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sexta-feira, 5 de julho de 2013

PAEF: faltam ainda 5 avaliações, não esquecer...

1. Num impressionante paradoxo, esta fase de efervescência política em Portugal surge num momento em que a economia começa a dar sinais de vida: para além do espectacular reequilíbrio das contas com o exterior, que aqui temos salientado, a quebra da procura interna dá sinais de abrandamento (vide o ligeiro aumento das vendas de automóveis, no 1º semestre deste ano), o desemprego parece querer estabilizar, as exportações de bens e de serviços tiveram um bom desempenho nos primeiros 4 meses do ano (sobretudo em Abril)...
2. E quem sabe, mesmo, se lá para os finais de Agosto vamos ficar a saber que a economia já não contraiu no 2º trimestre de 2013?
3. É compreensível, assim, que muitos se interroguem: qual o sentido de, neste contexto, desencadear uma crise política que, a não ser rapidamente debelada, pode deitar a perder, de uma penada, todo o imenso trabalho e os sacrifícios que foram necessários para chegar até aqui?
4. Parece realmente ABSURDO, para não utilizar uma expressão bem mais pesada, desencadear uma crise política nestas circunstâncias - afigura-se mesmo um atentado à inteligência de qualquer cidadão...porquê, então, este ABSURDO?
5. A melhor resposta a esta angustiante questão poderá ser encontrada na carta-testamento do ex- Ministro V. Gaspar, em que ele confessa, de forma bem clara, a sua impotência para prosseguir o rumo de política económica e financeira que lhe permitiu cumprir, com aprovação, as 7 primeiras avaliações do PAEF...
6. Concretamente, V. Gaspar percebeu que já não tinha espaço de manobra – cercado pela hostilidade dos media, da grande generalidade dos comentadores yo-yo...e agora até de alguns colegas de governo – para tampouco cumprir com sucesso a 8ª avaliação...
7. O razoável sucesso do trabalho de cumprimento dos objectivos do PAEF, traduzido, de forma iniludível, em 7 avaliações positivas por parte dos credores internacionais bem como em (muito) melhores das condições de financiamento da República e das principais empresas junto dos mercados de capitais, acabou por gerar, a par da fadiga própria da dureza do ajustamento, um relaxamento quanto á necessidade de prosseguir o processo de ajustamento...
8. Ou seja, as melhorias registadas, em vez de encorajarem o prosseguimento das reformas necessárias, tiveram o efeito oposto: instalou-se a ideia de que chega de sacrifícios, estamos na altura do Crescimento (os inquebrantáveis crescimentistas lograram o feito da sua mensagem penetrar no coração do próprio Governo), há que repensar tudo isto, o Ministro V. Gaspar não pode continuar a impor a sua lei...
9. Chama-se a isto o efeito de “MORAL HAZARD”...se as coisas estão melhor, então podemos voltar aos vícios antigos...
10. ...só se esquecem de um “pequeno” detalhe: ainda faltam 5 avaliações das 12 previstas no PAEF e a Troika, como lhe compete, pretende que o PAEF seja levado até ao fim, de outro modo não há financiamento...como fazer, agora?

20 comentários:

Tonibler disse...

... e não esquecer que, de facto, fez-se muito pouco de concreto, foram só manobras financeiras. O TC e o PR continuam em funções e acreditam que o estado vai sobreviver com manobras. Muito aguentou o Gaspar, mas o limite das gingalhices já foi ultrapassado e está na hora dessa gente compreender o seu lugar na história, se passam a insignificantes, ou se mantêm em carrascos.

Tavares Moreira disse...

Caro Tonibler,

Permita-me uma correcção: fez-se muito, muitíssimo mesmo, tal é demonstrado pela impressionante viragem nas contas externas, cujo reequilíbrio, como já aqui afirmei, ao fim de mais de 15 anos de elevados/elevadíssimos desequilíbrios, constitui um resultado histórico!
O facto de ter sido em primeiro lugar obra das empresas privadas - empresários e trabalhadores - não deve, na minha opinião (certamente que não será assim na opinião, por exemplo, do alto TC), ser motivo de desmerecimento!
Quem não fez o que lhe competia foram as Administrações Públicas, de uma forma geral, como o Senhor bem sabe...embora o TC, por exemplo, entenda que já fizeram demais e que é tempo de voltar aos velhos vícios que o velho Escudo ajudava a disfarçar...

Zuricher disse...

Caro Tavares Moreira, todos os enxovalhos de que Victor Gaspar foi alvo e que a nova ministra recebeu ainda não tendo entrado, sequer, em funções, fazem prever tempos muito dificeis pela frente. A tentativa de voltar aos vicios antigos é bem real e esperada e que só não irá concretizar-se porque não há dinheiro para isso. Mas o processo de ajustamento vai arrastar os pés daqui em diante. A reforma do Estado e da Administração Pública já não será feita. A instabilidade social vai aumentar.

O grande problema é que tudo isto terá efeitos que, aliás, vão para além das fronteiras de Portugal. O resto do ano vai ser dificil, parece-me...

Bartolomeu disse...

Tem "graça" que o caro Dr. T. Moreira utilize o termo "absurdo". Indo ao encontro daquilo que a Drª Ferreira Leite comentou ontem, tentando compreender a súbita decisão de demissão do Ministro Vitor Gaspar.
Só que a autora-convidada deste blog, mostrou-se preocupada com a possibilidade de existir algo de grave edesconhecido da generalidade dos portugueses, que tenha realmente ditado aquela ABSURDA decisão.
Seja como for, não casa a bota com a perdigota e se a comunicação social exerce todo o peso de que dispõe, na opinião pública, entendo que seria obrigação do governo, porque dispõe do tempo de antena para isso, desmontar as falaciosas informações, esclarecendo com clareza e transparência, os cidadãos que governam.
Tenho dito!
hmmm, hmmm.
Já agora e a talho de faca e garfo, chamo a especial atenção do caro Amigo, para o esboço que já se desenha, com vista a um próximo encontro-gastronómico-quartarepublicano.

Bartolomeu disse...

Esqueci-me de comentar o título do post.
faltam 5 avaliações.
E quantos resgates?

Tonibler disse...

Caro Tavares Moreira, permita-me discordar, pelo facto de esses obreiros de que fala serem razoavelmente imunes à república portuguesa, por isso o crescimento das exportações é consistente no tempo.

Ninguém nomeia um governo para gerir o país, nomeia-se para gerir o estado, o que é substancialmente diferente, não só pelas causas que aponta, como pelo facto do TC e o PR ainda receberem ordenados. Naquilo a que o estado diz respeito, não se fez nada tirando "não fazer", o que sendo positivo por si só (o estado não fazer) é insuficiente porque ainda faz demais.

Por isso estarmos a assistir neste momento àquela telenovela mexicana em que não se sabe se as birras da maluca deitam abaixo o governo ou não está-nos a afastar do essencial. Será que vale a pena termos qualquer governo enquanto tivermos este PR e este TC? Esses agentes de que fala não se vão incomodar nada, desde que os bancos fiquem em pé...

Floribundus disse...

o agit-prop vem:
do tribunal constitucional,
das tvs anti-contribuinte ao serviço do grande capital,
da cgtp e da ugt-ml,
seguramente da esquerda festiva,
de certos sectores do psd
finalmente do provável harakiri politicos de pp, que atirou com a bolsa pró maneta

os malucos tomaram conta do manicómio

Tavares Moreira disse...

Caro Zuricher,

Muito bem observado, como habitualmente...mas permita-me uma pequena interrogação: e as 5 avaliações que se seguem - a começar nesta 8ª, em vias de se inciar, que vai dar uma bonita novela, já estou a ver - quem as assegura? O Senhor, eu ou o Tonibler?!
É que para as avaliações serem cumpridas, não bastará o louvável exercício de arrastamento dos pés, algo mais irá ser exigido...
E se começarem para aí a vociferar que este Programa já não serve,como de resto já se ouve bem aí pela feira política, que os meninos querem outro "brinquedo", que estão fartos deste, não sei não...

Caro Bartolomeu,

Não tive o gosto de ver/ouvir a Dr.ª MFL, mas se bem reparou o termo ABSURDO que utilizei dirigiu-se à crise política subsequente á demissão de S. Exa. o MNE, não à demissão de Vítor Gaspar...esta eu compreendo melhor do que ninguém (passe a imodéstia)...
Quanto às 5 avaliações que referi, elas pertencem todas ao 1º resgate, se houver mais resgates, o número de avaliações terá de ser incrementado consideravelmente...quem sabe se para todo o sempre...

Caro Tonibler,

Eu, apesar de tudo, ainda consigo ver algumas diferenças entre a actuação do PR e do TC, claramente a favor do primeiro...
Tenho por exemplo a percepção de que está conduzindo esta emergência com a calma e a sobriedade que são absolutamente recomendáveis em eríodos de crise deste tipo, não indo atrás dos apelos dos apelos maluquinhos - tanto de líderes polítiocos em estado de permanente excitação como dos comentadores yo-yo - que querem festa de qq maneira e a qq preço!
Não deixo de reconhecer que S. Exa. em momentos anteriores vacilou, misturando rigor com crescimentismo, numa caldeirada impossível de tragar, mas parece-me que na actual conjuntura tem estado muito bem, no essencial.
Já quanto ao TC, esse prima sempre pela extrema dedicação ao erro de avaliação, assemelha-se a um génio do mal à solta no circo das finanças públicas...

Zuricher disse...

Caro Tavares Moreira, mas o problema é precisamente como irão ser asseguradas as próximas avaliações. Algo que pode chegar até mesmo a uma avaliação negativa algures pelo caminho. É um dos motivos para o meu receio quanto ao futuro.

Joao Jardine disse...

Caro Tavares Moreira

Porque se preferiu fazer o "nosso melhor" e não o que se tinha (tem) de ser feito, aqui chegamos.
Perguntou-me, há um par de meses, o que se tem de fazer e porque sem este episódio, ou um semelhante, seria sempre muito díficil, dadas as limitações de uma caixa de comentários.
O que tem de fazer é cumprir na íntegra, repito na íntegra o programa original que se assinou com a troika.
O resto são improvisos que, como se está a ver custam caríssimo.
Não lhe insulto explicando porque se tem de cumprir o plano original e, apenas lhe recordo que, infelizmente, o pior desfecho de um "momento Costa Concórdia" pode estar no horizonte.
Cumprimentos
joão

Tavares Moreira disse...

Caro Zuricher,

Certamente. E esta 8ª avaliação ainda vai dar muito que falar, ms muito mesmo.
Não há tempo para mais brincadeiras, é forçoso concluir...

Caro João Jardine,

Sendo ortodoxos, tb não precisamos de ser fundamentalistas: como bem sabe, os objectivos nominais, especialmente os orçamentais, do PAEF original foram objecto de importantes ajustamentos, sem que isso tenha constituído qq drama.
O problema maior emerge quando se questiona a própria essência do Programa e se proclamam objectivos de crescimento desconhecidos, ao mesmo tempo que se vitupera a consolidação orçamental apelidando-a de austerismo ou, em exercício de ridículo oratório sem qq jeito, de cegueira ultra-liberal (como tem insistido El Comandante, infelizmente sem camuflado)...
É esse destempero no discurso político que tem vindo a fazer escola, envolvendo quase todo o arraial yo-yo, tendo mesmo conseguido penetrar as trincheiras governamentais, que nos pode conduzir ao mais completo desastre...

Anonymus disse...

Ora vejamos:
Previsões para 2013.
Memorando da Troika: Desemprego, 13,3%; Exportações, 6,4%; Importações, 2%; Procura interna, -0,4%; Défice, -3%.
7.ª Revisão da Troika (mesmos itens): 18,2%; 0,9%; -3,9%; -3,9%; -5,5%.
Brilhante!
Até o «comunista» Carlos Costa, governador do BdP, terá, numa reunião com o Presidente da República, admitido «o que há muito é inegável: não atingimos as metas do programa de assistência porque os pressupostos macroeconómicos incorretos e os multiplicadores que espelham o impacto do corte orçamental no PIB foram subestimados.»
Claro que há uma questão mais profunda, que é a própria desadequação das políticas, mas isso já sabemos que não será admitido nem nos próximos tempos nem nunca... mesmo sobre o cadáver da economia e da sociedade.

António Barreto disse...

Publiquei!

Quem estará efetivamente interessado na recuperação economia do país?

A Nação Portuguesa existe?

Tavares Moreira disse...

Caro Anonymus,

As pessoas que tomam as previsões por dados históricos, passam a vida confundidas (A. Dumas)...
Aplica-se na perfeição como complemento de seu excelente comentário!

Caro António Barreto,

Duas boas perguntas: à primeira, arriscamos ficar sem resposta, tantos são os pontapés no interesse do País, dados em nome desse mesmo interesse; quanto à segunda, colocam-se dúvidas wagnerianas...

Roberto Rensenbrink disse...

A Alice continua no País das Maravilhas!

Mas, enfim, consideremos que a postadela até estaria acertada e fazia juízo correto, não se desse o caso de o Vitinho se ter querido ir embora já por duas vezes.

E de ter sido a sua excelsa esposa quem forçou o desequilíbrio.

Seja como for, deveria ter ficado até ao fim, para aferir do sucesso da sua folha Excel...

Tavares Moreira disse...

A Alice nunca deixou o País das maravilhas, Rensenbrink...pois se é esse o seu natural habitat!?

Suzana Toscano disse...

Não me lembro de nenhum ministro das finanças que tenha tido a vida fácil. Também não me lembro de nenhum que tenha saído desta maneira. Quanto ao crescimento, caro Tavares Moreira, e à mudança de rumo, há umas linhas da carta de despedida do ex ministro que as refere, dizendo até que são urgentes! A menos que fosse ironia...

Joao Jardine disse...

Caro Tavares Moreira

Cumprimento é a estratégia que se deve adoptar, na íntegra é a táctica, plano original é o consenso que foi possível alcançar.
Fundamentalismo é um adjectivo mas não é um anátema moral. A enorme vantagem de assim ser adjectivado é que, pode-se não gostar dos efeitos mas, todos podem ter confiança nos comportamentos e, o que se tem de assegurar é a confiança.
Pelo acima exposto, o seu comentário é, apenas, uma descrição.
Cumprimentos
joão

Agitador disse...

Dr. TM

Arraial yo-yo é uma expressão genial.

cumprimentos

Tavares Moreira disse...

Cara Suzana,

Ao ex-ministro Vítor Gaspar, nem na hora da despedida se reconhece direito a um pequeno desabafo de ironia?

Exactamente, caro João Jardine, não é mais que uma descrição o meu comentário, tem toda a razão.
Já não me parece que tenha tanta razão quando diz que o "plano original" foi o "consenso que foi possível alcançar".
Sabemos como foi acertado o plano original, tendo de um lado um governo "de calças na mão", com o País à beira da bancarrota, e do outro um conjunto de credores internacionais dos quais dependia, exclusivamente, a sobrevivência financeira do País...
Para terem o nosso apoio financeiro os senhores têm de cumprir à risca este programa e ponto final, assim reza a crónica dessa "negociação"...
Chamar a isso consenso, só mesmo num exercício de ironia piramidal!
Mas atenção, em minha opinião, com gente desta - todos os governantes da altura e alguns dos que se lhes seguiram - tinha de ser mesmo assim, em minha opinião!