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segunda-feira, 26 de março de 2012

"Sabor da própria morte"

Certas frases e palavras têm a capacidade de nos agredir, de aliviar, de fazer sofrer, de sentir o que é o amor, o desejo, o ódio e, até, o sabor da própria morte. São poucas as que se podem considerar amorfas ou insípidas, mas há outras que são mais destruidoras do que o Vesúvio quando se lembra de incomodar os humanos.

A conflitualidade religiosa ou as decisões tomadas em seu nome são, por vezes, iníquas ao esconderem a malignidade humana sob a pretensa magnanimidade do amor a um deus qualquer.

O jovem médico no serviço de urgências do velho hospital, que nunca conseguiu adaptar-se às suas funções, descansava, feito porteiro, na noite fria do inverno. Muitas horas já se tinham passado desde que iniciou o seu turno, quase uma dúzia e meia, e ainda faltava meia dúzia, a mais dolorosa, em que o tempo demora a passar. Aquela hora é, habitualmente, uma hora meia-morta, permitindo um breve relaxar. Eis que a noite é interrompida com a entrada de uma mulher, pequena, arranjada à pressa, muito simples, com ar rural salpicado de ansiedade. Pediu uma maca. Naquele tempo chegava-se a esse ponto, entravam na urgência à noite, porque o porteiro recolhia-se no interior para fugir às agruras do frio noturno. Dois curtos minutos depois entrou o corpo de um menino. Deveria ir para o Hospital Pediátrico, disse ao porteiro. Já tem onze anos, ripostou. Na altura, com esta idade atingia-se a maioridade para entrar no hospital de adultos. Branco, quase inanimado, com sobrancelhas juntas e inserção de cabelo muito mais baixo do que é normal, denunciando anormalidade evidente, levou-me a desviar o interrogatório para a mãe perguntando-lhe qual o sofrimento do menino. Seria muito mais fácil fazer o diagnóstico. Ao levantar o braço de cera, aguardava pela resposta da mãe, viu muitas cicatrizes na mão e no antebraço. As formas como estavam desenhadas eram perfeitamente compatíveis com fenómenos de automutilação. Nasceu assim e morde-se com frequência, sobretudo quando se agita. Não foi difícil chegar a uma conclusão. Doença congénita grave, automutilação, hemorragias. O hemograma revelou que o menino estava mesmo anémico. Tomou as medidas necessárias, internando-o numa das “suas” camas, que estava vaga, com as necessárias instruções para ser repetido novo hemograma. Havia um processo crónico de anemia, provavelmente agravado por uma hemorragia mais violenta. Suspeitou da necessidade de realizar uma transfusão sanguínea. O tipo de sangue era pouco comum e as reservas do mesmo não abundavam. Teria de reavaliar a situação com o colega da hemoterapia. Um pouco antes de dar por concluído a transferência de turno foi até à enfermaria. A situação não tinha melhorado. Falou com o enfermeiro chefe. Antes de ir para casa descansar um pouco, disse-lhe que ia arranjar duas unidades para o menino cuja alma desconhecia o mal que fazia ao seu corpo ou quem sabe se não saberia, desejando libertar-se. O jovem interno não sabia dar a resposta, competia-lhe apenas cumprir o seu dever, salvar uma vida, mesmo que fosse a de um deficiente profundo. Conseguiu as tais duas unidades, para começar. Sentiu um alívio e foi para casa. No dia seguinte ao entrar na enfermaria a primeira coisa que fez foi dirigir-se à cama do menino para ver como estava. Entrou no seu setor. A cama estava vazia. Vazia? Onde estará o rapaz. Dirigiu-se ao enfermeiro chefe, homem de uma cordialidade e simpatia inimagináveis, questionando-o, o que aconteceu? Onde está? Com um sorriso suave pôs-lhe a mão sobre o ombro e levou-o para um local mais recatado, como se houvesse lugares dignos desse nome. Secamente explicou-lhe, a mãe levou-o. Como? Não pode ter levado, não senhor, é impossível, o menino está gravemente doente. Mas levou o sangue que lhe arranjei, não levou? Não! Não? Mas prometeram duas unidades para começar. Sim, pelas onze horas vieram com o sangue. Então o que é que aconteceu? Não estou a perceber nada. Ansioso, sentia algo a emergir da boca do estômago a subir e a comprimir o coração, algo muito pesado a querer sair pelas goelas, mas esbarrando numa barreira intransponível, provocando-lhe uma angústia que nunca tinha sentido. Mas, ó chefe, o que é que aconteceu. A mãe recusou que fosse ministrado o sangue e exigiu alta a pedido. Alta a pedido? Rejeitou o sangue que lhe podia salvar o filho? Sim. A religião da senhora não permite essa prática. Abraçou-o de uma forma paternal. Como era um homem que já tinha visto muita coisa compreendeu muito bem o sofrimento do jovem médico. Durante longos instantes travaram um diálogo surdo, um diálogo que nunca mais esqueceu.

12 comentários:

Pinho Cardão disse...

Religião cujos ditames podem ser causa de morte não é religião, é assassinato. Religião que oponha à vida é contradição nos termos, extremismo abominável.

Pinho Cardão disse...

Queria dizer: religião que se oponha à vida...

Bartolomeu disse...

A mãe era daquela religião que não permite transferência de sangue de um para outro corpo. Logo, por esse motivo, o filho, deficiente, ou mesmo não o sendo, mas por exemplo inanimado, sujeitava-se À mesma proibição... e não existe lei que proiba estas proibições?

Massano Cardoso disse...

Agora existe. Pede-se a suspensão temporária do direito de paternidade ao ministério público. Um fax, um e-mail e em poucos minutos tem-se a resposta, o médico passa a assumir o direito dos pais. Rápido e eficaz, mas há trinta anos...

jotaC disse...

É um absurdo a conflitualidade que se “cria” entre ciência e religião, e muito mais quando gera perda de vidas humanas.
Ao que parece tudo se deve a interpretações erróneas dos livros ditos sagrados que aproveitam, de alguma forma, a quem faz da vida explorar as fragilidades dos outros, principalmente a ignorância. E a ignorância conduz necessariamente ao temor do que não se conhece, ou acreditar em tudo o que nos dizem...
Assim foi neste caso, os pais agiram de acordo com principios religioso, tal como o bombista árabe acredita que a sua morte agrada a Alá...

Luís Lavoura disse...

O mal aqui não está somente na religião, está numa teoria política que vê o filho como propriedade da sua mãe, e não como um ser humano com direitos independentes dos dela.
Numa teoria política correta (que pelos vistos é a prática atual), o Estado deve ter o poder de se sobrepôr aos pais no sentido de garantir os direitos e as liberdades básicas da criança - entre os quais, claro, o direito à vida e o direito ao tratamento médico.
Infelizmente, ainda hoje há muita gente que insiste em negar este progresso e pretende devolver aos pais a propriedade plena sobre os seus filhos.

Rui Fonseca disse...

Li esta recordação(mais uma, venham mais, são sempre bem vindas)e, ainda que só muito indirectamente possa correlacionar-se com elas, sou tentado a contar-lhe que

Esta manhã entrei numa livraria, e, ao pagar um livro que tinha comprado, reparei numa obra junto da Caixa, em promoção, portanto: "Contos da Páscoa"

Abri, por curiosidade, e, enquanto se processava o pagamento, saltei o prefácio e comecei a ler os primeiros paríodos:

"DEVE SER HORRÍVEL SER DEUS

Já pensaram na pachorra que é preciso para ser Deus? Lidar com toda a humanidade ao mesmo tempo deve ser horrível. É que Deus tem de conviver com todo o tipo de pessoas. Neste caso é mesmo todo o tipo de pessoas. Não há dúvida que Deus tem de ser Deus só para conseguir suportar ser Deus.

Ser Deus é ser incompreendido. Não existe nada no mundo tão evidente, tão visível, tão compreensível como Deus. Deus, porque é Deus, resplandece em tudo. Por isso, a existência de Deus é uma das certezas mais consensuais da humanidade. No entanto Deus está também acima de tudo, infinitamente acima de tudo. Claro que Deus sabe que as suas criaturas nunca O conseguirão compreender. O problema não está aí, mas na forma como as criaturas lidam com o que não entendem"

Entenderam?
Quem é o autor, quem é?

A Internet ajuda:
http://vagueando.forumeiros.com/t2394-deve-ser-horrivel-ser-deus-joao-cesar-das-neve

Suzana Toscano disse...

Tive durante anos uma empregada que era Testemunha de Jeová, uma das melhores pessoas que conheci até hoje e a quem devo muito pelo amor e dedicação que teve para com as minhas filhas. Não tinha família, pelo que a "pertença" àquela religião era tudo para ela e acabou por se casar com um estafermo meio doido que era da mesma devoção porque era muito mal visto que se casasse fora da tribo. Essa mulher, que já tinha alguma instrução, acreditava piamente que uma transfusão de sangue seria totalmente impeditivo da entrada no reino do Senhor, o Povo Escolhido não podia conspurcar-se com o sangue de outros, a versão da Biblia que seguem tem uma frase qualquer como "não comerás o sangue de outros animais" ou qualquer coisa parecida, que é lida à letra. Discuti com ela esse tema vezes sem conta, sem sucesso, ela ficava em pânico perante a ameaça do fogo dos infernos e dizia que havia alternativas ao sangue das transfusões mas que os hospitais não usavam porque não levavam a sério a religião Jeová. Espero que ela nunca tenha tido que se confrontar com a terrível escolha dessa mulher de que aqui fala, mas tenho a certeza de que seria sempre um grave problema de consciência, entre salvar a vida em troco do inferno ou sacrificar a vida aqui em troca da entrada no reino dos céus.De uma forma ou de outra, todas as religiões confrontam os seus seguidores com escolhas terríveis, muitas vezes inexplicáveis à luz da razão, não estamos a assitir na actualidade a "primaveras" que se propõem adoptar a Lei da Sharia como forma suprema de alcançar a justiça?

Luís Lavoura disse...

Suzana Toscano,

"não comerás o sangue de outros animais"

Penso que isso deve estar de facto na Bíblia (no Antigo Testamento), uma vez que essa é uma norma seguida piamente tanto pelos judeus como pelos muçulmanos. Os adeptos dessas religiões matam os animais com um corte no pescoço e depois viram-nos por forma a que todo o sangue se escoe e a carne fique totalmente sem sangue. Isso é uma norma crucial da "culinária" dessas religiões; a carne que obedece a essa norma diz-se "cachere" em hebraico, "halal" em árabe.

Portanto, cara Suzana, as Testemunhas de Jeová têm toda a razão quanto a este ponto: está na Bíblia que Deus mandou o Homem não comer o sangue de outros animais. Os cristãos é que, muito convenientemente, decidiram omitir esse mandamento...

Luís Lavoura disse...

Suzana Toscano,

"não estamos a assitir na actualidade a "primaveras" que se propõem adoptar a Lei da Sharia como forma suprema de alcançar a justiça?"

É normal que as pessoas procurem seguir as normas legais das suas religiões, não acha?

Fala-se muito da Sharia, a lei muçulmana, mas, não sei por quê, raramente se fala da Halakhah, a lei hebraica, que os judeus têm, ao longo do tempo, seguido, e continuam a seguir. E qual é o mal disso?

Por exemplo, de acordo com a Sharia um cadáver deve ser enterrado nas 24 horas seguintes à morte (ou seja: rapidamente). Os muçulmanos portugueses seguem sempre este preceito - a não ser quando a lei exige que seja realizada uma autópsia. Tem algum mal que o sigam? Também os judeus portugueses seguem as normas da Halakhah relativas aos cadáveres - as quais exigem, por exemplo, que o cadáver não seja tocado por nenhum outro homem, só com luvas.

Nós podemos achar estas leis bastante peculiares, mas o facto é que os judeus desde há milénios que as seguem, e os muçulmanos desde há séculos.

(De facto, a Halakhah e a Sharia têm muito em comum, dado que a religião muçulmana é uma descendente direta da judaica.)

Tonibler disse...

Arrepiante, toda a história. Arrepiante.

Da discussão religiosa nem vou entrar porque não consigo entender como é que se deixa a religião entrar num serviço público. Olha se eu eu levasse as minhas manias para a repartição de finanças...

Suzana Toscano disse...

aí está uma ameaça séria, caro Tonibler :)
caro Luis Lavoura, tem toda a razão, há sempre uma explicação para usos e costumes, mesmo os que são elevados à categoria intangível de religião e que, muitas vezes, chocam com a evolução científica ou com a evolução civilizacional,chamemos-lhe assim, tornando-se um enorme problema para a convivência ou a tolerância pacífica entre povos e entre pessoas de crenças ou religiões diferentes.