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domingo, 14 de julho de 2013

Momentos maus e perigosas tolerâncias

Não gostei da forma como a Sra Dra Assunção Esteves cumpriu com o dever de garantir as condições de funcionamento da Assembleia da República. E menos gostei da citação de Simone de Beauvoir que fez a (des)propósito do comportamento dos arruaceiros que se juntaram nas galerias da Assembleia da República há uns dias atrás (além do mais, uma citação deslocadíssima da circunstância concreta). Mas não posso deixar de assinalar esta tendência para a inversão de valores tão própria dos tempos que correm. A Sra Presidente da AR teve um momento mau, é inegável. Todos nós pecamos, e nela o lapso tem maior gravidade por ter sido cometido por quem foi escolhida justamente por se lhe reconhecer qualidades suficientes para não revelar estas fraquezas. Mas isso não permite que se esqueçam, muito menos valida, as tentativas sistemáticas de boicote dos trabalhos parlamentares por profissionais do protesto ao serviço de projetos político-partidários representados no próprio parlamento. Começa a parecer muito estranha uma sociedade que é em absoluto intolerante com os tropeções de uns, e benevolente para com o mais absoluto desprezo pelas regras da democracia representativa. Os que verberam as atitudes de Assunção Esteves mas se mostram absolutamente tolerantes com os profissionais do protesto e do insulto, são os mesmos que se queixam que as instituições da democracia estão desacreditadas...

9 comentários:

Salvador Massano Cardoso disse...

Touché!

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

José Mário
A falta de tolerância põe em causa o respeito pela liberdade. Um fenómeno que se tem vindo a acentuar e a que assistimos com frequência. A AR tem sido palco disso mesmo. As televisões filmam, vitimizam quem se manifesta. Quanto ao resto não interessa, assim se alimenta a intolerância.
Também ouvi e vi e não gostei. Costuma-se dizer que no melhor pano cai a nódoa. A Presidente da AR não esteve bem. Vai ter que actuar de forma bem diferente do que disse, mas não sei como...

Tonibler disse...

O deslize não foi assim tão pequeno. Ela é uma criada daquelas pessoas, não deve responder daquela forma, mas deve agir em defesa de todos os outros que não foram às galerias e cuja voz vale tanto como os que lá foram. Se a senhora acha que vale mais que os cidadãos acho bom que encontre outra coisa para fazer na vida, mas parece-me que aprendeu de vez. Sim deve proteger a voz de quem não está lá, mas ela é serviçal.

Pinho Cardão disse...

Pior do que tudo isso é a consagração
dos arruaceiros, através da imediata entrevista televisiva que a RTP, dito serviço público que pagamos, lhes fez, assim incitando a actuações semelhantes, com cobertura e entrevista garantida.
Mais uma prova de vida dos lóbis que querem manter, a todo o custo, uma estação pública ao serviço de interesses privados.

Zuricher disse...

Gostei muito de ler este seu post, caro Ferreira de Almeida. Esse endeusamento dos protestantes, e enfatizo, a soldo dum projecto político que está representado no parlamento, tem sido comum na comunicação social Portuguesa sempre muito tolerante com essas gentes. Talvez se um dia fizessem uma reflexão seria sobre como seria a sua vida e a sua profissão no modelo de sociedade defendido por essas criaturinhas mudassem de rumo...

Bartolomeu disse...

Lenga-lenga para crianças, mesmo para aquelas que hoje brincam aos políticos e às políticas na Casa da Legislatura:
- Com licença! (entra o pinto, de viva voz quer dizer)
Dona assunção, de crista eriçada e citando atabalhoadamente os consagrados, remata.
- Onde há galos de fama, que veem pintos fazer?

Tiro ao Alvo disse...

Não fiquei nada chocado com a intervenção da presidente da AR. Claro que também não me chocou a arruaça feita por aquele grupo, capitaneado pelo Nogueira e pela Aivola, useiros e vezeiros na organização de coisas semelhantes. Mas sinto-me incomodado sempre que vejo interromper os trabalhos da AR por protestos vindos das tribunas. E muito mais me incomodado me sinto quando, como foi o caso, muitos desses desordeiros estão a ser pagos pelo orçamento do estado, como acontece com os sindicalistas da função pública.

Suzana Toscano disse...

Reconheço que a Presidente da AR usou uma expressão tremendista que tinha todas as probabilidades de ser mal interpretada naquele contexto, mas foi objectivamente mal interpretada e eu diria até que o erro de interpretação foi explorado muito depois de se ter percebido o que tinha querido significar. «Não podemos deixar, como dizia a Simone de Beauvoir, que os nossos carrascos nos criem maus costumes», não pretendia chamar "carrascos" aos que se manifestavam, bem pelo contrário, a intenção é considerá-los vítimas dos quem os fazem sofrer ao ponto de os levar a manifestar-se de modo contrário aos "bons costumes".. Quem nos faz mal leva-nos muitas vezes a extremos de que nos julgaríamos incapazes em situação normal, e esse é um mal acrescido que nos causam. Pareceu-me logo na altura que a intenção de, com esta frase, criar empatia com os manifestantes, pondo todos, deputados e queixosos, lado a lado contra os "carrascos" (da troika) não ia sair bem. Mas a facilidade com que este equívoco alimentou a desculpabilização do excesso a que se assistiu nas galerias é realmente surpreendente, como muito bem nota este post.

alberico.lopes disse...

Para os que zurzem na Assunção Esteves e,parece,aplaudem os carroceiros que viajam por todo o lado a cantar as gandoladas, a chamar ladrões e outras coisas tão "edificanes" ao Passos e ao PR, só faço um voto:que num futuro próximo tenhamos um governo em que sejam esses senhores a conduzir os destinos do País!Como ia acontecendo no célebre PREC!Gostaria de ver como esses comentadores que hoje não só os aplaudem como até os incitam a gestos tão nobres iriam portar-se!E já agora,também,o prezado Tonibler!