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domingo, 17 de abril de 2005

“Pedofilia. Ninguém pede perdão?”...

Portugal viveu nos últimos tempos momentos angustiantes com o escândalo das crianças vítimas de pedofilia. De repente, apercebemo-nos que afinal não somos diferentes de outros povos em que tais práticas também ocorreram e ocorrem. O problema entre nós é particularmente grave pelo facto do Estado não ter tido a capacidade de proteger as crianças que estão a seu cargo. Sendo certo que a Justiça irá funcionar com toda a imparcialidade, aplicando os castigos apropriados a todos os criminosos envolvidos, mesmo assim não é suficiente. Há necessidade de um pedido de perdão público a todas as vítimas por parte dos detentores do poder político. Em 1997, o presidente Clinton pediu publicamente perdão, em nome do povo norte-americano, aos últimos negros ainda vivos que fizeram parte de uma experiência científica (experiência de Tuskagee), iniciada há muitas décadas para conhecer a evolução da sífilis. Mesmo após a descoberta de medicamentos para esta doença não foram sujeitos a qualquer terapêutica ao longo dos anos, o que constitui um crime e violação dos mais elementares princípios éticos.
A pedofilia é um crime repugnante que exige medidas de prevenção adequadas já que pode atingir qualquer criança, sendo as mais desfavorecidas alvo preferenciais dos predadores. Mas, também as das mais altas classes não estão imunes. A este propósito, quem diria que o desejado rei D. Sebastião terá sido vítima de pedofilia com consequências graves em termos de saúde e de comportamento. O livro" Dois Estudos Polémicos" de Harold B. Johson, analisa e tenta demonstrar que o rei quando criança, aos dez anos, terá adquirido uma doença com secreções penianas que o acompanharam durante a sua curta vida. Inclusive aponta como responsável o seu confessor jesuíta. Numa descrição bastante detalhada são apontados os factos que pretendem documentar a doença sexual, assim como a opinião de opositores. Assim, vítima de pedofilia e sofrendo de uma doença sexual crónica, aliada a um desinteresse absoluto pelo sexo feminino, acabou por não se casar, nem ter filhos, facto que motivou a queda do reino às mãos de Castela, após a sua morte em Alcácer-Quibir. Quem sabe se a perda da independência nacional não teve como causa remota abusos pedófilos. Hoje, não corremos o risco de perder a independência, mas podemos correr o risco de perder a dignidade nacional se não houver um acto de contrição público, a par da condenação dos abusadores.

2 comentários:

Anónimo disse...

É verdade. O Estado Português deveria pedir desculpa às vítimas da pedofilia através dos seus mais altos representantes.
Seria uma prova de decência.
Pena é que não haja forma de a sociedade o fazer porque também é verdade que durante muitos anos a pedófilia, sendo conhecida, ou foi tolerada ou encarada com um colectivo encolher de ombros.
Ontem vi, pela primeira vez, Mystic River.
Uma excursão às marcas sociais e individuais do fenómeno.
Mas também um sério aviso para que os julgamentos não devem ser conduzidos pelas paixões e emoções que a ignomínia provoca.
Sobretudo as que são empoladas na praça pública, porque é aí que se vendem os escandâlos em papel ou em imagem. Não as soluções. Não os remédios. Esses pouco motivam.
Só quem vive alheado não reparou ainda que o que interessa não são, infelizmente, os remédios (de que o castigo severo dos responsáveis que o Massano Cardoso reclama, é só um, um só dos muitos que temos de encontrar para erradicar este horror). O que interessa é a exposição do próprio escândalo. Dissecado e revelado nos seus mais chocantes pormenores. Ad nauseam.
É essa exposição que vende. Com a garantia que há mercado. Preocupantemente, um vasto mercado para tão aviltante mercadoria...

Pinho Cardão disse...

Mais que o pedir perdão, o essencial é que o Estado consiga julgar, condenando quem prevaricou.
E aqui está um dos grandes problemas portugueses, o funcionamento da justiça.
Há uma justiça para ricos e uma justiça para pobres, uma para os processos mediáticos e outra para os não mediáticos.
Muita gente, anónima ou não poderosa já foi condenada por pedofilia: os jornais fazem, quando fazem, uma breve referência.
Mas quando um processo é mediático arrasta-se meses e anos: mudam investigadores, mudam juízes, há decisões diversas do mesmo Tribunal...
Entretanto, que justiça se faz? Quem for considerado inocente, já sofreu a condenação de um processo sem fim. Quem for considerado culpado, recebe dupla pena, a de uma vida devassada num processo interminável e aquela em que foi condenado.
Enfim, deixemos a justiça funcionar!...