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sexta-feira, 15 de abril de 2005

A razão e a emoção I

Foi tema muito versado no Congresso do PSD.
No Congresso, houve quem apelasse às virtudes da razão e houve também quem se servisse da emoção, para convencer e fazer valer as suas ideias.
Esta ambivalência já estava presente em Aristóteles, vinte e três séculos atrás.
O génio de Aristóteles permitiu-lhe distinguir as virtudes que derivavam da razão, a que denominou virtudes intelectuais, como a especulação filosófica e o bom senso, e as virtudes que derivavam da emoção, a que chamou virtudes morais, como a coragem, a magnanimidade ou a justiça.
Para Aristóteles, o exercício saudável das virtudes morais deveria ser aferido por um elemento diferenciador, descrito como um meio termo ou uma justa medida entre dois extremos.
A virtude da coragem era a justa medida entre a cobardia e a temeridade; a magnanimidade era o termo médio entre a crueldade e a mansidão.
Este termo médio era determinado pelo uso da razão, da razão de um homem dotado de bom senso, uma das virtudes intelectuais.
Para Aristóteles, em última análise, deveria ser a razão a determinar os actos humanos e era a razão que estabelecia a sua natureza moral.
O primado da razão sobre a emoção constituiu um princípio dominante da ética, como ramo da filosofia.
Descartes adoptou-o, com a poderosa síntese: penso, logo existo.
Passados três séculos o Prof. António Damásio veio explicar o erro de Descartes, com o “ emociono-me, logo existo.”
O homem é um misto de razão e de emoção.
E se, infelizmente, muitas vezes o bom senso aristotélico esteve longe de quem teve poder para decidir do curso da história, já que muitas das transformações do mundo se deram pela via da emoção à solta e sem limites, e aí estão as crueldades do regime soviético e da Alemanha de Hitler para o comprovar, também os grandes avanços do mundo se deveram à coragem, tenacidade, vontade e utopia de muitos, que perseguiram e realizaram sonhos que qualquer razão pura ou razão prática desaconselhariam à partida.
É que a razão, só por si, não move o mundo e a poucos convence, mas a emoção descontrolada leva a desastres irreparáveis.
Porque o homem é um misto de razão e de emoção.
Usar bem uma e outra é uma questão de bom senso!...

6 comentários:

O Reformista disse...

Não sei se Hitler é um exemplo de emoção ou antes de falta dela (falta de respeito pelos outros, de compaixão, de vergonha,etc, etc.)

Quanto ao Congresso disse o seguinte no meu blog:

"Confesso que fui apanhado de surpresa pelas palmas à intervenção final de Santana. Olhei melhor e reparei que afinal não eram os congressistas que aplaudiam. Eram as bancadas. Bancadas cheias não de militantes anónimos mas de militantes recrutados expressamente para fazerem claque.

Marques Mendes criticou o passado recente e ganhou. Ganhou a visão crítica do passado recente. Perderam aqueles que se reviam nesse passado e aqueles que achavam que o melhor era passar uma esponja. Não foi o contrário, como hoje já nos querem fazer crer.


Marques Mendes ganhou apesar de não ter orquestrado um conjunto de intervenções de delegados seus apoiantes que fizessem jogo sujo por ele. Preferiu não só não fazer jogo sujo como ser ele a denunciar o que politicamente esteve errado, em vez de deixar essa tarefa para outros. Preferiu não se ocupar das bancadas nem jogar para a bancada. Fazê-lo tornaria tudo mais fácil, mas... seria fazer o mesmo que os outros, seria prepetuar o que está errado.
Hoje Marques Mendes é um Lider livre de compromissos , livre de práticas caciquistas, livre do passado recente.
Hoje Marques Mendes é o Lider do PSD e o Líder da Oposição. Porque ontem optou por não seguir o caminho mais fácil. Em breve iremos perceber isso."

Massano Cardoso disse...

Caro Pinho Cardão
Ao ler o seu articulado fiquei bastante satisfeito. Continua a "dar-nos" o Aristóteles. Ainda bem. Há aspectos que nos fazem pensar e requacionar as nossas posições.
Sabe quais foram as minhas reacções ao lê-lo? A primeira é que estava perante o Pinho Cardão, a segunda um debate na Assembleia em que "lançou para a cabeça" de um conhecido deputado socialista o Aristóteles. Quase que lhe ia partindo a cabeça...

Massano Cardoso disse...

Caro Pinho Cardão
Ao ler o seu articulado fiquei bastante satisfeito. Continua a "dar-nos" o Aristóteles. Ainda bem. Há aspectos que nos fazem pensar e requacionar as nossas posições.
Sabe quais foram as minhas reacções ao lê-lo? A primeira é que estava perante o Pinho Cardão, a segunda um debate na Assembleia em que "lançou para a cabeça" de um conhecido deputado socialista o Aristóteles. Quase que lhe ia partindo a cabeça

David Justino disse...

A abordagem do Pinho Cardão abre para uma clássica dicotomia entre "democracia" e "demagogia" que os filósofos gregos já haviam elegido como uma das preversões da ordem dos sentimentos sobre a ordem da razão. O Pacheco Pereira também já escreveu sobre o tema. Porém, a leitura do Congresso do PSD, feita à luz dessa dicotomia, não pode estabelecer-se entre os delegados e as bancadas. Estive lá e deu para perceber: é algo que trespassa o próprio PSD e é algo que não é conjuntural. Não nos iludemos, o risco está lá, tem expressão e nada me garante que, a não ser combatido, não volte a vingar.

Anónimo disse...

Já que estamos numa de filosofia clássica tomem lá Sócrates pela pena de Xenófanes:
"Sócrates disse a seus alunos que nos bons sistemas de educação há um limite para além do qual ninguém deve ir. Na geometria, basta saber como medir a terra quando se quer vendê-la ou comprá-la ou dividir uma herança ou dividi-la entre trabalhadores".

Pinho Cardão disse...

Caro Reformista:
Estou de acordo consigo e que o Dr. Marques Mendes fez o que devia fazer: sem investigar as causas, não se previnem os efeitos.
Mas acontece que, para espanto meu, o discurso inicial do Dr. Marques Mendes não foi bem apreciado por muitos Delegados,(aqui dou razão ao que refere o Prof. David Justino), situação que se veio a reflectir na votação final.
Mas o Dr. M. Mendes ganhou o jogo no terreno e não na bancada, e isso é que é importante.