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quarta-feira, 20 de abril de 2005

Arrivederci, Darwin! Benvenuto, Darwin!

A propósito dos movimentos contra o ensino da evolução das espécies que na Europa começa, também, a ganhar terreno, como foi o caso da ministra da educação da Sérvia e, mais recentemente, da ministra italiana Letizia Moratti, não resisti à tentação de transcrever a seguinte “análise – entrevista” que ilustra bem a tentativa de por em causa conceitos indispensáveis à compreensão da biologia.

MINISTRA DA EDUCAÇÃO DA UNIVERSIDADE E INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA DE ITÁLIA (LETIZIA MORATTI) – A teoria de Charles Darwin afirma que o homem vem do macaco, que os chimpanzés são nossos avós. Senhores jornalistas, podemos corromper, com estas ideias absurdas, a mente de nossa juventude. A partir de agora, fica proibido o ensinamento de Darwin para os alunos do ensino fundamental até os 14 anos.
VÁRIOS – PROTESTO GERAL
JORNALISTA – Senhora ministra, e se não ensinarem a evolução das espécies de Darwin, o que será ensinado?
MINISTRA – A criação da Bíblia, meu senhor.
JORNALISTA – Ou seja, a senhora pretende que, em pleno terceiro milénio, os alunos italianos sejam ensinados que...
MINISTRA – Que Deus criou o mundo em sete dias, sim senhor. Que mal há nisso? Assim… Arrivederci, Darwin!
CONTROLE – MÚSICA ITALIANA
LOCUTORA – O escândalo instalou-se imediatamente. A ordem dada no último mês de Julho pela ministra da Educação da Itália, Letizia Moratti, foi para as primeiras páginas de todos os jornais.
HOMEM 1 – Porca miséria!... Isso é retroceder mil anos no conhecimento científico!
HOMEM 2 – Olha pelo lado bom… A história da Bíblia pode ser muito didáctica… Com ela, as crianças podem aprender os dias da semana, acabam por se interessar pelo artesanato (por amassar o barro), aprenderão anatomia (sobre a costela), zoologia (pela serpente) e botânica (pela maçã) … (RISOS)
LOCUTORA – Os cientistas da Itália e do mundo mobilizaram-se. Recolheram 40 mil assinaturas de protesto.
HOMEM – Se mesmo ao Papa não lhe restou outra saída que reconciliar-se com Darwin porque sua teoria é mais clara que o sol!
MULHER – Eu creio que essa ministra está louca ou é do Opus Dei.
HOMEM – Não é ela. É o ilustre Sílvio Berlusconi, este primeiro-ministro que nos põe num papel ridículo frente à comunidade internacional.
LOCUTORA – A pressão cresceu. No dia seguinte apareceu novamente a ministra Letizia Moratti…
MINISTRA – Ouçam… Creio que houve uma confusão… Quando disse o que disse não queria dizer que se dissesse o que havia dito.
JORNALISTA – Pode explicar-se melhor, senhora ministra?
MINISTRA – Meus senhores, considerando as capacidades da nossa juventude, decidimos dar novamente as boas-vindas ao pensamento de Charles Darwin em nossas escolas. Benvenuto, Darwin!
VÁRIOS – MURMÚRIOS
MINISTRA – Será ensinado Darwin até na escola primária, até aos recém-nascidos. Espero que assim todos estejam satisfeitos.J
ORNALISTA – Uma pergunta, senhora ministra.
MINISTRA – Diga.
JORNALISTA – A que se deve essa mudança de opinião tão brusca de sua parte?
MINISTRA – Não tenho comentários a respeito.
HOMEM – Não será que Berlusconi proibiu o ensinamento da evolução por medo?
MINISTRA – A que se refere o senhor?
HOMEM – Medo de ser descoberto como um testemunho vivo da evolução das espécies, um elo perdido que confirmaria a teoria de Darwin.
VÁRIOS – RISOS
LOCUTORA – Dessa vez, na Itália, os cientistas sensatos derrotaram os políticos corruptos.

E assim vai o mundo…

(Adital - Agencia de Información Frei Tito para América Latina -http://www.adital.org.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=12350)

3 comentários:

David Justino disse...

Meu caro Prof. Massano Cardoso, cuidado com as fontes. Conheço bem a Sr.ª Moratti e não a estou a imaginar a fazer estas declarações. A história está mal contada e o problema mal colocado. Houve de facto uma proposta de ensinar mais tarde (no secundário) a teoria evolucionista, contra a qual se manfestaram milhares de cientistas e cidadãos, facto que a fez esclarecer a lógica da revisão curricular. A revista The Scientist (http://www.biomedcentral.com/news/20040428/04) conta bem essa história. Quanto à fonte que cita, trata-se de uma agência de propaganda para a América Latina, suportada pela UNESCO, cujos artigos dá para ver de que tipo de gente se trata.

James Harris disse...

Ainda ontem mesmo coloquei este blogue nas minhas bookmarks e hoje esta entrada fez-me ter dúvidas quanto a que isso tenha sido uma boa decisão. Como é possível que o professor Massano Cardoso tenha acreditado no texto que publicou? O professor David Justino já o remeteu para o artigo do The Scientist, mas aproveito para o remeter para um artigo de um autor italiano e ainda por cima publicado numa revista muito fortemente anti-criacionista, The Skeptical Inquirer: Down with Darwin! How things can suddenly change for the worse when you least expect it.

Massano Cardoso disse...

O problema não são as fontes (também recebo o The Scientist). A forma como foi escrita a “paródia” meio a brincar meio a sério permite equacionar certos problemas que começam a surgir e que nos obrigam a reflectir. Salvaguardando as respectivas posições o alerta está lançado na Europa. A ministra da educação da Sérvia também já veio a terreiro a defender posições criacionistas.