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segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Carregador do tempo...



Uma colega, que aprecio imenso, foi ao México, no regresso ofertou-me uma pequena tapeçaria Maia a representar o "tempo" algo que os maias sabiam como ninguém medir e apreciar. Não disse a razão da escolha, mas compreendi imediatamente o seu alcance, o meu interesse pela linguagem mitológica e o eterno conflito que vivo há muito tempo com o Tempo!  
Fiquei seduzido pela tapeçaria, "O carregador do tempo" sempre a olhar para oeste, para onde o sol corre. Fui buscá-lo para o colocar aqui.






Abriu os olhos e sentiu a primeira sensação da vida, milhões de pontos brancos, alguns pareciam ser azulados, a tremelicarem de alegria num fundo vazio de um negro muito transparente. Ficou a olhá-los e aprendeu o que era o movimento, só não sabia se era ele ou se era o céu que dançava. Deviam ser os dois, um de espanto e o outro de cortesia. Ouviu uma voz, foi a primeira vez que ouviu, a dizer-lhe que tinha sido escolhido para transportar algo de que era feito. O quê, perguntou. Daqui a pouco saberás. Os movimentos dançavam em sentidos opostos, o seu e o céu, e viu nascer à sua frente um círculo belo, inicialmente amarelo laranja, depois branco muito puro, a encher de luz fria o firmamento. Pensou, é a minha mãe. O astro riu-se e não lhe disse nada. A voz quente disse-lhe, daqui a pouco irás sentir algo de novo, muito diferente, uma luz nova, diferente daquela que tu dizes ser a tua mãe. Mas não podes olhá-la de frente e terás de transportar na tua cabeça este cesto feito de tranças de esperança, de alegria e de dor que eu próprio teci. Tens que me carregar contigo porque eu vou estar dentro dele e necessito de alguém que me transporte no teu mundo. Foste o escolhido. Soergueu-se pela primeira vez e ficou de joelhos, posição humilde perante as entidades que nos criaram e governam. Olhou para cima e vislumbrou uma transformação suave, o negro transparente começou a dar lugar a uma claridade azulada que ia pintando a abóbada, até surgir a mais bela das cores, o azul celeste pelo qual se apaixonou. Ao mesmo tempo que ia vendo este fenómeno sentia um calor a acariciar o seu corpo, mas, aconselhado pela voz, nunca olhou a sua face de frente. E agora, perguntou. Vai em frente, caminha, leva-me no teu cesto. No fim do dia dou-te autorização para me veres. E assim foi, no primeiro dia da sua existência viu o pôr-do-sol, belo, um vermelho aveludado a substituir o seu azul, divertindo-se com um amarelo que soube ser o ouro da vida, um tesouro ao alcance de qualquer um.

Dia após dia, repetiam-se estas cenas, embora começasse a sentir que o cesto, feito de tranças de esperança, de alegria e de dor, se tornava mais pesado e mais doloroso em transportar. Não se queixava, fazia o que lhe mandavam, embora, no início, ficasse admirado de não ver algumas vezes o azul. Perguntava-lhe porque é que não tinha direito a ver o azul e a voz respondia-lhe que nesses dias não queria ver os humanos nem o seu mundo, estava triste e chegava a chorar, muitas vezes copiosamente, esperando que com as suas lágrimas conseguisse dar vida à triste vida daquele mundo. Os dias passavam. Os anos corriam. O peso do cesto, que carregava à cabeça, feito de tranças de esperança, de alegria e de dor, causava-lhe cada vez mais desconforto, muita dor, mas, mesmo assim, continuava a transportá-lo, até que um dia viu algo inimaginável. A voz surgiu-lhe pela primeira vez de frente, bela, brilhante, amarelo suave, aureolada de laranja e vestida do mais belo azul. Foi então que começou a sentir sensações novas no seu velho corpo, um suave calor inundou-lhe a face, os seus olhos, iluminados pela voz, transformaram-se em dois sóis e uma leveza impressionante elevou-o no espaço ao mesmo tempo que uma estranha doçura lhe percorria a alma. Em cima da sua cabeça já não se encontrava o cesto feito de tranças de esperança, de alegria e de dor. Perguntou à voz, afinal o que é que eu transportei dentro do cesto. E a voz respondeu-lhe, não sabes, transportaste o tempo, foste o meu carregador e agora que cumpriste a tua missão, podes olhar-me, ao veres-me nascer, também acabas de nascer para uma nova vida. Hoje, um outro ser vai começar a transportar-me no cesto que eu fiz com tranças de esperança, de alegria e de dor. Estás livre. Mereces...

1 comentário:

Bartolomeu disse...

Ando desde ontem, ás voltas com as palavras para comentar este post e não consigo desentrança-las.
Provávelmente, entrançadas é a sua condição, sem que seja possível altera-la.
Quando penso no tempo, e em algo que o defina, emcalho sempre num conceito, o da renovação. Mas o tempo apresenta-se sempre, entre dimensões, entre pontos, definidos ou não. O tempo, mede sempre um espaço entre dois pontos: o da partida e o da chegada. Esquecemo-nos porém, com frequência de um terceiro ponto, aquele em que nos achamos, no momento em que medimos a distância entre o ponto de onde vimos e o ponto para onde supomos ir.
Se fosse possível resumir estes espaços temporais a um conceito, escolheria o tri-dimensional; aquele que se acha subordinado aos movimentos para diante e para a retaguarda, para a esquerda e a direita, para cima e para baixo. Mas este resumo, pecaria por defeito, pois ficaria a faltar-lhe o movimento referente ao tal ponto onde nos encontramos; um movimento que aposto, é circular, esférico, desenvolve-se em circulos, mas esses círculos, os quais se encontram sujeitos à força centrípeta do núcleo, núcleo esse que por sua vez é também animado por um movimento circular, esférico, quem sabe, também ele sujeito a uma força que o atrai para o centro, não permitindo que estes círculos esféricos sujeitos a uma lei Universal, tenham hipotese de sair do perímetro a que se acham confinados... excepto em algumas (poucas) condições especiais, às quais chamamos a "quinta dimensão".