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quinta-feira, 4 de julho de 2013

"Palavras difíceis"...


É preciso viver muito para entender o passado, e à medida que o tempo avança mais facilmente viajamos até a certos momentos em que as coisas eram tão naturais que nem nos apercebíamos da sua existência e importância. Tudo se processava a passo de caracol, os dias pareciam ser longos, as noites curtas, tamanha era a vontade de dormir, as brincadeiras rendiam e só se rendiam ao cansaço, algo difícil de atingir. À noite, depois do jantar, havia ainda tempo para ir até aos bombeiros ou à casa do povo para jogar ping-pong, ao bilhar, ao jogo da glória, ao dominó ou às damas. Era preciso pelo menos um adversário, o que não era problema, o mais complicado era arranjar mesa, fosse a do bilhar, a do ténis de mesa ou as ditas normais para os outros jogos. Mas se fosse um pouco mais cedo não tinha grande dificuldade. 
Alguns de nós continuavam a estudar, outros, não, trabalhavam, mas havia um sentido de irmandade que a descriminação de acesso aos estudos nunca obstruiu, nem na altura nem ainda hoje passados tantos anos.
Um dos meus parceiros do jogo de damas, a quem ganhava quase sempre, o que me dava uma satisfação enorme, tinha o seu estilo próprio, um vozeirão do caraças e uma humildade que dava para enriquecer algumas centenas de gajos dos tempos atuais. Origem mais do que modesta, pobre, como era habitual, trabalhava como moço de recados de alguém altamente respeitado e considerado. Cedo se apercebeu da importância das palavras e das frases, muitas das quais não conhecia o sentido. Seduzido pela sonoridade e pelo impacto que lhe deviam provocar no seu cérebro, criado e moldado na pobreza de então, fazia esforços para as decorar e decifrar. Quase todos os dias me dizia uma ou duas palavras novas com as quais queria compensar a derrota às damas. Como quem diz, tu sabes qual é o significado? Eu tentava e muitas delas não me causavam quaisquer problemas. Tornou-se um segundo jogo em que acabava, também, por "perder". Um dia comunicou-me que tinha comprado um dicionário. -É para saberes o significado das palavras que vais ouvindo?- É, e também para aprender palavras difíceis. -Palavras difíceis?! Explica lá melhor. - Ando a decorar palavras difíceis. - A decorar palavras difíceis? Mas para quê? - Porque é muito útil. As pessoas importantes que conheço só usam palavras muito complicadas. - Mas tu sabes utilizá-las? - Qual é o problema? O que eu quero é ser importante, porque os senhores doutores e os senhores juízes só usam palavras difíceis. - Oh, deixa-te disso. Não sejas parvo. - O que tu tens é medo de as não compreenderes! - Vais ver logo. Quero ver se sabes o significado de algumas palavras que vou levar. - Está bem! Leva o que quiseres. Mas vai-te preparando para levares mais uma abada no jogo das damas.
Sempre que o vejo, a andar vergado, como se fosse uma carroça de eixos enferrujados, tisnado com uma coloração amarelada a fugir para o escuro, inventando passos muito curtos, com um olhar vago como se estivesse à procura de um dicionário perdido na sua imaginação possuída pela doença, com um cigarro pendurado nos lábios engrossados pelo tempo e pela medicação, revivo com ternura os momentos em que conseguia ganhar com facilidade ao jogo das damas e ao jogo das palavras difíceis. 
Como o tempo muda as pessoas, mas não muda a essência das almas. Não perdeu a humildade nem o respeito. Há coisas que nem a idade, nem a doença e nem o infortúnio conseguem apagar....

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