Número total de visualizações de página

quarta-feira, 24 de julho de 2013

"Triste país"...


Uma tarde livre é algo pouco habitual. Quis o acaso, e a época, que hoje tivesse possibilidade de fazer algo de diferente. Fui até à Figueira da Foz. É raro ir até aquelas bandas, que, noutras épocas, constituía um ponto de referência estival de máxima importância. O tempo passou e quando o tempo passa muda tudo, sobretudo os velhos hábitos. Ao chegar à cidade, a mente, liberta de preocupações, deixou-se inundar por inúmeras recordações que se sobrepunham de forma intemporal. O compasso de espera para uma brevíssima reunião permitiu verificar o apagamento de velhos pontos de referência. Triste ver esse apagamento. Dói. Mas também dói o vazio humano que se prolongava pelas ruas e até pela praia. Um vazio humano, um vazio de sentimentos e um vazio de esperanças. Dói ver a decadência a desfilar perante os olhares de quem se entretém, durante uma bela tarde, a analisar os passantes e o ambiente. Perguntei o que se passava, como se fosse muito complicado encontrar as explicações. Apenas queria ouvi-las de outra boca. Não quis ficar na cidade luz e fui até Cantanhede. Não fiquei muito tempo, cheguei como os gaiteiros, na véspera da inauguração da feira. Acontece chegar antes do tempo. E agora? Bom motivo para ir jantar à Mealhada, há muito que não comia peixe de tão bela região. Mas ainda era muito cedo e desloquei-me até à Curia. Um local esplendoroso com história e encanto. Andei pelo parque. Sedutor, vazio de gente, vazio de sentimentos e vazio de esperança. Nem a fonte dos desejos me cativou, há muito que ficou surda e cega. Algumas folhas castanhas impregnavam o chão como que antevendo um outono prematuro. Dói ver um local tão belo vazio. Pensei, o país está morto. Só pode. Passeei e inebriei-me de lembranças do passado, as minhas e de muitos outros. Cheguei à Mealhada e lambuzei-me sem escrúpulos. Há dias em que temos necessidade de esquecer certas coisas, para isso nada melhor do que um estômago saciado capaz de morfinizar o cérebro. Enquanto o fazia, o vazio humano instalava-se no restaurante. O país está morto, pensei. Acabei o repasto e fui dar uma volta para esmoer. Andei por ruelas que nunca tinha visto. Escondidas, começaram a revelar algo de surpreendente que o sol dourado realçava de forma despudorada. Casas, muitas casas degradadas, mortas como os seus proprietários. Um vazio humano num cemitério de casas vazias. O país está morto. Mas está mesmo. 
Os espaços por onde passei durante a tarde foram, em épocas mais ou menos remotas, pulmões sociais, músculos de atletas, belos paraísos, fontes de riqueza, penedos de saudade, antros de alegrias e de esperanças, no fundo altares de almas de portugueses. Hoje, estavam vazios. Incomoda-me o vazio, incomoda-me a agonia de um povo, que parece ter aceitado com resignação a morte anunciada. Triste país.

4 comentários:

Rui Fonseca disse...

Percebo seu desencanto, Professor, mas faço uma avaliação diferente quando comparo a Figueira de há umas dezenas de anos atrás com a Figueira de hoje.

A Figueira de hoje está diferente (quem é que não está?) mas não está mais triste, para usar o termo do título do seu lamento.

Quando a Maria Clara cantou que a Figueira era a raínha, estava o Algarve por descobrir. Descoberto o Algarve, a corrente de veraneio virou-se, naturalmente, para lá.

Foi mau para a Figueira? Penso que foi bom.

A Figueira adormeceu até à década de 70 à sombra da praia. Entre Aveiro e Leiria, onde a iniciativa industrial preponderou, a Figueira ficou-se nas covas da areia.

Dito isto, não nego que continuo a recordar as ondas espraiarem-se até às muralhas do Forte de Santa Catarina onde agora se lembraram de colocar cimento e no cimento montar um espelho de água ensossa. Mas o que mais me dói e revolta é o abandono da Serra da Boa Viagem à praga das acácias depois do incêndio que devastou o pinhal. Não me apoquenta a total desfiguração exterior do Casino e do "Páteo das Galinhas", mas considero de muito mau gosto o edifício enorme, ainda em acabamentos, ao fundo da Ponte Galante.

A praia, ameaçada pela concorrência do Sul, ficou ainda menos atrativa com o imenso areal retido pelos pontões. Não se pode ter tudo e a Figueira de ontem, tinha muito pouco, tendo apenas a praia, para poder crescer.

Sem os pontões, naufragaram muitas embarcações à entrada da barra. Sem o encaixe do rio e o prolongamento dos pontões, o porto não teria a actividade que tem.

A Figueira, de onde saí muito jovem porque, ficando lá, o futuro era mais incerto, não é hoje mais triste, muito pelo contrário, que naqueles tempos.

Mas, evidentemente, ao compararmos não podemos usar, porque não temos, todos os mesmos termos de referência, e, eventualmente, divergimos.

murphy V. disse...

O abandono a que foi votado grande parte do território nacional, é a maior factura das políticas centralistas das últimas décadas. Portugal só poderá ser um local mais aprazível e oferecer melhores condições de vida aos portugueses, quando a célebre frase "Portugal é Liboa e o resto é paisagem", deixar de fazer sentido.

http://jornalismoassim.blogspot.pt/2013/07/nascer-no-pais-da-equidade.html

Tavares Moreira disse...

Caro Professor,

Comer peixe na Mealhada? Mas na Mealhada não é obrigatório comer leitão, mais concretamente o leitão da Bairrada?
E quando mais adiante diz ter-se alambazado, foi efectivamente com peixe ou fez a obrigatória deriva para o leitão?

Salvador Massano Cardoso disse...

Pois! Eu por acaso não gosto de peixe, caro amigo. Foi para disfarçar e tentar convencer-me dos benefícios do peixe.;).