaçe, correm o "risco" de passarem a comentar que erraram por pouco......
Cumprimentos
joão

Tavares Moreira disse...

Caro João Jardine,

Em clara sintonia com o seu comentário, apraz-me registar.
Pelo que terá percebido por alguns dos comentários feitos a este Post - salvaguardando sempre o respeito que nos merecem, por mais divergentes das nossas opiniões que se mostrem - vai por aí uma enorme confusão em relação a este assunto.
Até me atribuem propósitos de defesa do Governo que, como entenderá, não vem coisa nenhuma a propósito.
O que aliás não me surpreende nada: é o resultado do trabalho destes brilhantes Profetas da bola de cristal, que confundem e atordoam, positivamente, a mente do cidadão comum...

Carlos Sério disse...

Caro Tavares Moreira,
Já agora, acrescento aqui mais alguns profetas da bola para seu conhecimento.

- O economista-chefe do Citigroup tem uma visão negativa sobre o futuro da crise de dívida na Zona Euro. Willem Buiter diz que Portugal deve reestruturar a sua dívida "no próximo ano" e mostra-se também pessimista para a Irlanda, Espanha e Grécia. (JN 21.03.2012)
- Na opinião de um dos principais estrategas da consultora de Nouriel Roubini, Portugal também deverá reestruturar a sua dívida pública. (JN 21.03.2012)
- Os investidores internacionais consideram que existe uma elevada probabilidade de Portugal vir a necessitar de nova ajuda financeira, revelou hoje John Authers, colunista sénior do Financial Times, que participou numa conferência em Lisboa. «O mercado aposta num segundo resgate, ainda este ano, que não deverá envolver o sector privado», afirmou o responsável, que foi um dos oradores do evento "Investidor Privado 2012", promovido pelo Jornal de Negócios com o patrocínio do Montepio e da Schroders, e que decorreu num hotel da capital portuguesa. (Sol 19.03.2012)
-Portugal sucederá à Grécia nas preocupações com a crise das dívidas soberanas na Europa, refere hoje o jornal alemão Die Welt, citando fontes não identificadas do governo de Berlim a prever que será necessário um segundo resgate ainda este ano. (Sol 10.03.2012)
-Kurt Karl, economista-chefe da Swiss Re, prevê que Portugal seja o próximo país a entrar em "default", mas diz que isso não paralisará o sector segurador. (JN 22.03.2012)

Tavares Moreira disse...

Caro Carlos Sério,

Já conhecia, em qq caso fico agradecido pela lembrança dessas intervenções.
Excelentes intervenções, cumpre acrescentar.

Pinho Cardão disse...

Caro Carlos Sério:
Bom, assim a desconversar é perda de tempo discutir.
Com ou sem reestruturação da dívida, os que a adquiriram no momento da emissão perderam. Teriam porventura perdido mais se não houvesse reestruturação, mas perderam. Compram por mil e recebem 460. E não perdem?
Nesta matéria, por aqui me fico. Ponto final.
Quanto à dívida portuguesa agora emitida, mantenho tudo o que disse. O limite da Troyka tem mesmo limite, não é ilimitado.

Carlos Sério disse...

Caro Pinho Cardão,
Vamos lá “desconversar” mais um pouco.
A realidade é um pouco mais complexa que a leitura que faz.
Quem lhe garante que aqueles que adquiriram títulos de dívida grega “no momento de emissão” ainda os conservavam quando existe negociação diária no mercado? Acha mesmo plausível que os bancos credores, com exímios técnicos, pagos a peso de ouro, assistiam tranquilamente ao descer paulatino da cotação dos títulos, perdendo dinheiro a cada dia, sem pensarem sequer em os transaccionar? Há meses que era noticiado, nos meios de comunicação social, que os bancos alemães e franceses, os maiores detentores de dívida grega, já se tinham desembaraçado desses títulos.
Num mercado de transacções diárias, universal e tão volátil como este falar de “detentores de dívida do tempo de emissão” é pura ficção.

Tavares Moreira disse...

Caro Pinho Cardão,

Julgo que se impõe uma terrível conclusão:aquando do "hair-cut" negociado da dívida grega, a que se convencionou chamar PSI, já não existiam detentores reais dessa mesma dívida, eram tudo personagens fantásticas, retiradas dos Contos de Hoffman...duendes, mágicos, arlequins...
Os habituais frequentadores do mercado, hábeis manipuladores da dívida, já se haviam escapado há muito...