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terça-feira, 23 de julho de 2013

"Lembrança"...

Lembrar é viver, é degustar certos momentos da vida que deixaram as suas marcas, sem as quais não seríamos o que somos. Pequenas lembranças, mas suficientes para definir uma vida. Podemos deixar de entrar em contacto com a fonte que contribuiu para a nossa formação, a nossa vivência e quem sabe se para o nosso sucesso. Não interessa pesar essas lembranças, é suficiente dar-lhes a devida importância. Recordo o seu auxílio, as suas aulas personalizadas, a ida a casa e a doçura do trato. Soube ensinar com delicadeza para quem estava fragilizado. Aprendia facilmente sob o efeito de um doce sorriso e uma ternura maternal. Com o tempo, as melhoras do corpo e do espírito permitiam-me acompanhá-la a casa, como se a escuridão da época fosse algo de atormentador. Não era. Dava-lhe o braço e sentia que era um herói, alguém que passava de protegido a protetor. Gostava desta cumplicidade. A distância entre as nossas casas não era por aí além, umas quatro centenas de metros que se faziam facilmente na altura em que o verão dava os primeiros passos. Conversávamos e via o céu estrelado, numa altura em que as estrelas ainda se mostravam com orgulho. Até as ouvia a cantar. Aprendia com muita facilidade, talvez devido a esta estranha combinação, doçura das palavras, ternura e compreensão pela minha situação, orlada de belas e brilhantes estrelas sacudidas pelo calor da noite. Frequentei as suas aulas, sempre doces. Nunca gritava. Nunca bateu. Um perfeito contraste com o primário do professor primário a quem nutria e nutro algum desprezo. Mais tarde via-a de quando em vez. Respeitosamente cumprimentava-a com muito prazer. Fui ao seu casamento. Tive direito a um fato feito no alfaiate da terra. Foi em Fátima. Foi a primeira vez que lá fui. Não me esqueço da festa e nem do que vi. Memória de criança regista tudo. No regresso, o carro do senhor Arnaldo, o homem da farmácia, um velho Volkswagen, teve um percalço, rebentou um pneu. O barulho assustou-nos. Foi mesmo em frente da estalagem de Santa Luzia, hoje em degradação total. Conseguiu resolver o problema do pneu, mas o barulho ainda perdura na minha cabeça. Depois via-a de tempos a tempos, cada vez mais espaçados, mas nem por isso menos delicados e ternurentos, recordando  outras épocas que iam enchendo as gavetas da memória. Acabei mais tarde por saber do seu infortúnio por causa de um problema de saúde, que se repetiu passados poucos anos na irmã gémea do seu peito. Já era médico e fui vê-la. Depois continuei a vê-la de tempos a tempos, cada vez mais espaçados e cada vez mais íntimos. Sempre que a via era como regressar a outros tempos, tempos em que me ensinava, em que eu aprendia, em que eu a acompanhava a sua casa. Recordo tudo com uma transparência que só as estrelas das noites escuras de então sabiam iluminar. Tenho o mapa celeste gravado na minha mente. Hoje nasceu mais uma estrela. Agora preciso de uma noite escura para a poder ver cintilar e ouvir o cantar das suas irmãs. Está lá com toda a certeza. Sinto o meu braço esquerdo a abraçar o seu braço direito. Sinto um estranho calor, doce, único, de um corpo que hoje desapareceu. Sinto-o e nunca mais poderei esquecê-lo...

1 comentário:

Suzana Toscano disse...

Doces lembranças do despertar para a vida, da mão que o guiou e também do fim, que apaga as pessoas mas aviva as memórias. Um abraço.