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quinta-feira, 28 de abril de 2005

O que mudou com o 25 de Abril II

Depois de analisar os avanços registados nas actividades burocrática e desportiva e também na justiça, é altura de verificar os progressos registados na educação.
A primeira mudança vai para a introdução da Internet nas escolas.
Antes do 25, não havia Internet, devido à visão estreita e reaccionária de Salazar, Marcelo e Veiga Simão.
Após o 25, temos a Internet nas escolas.
A chegada tardia, duas décadas após aquela data, deve-se naturalmente aos condicionalismos psicológicos de resistência à inovação criados antes do 25.
E, mesmo assim, essa introdução deu-se por uma via estreita, em vez de ser pela banda larga que todos agora reclamamos.
Mas ela veio e temos que saudar esta primeira mudança, de carácter tecnológico.
A segunda mudança, de carácter sociológico, tem a ver com a alteração radical da atitude dos alunos e dos professores.
Antes do 25, eram os professores que batiam nos alunos; agora, são os alunos que batem nos professores.
A terceira mudança é de carácter pedagógico.
Antes do 25, havia obsessão de que os alunos deviam aprender a ler, a escrever e a contar.
Após o 25, a Internet, a educação sexual e os jogos, por força da necessidade de uma aprendizagem lúdica, são as disciplinas nucleares.
A Internet, de facto, é importante, pois coloca todos os saberes em casa do cidadão, não importando se ele os percebe ou não. Esta é uma verdadeira revolução, que nem todos ainda, e infelizmente, apreenderam.
A educação sexual é também uma disciplina essencial.
De facto, ainda hoje penso como não seria a vida das pessoas caso tivessem na escola uma boa teorização sobre a matéria, seus perigos e oportunidades.
E os jogos são uma forma de despertar as consciências e de libertar o espírito.
Por tudo isto, após o 25, ler, escrever e contar, como matéria técnica que é, será aprendida, mais tarde, em cursos de formação para desempregados.
A quarta mudança é de cariz numerológico.
Antes do 25, havia mais alunos que professores; após o 25, há geralmente mais professores que alunos.Para resolver o problema, criou-se o horário Zero.
Revolucionária medida, que devia ser estendida a todas as profissões.O 25 de Abril ainda não é perfeito!...
A quinta mudança é de cariz psicológico.
Antes do 25, havia exames, logo a partir da terceira classe, agora terceiro ano.
Era uma forma que o regime tinha de habituar os cidadãos à tortura, desde pequeninos, para não estranharem tanto, quando viessem a ser grandes.
Secundariamente, os exames eram uma forma de obrigar os alunos e professores a trabalhar.
Após o 25, os exames foram abolidos, porque trabalhar é realmente penoso.
Outra razão radicou no trauma psicológico que os exames poderiam causar em espíritos em formação.
A sexta mudança é de cariz hierárquico.
Antes do 25, quem mandava nas escolas era o Reitor, essa odiada figura representante do Estado repressivo.
Após o 25, não se sabe quem manda, mas sabe-se quem não manda e, sobretudo, sabe-se quem paga.
Por último, a grande inovação do 25 foi trazer os professores para a rua, em periódicas e exaltantes manifestações de carinho para com o Ministério da Educação.
É uma forma bem pedagógica de mostrar aos alunos como a contestação é desejável na sala de aulas e as palavras de ordem contra os professores são razoáveis.
Como diria a Guidinha do saudoso Stau Monteiro: estamos todos muito satisfeitos com o progresso havido desde o 25 de Abril.

4 comentários:

euridio disse...

Fantástico, nunca tinha visto a coisa por essa perspectiva, mas para teres essa visão ou és Prof., ou pai bem preocupado...

Pinho Cardão disse...

Caro Eurídio:
Com toda a simpatia, o meu amigo não é psicólogo, ou, se o é, tende a errar muito, a avaliar pela amostra!...
Não sou professor, nem pai preocupado.
Sou, aliás, pai despreocupado, tanto quanto um pai o pode ser.
Dos meus filhos, um está licenciado em Gestão pela U.Católica e outro em Gestão pela U. Nova. Ambos estão a trabalhar.
Ambos estudaram, desde a pré-primária até ao 10º Ano, no Colégio Manuel Bernardes. Fizeram os dois últimos anos, antes de entrarem na Universidade, na Escola Secundária da Cidade Universitária.Nunca perderam qualquer ano e tiveram boas notas.
Tiveram boas bases no M. Bernardes e a Escola Secundária da Cidade Universitária era razoável.
Portanto, o meu amigo não adivinhou nada.
Mas eu pude escolher as escolas que os meus filhos frequentaram.
Lamento, e muito, que nem todos os portuguese o possam fazer.
A desfesa dos interesses instalados à sombra do ensino público tem impedido o início, por exemplo, do cheque-ensino e, com ele, a implantação do princípio da livre escolha.
Nem ficava mais caro ao Estado, dada a ineficiência do ensino público.
Creio que o 25 de Abril mal chegou ao ensino, pese os esforços do Prof. David Justino, colega do blog.
Noblesse oblige!...

Joao Serpa disse...

Divertido, mas não totalmente correcto: nem tudo eram rosas antes do 25 de Abril, na Educação portuguesa. Principalmente porque uma grande parte da população não tinha acesso à Educação.
É certo que em muitas coisas o nosso Ensino se degradou de forma desnecessária, vítima de experiências mal-sucedidas e de teorias liberalizantes perfeitamente asininas. mas, por outro lado, democratizou-se. Mal, mas democratizou-se.
Quanto à net, por muito que o Prof. Veiga Simão a quisesse introduzir, tal não seria possível dada a sua inexistência à data. Mas hoje a coisa existe e é muito útil como ferramenta educativa, tanto em casa como na escola, desde que tanto pais como professores cumpram as suas obrigações de educadores e orientadores. Infelizmente muitos dos problemas que o país hoje enfrenta têm origem na política de Educação do Estado Novo, de vistas curtas e provinciana.

Pinho Cardão disse...

Caro João:
De facto, nem tudo eram rosas...e algumas rosas vieram!...
As que vieram, estão, é assunto adquirido.
Todavia, para haver progresso e desenvolvimento, é preciso melhorar o que já está bem e alterar o que está mal. A mera contemplação do que foi feito não nos leva a parte nenhuma.