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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Os novos oráculos

Os embates do inimigo, suportemo-los com coragem, os dos deuses, com resignação. Não me deveis culpar por infortúnios que estão para além dos cálculos, a não ser que queirais atribuir-me também êxitos que não foram premeditados”.
Pécricles aos atenienses (citado em”Os Gregos” de H.D.F.Kitto, 3ª ed. Arménio Amado editora)

Vem esta citação a propósito da condenação, por um tribunal italiano, de um grupo de peritos que fez uma previsão errada dos riscos de um terramoto grave em Atila. O parecer dos cientistas serviu para sossegar as populações que, deste modo, foram apanhadas desprevenidas com a violência do sismo. Não é só a propósito das fúrias da natureza que se vem confundindo os deuses com os inimigos, como se nos pudéssemos defender deles baseados nos conhecimentos que julgamos ter, é também a propósito de grandes movimentos sociais e económicos, de transformações que se vão produzindo lentamente, com pequenos sobressaltos aqui e ali que queremos ignorar a coberto de pressurosos relatórios, estudos, recomendações e análises que mais não podem do que admitir, supor, calcular com fundamento no que é conhecido e mensurável, omitindo tantas vezes a pura incapacidade de controlar tudo ao detalhe, quer o que está, quer o que poderá vir. O endeusamento da ciência sucedeu ao fim das torres de marfim em que costumava encerrar-se, destinada apenas a consumo dos sábios e a discussões acesas entre eles, debatendo argumentos, formando correntes de pensamento, arriscando novas experiências que por fim sujeitavam à crítica dos outros. Tinham razão, os cientistas dignos desse nome serão certamente os primeiros a reconhecer a insuficiência dos seus conhecimentos e a falibilidade das suas premissas, isso faz parte da equação da seriedade científica e da humildade que permite avançar no desvendar dos segredos do universo. Nas decisões, mesmo as mais simples, entram sempre factores que não se dominam por completo, e ainda bem, será talvez essa a nossa margem de liberdade, que também se pode chamar responsabilidade, e que não exclui dela nenhum dos elementos que actuam em cadeia, até ao resultado. O grande logro, o perigoso logro, é quando nos querem convencer de que há avaliações infalíveis, que nos dispensem de tomar a nossa parte de decisão, que nos desresponsabilizem para depois nos imporem as consequências sem distinção de grau ou de circunstância. Há responsabilidade dos cientistas? Sem dúvida, quando se arvoram em deuses, omitindo que podem errar e querendo fazer-se passar por controladores do que não podem garantir. Erram os decisores? Sem dúvida, quando invocam os cientistas para se esconderem na parte que lhes cabe da decisão, para evitarem argumentos, para pouparem tempo ou, simplesmente, para imporem o que já teriam decidido com ou sem os fundamentos emprestados pelos estudiosos. Mas erram também os cidadãos, que aceitam que os dispensem de raciocinar, de tomar as iniciativas que lhes competiriam se fossem prudentes, ou diligentes, ou ciosos da sua margem de liberdade. Ignorar isto será admitir um proteccionismo aberrante, que legitima a falta de informação, a intrusão no espaço e na vida de cada um, será também deixar que proliferem estudos, análises e teorias para todos os gostos, que permitam tudo para no fim desresponsabilizarem toda a gente. Quanto mais os tribunais julgarem os cientistas como se se vingassem dos deuses, mais as populações ficam à mercê de decisores incapazes de guiar para enfrentar com coragem os inimigos que os ameaçam. Por alguma razão o oráculo de Delfos se pronunciava sempre com sabedoria: deixava ao intérprete uma tal margem de liberdade de interpretação que não o inibia de decidir com coragem, assumindo os riscos.

13 comentários:

jotaC disse...

"(...)O grande logro, o perigoso logro, é quando nos querem convencer de que há avaliações infalíveis, que nos dispensem de tomar a nossa parte de decisão, que nos desresponsabilizem para depois nos imporem as consequências sem distinção de grau ou de circunstância(...)"

É isto mesmo, e mais umas tantas posturas, que me deixam a sensação de estar a ser vítima de uma geração de políticos (poucos, mas com força!) de personalidades dúbias, eivadas fortemente de um certo "complexo de Deus"; no entanto resisto, "graças a Deus" ainda meixo, ainda sou solvente, só não sei até quando!?. Mas também que importa se sou ou não solvente, se a cegueira é coletiva!?...

Tonibler disse...

Cara Suzana,

Não conheço os cientistas em causa. Não acredito que pessoas que lidam com geofísica tenham dito algum dia que conseguiam prever um terramoto. Acredito que tenham dito que o risco não era maior naquela situação (após um terramoto menor, creio) que anteriormente, o que é cientificamente correcto.

Ainda assim, tal não desculpa a institucionalização da ignorância. Toda a gente tem o direito de ser bronco e eu exerço-o como poucos, o que não faço é emitir uma decisão institucional que é o elogio da ignorância. Esta decisão do tribunal italiano é medieval. Parece ter saído do Vaticano. Viola todos os princípios que foram conquistados com a evolução da civilização. Este é um novo julgamento de Galileu, com a diferença que nem o papa na altura teve coragem de prender o mestre.

Outra coisa, os cientistas não se portam como deuses. Dizem a verdade dentro dos pressupostos assumidos. Tal como o Banco de Portugal, por exemplo, perante um conjunto de fenómenos de previsibilidade semelhante, emite uma previsão de crescimento.

Bartolomeu disse...

É verdade que os habitantes de Atila, poderiam não ter acreditado nas previsões feitas pelos peritos que analisaram so dados fornecidos pelos sismógrafos e, optar pelo abandono da cidade.
Do mesmo modo, poderíam os cidadãos de um país, optar pelo êxodo, embrenhar-se no deserto, atravessar um "mar vermelho" que possivelmente não se abriria, esperar que do céu lhes caísse um maná e por fim, encontrar uma terra prometida. O problema é que, no seio de certos povos, raramente nasce um profeta que receba as tábuas da Lei, e se sinta divinamente inspirado para guiar o seu povo.
Ou então, cara Drª Suzana, volta a adensar-se a núvem da revolta e a terra treme sem dó nem piedade, abrindo-se e engolindo indiscriminadamente, tanto os justos, como os ímpios.
;)

jotaC disse...

PS: "mexo", obviamente :)

Joao Jardine disse...

Cara Suzana Toscano

A sentença do tribunal italiano mais não é do que a negação da nossa "humanidade".
Cumprimentos
joão

Tonibler disse...

Sobre a ciência e já que desde um almoço que tive só consigo pensar em Boaventura Sousa Santos (Ah. a ciência!....) descobri que está na net o livro do físico e divulgador António Manuel Batista dedicado aos pantomineiros da pseudo-ciência (começando por BSS) que tem estado esgotado em todo lado:

http://pt.scribd.com/doc/46411349/Antonio-Manuel-Baptista-O-discurso-pos-moderno-contra-a-ciencia

É fazer o download!!!

jotaC disse...

Como a situação por que estamos a passar, no mínimo surrealista, mormente a catadupa de medidas que o governo anuncia nos "bons dias" de todos os dias ao bom povo português, cujo propósito invariavelmente é sempre o mesmo, um pouco de humor certamente nos fará bem, assim:

A CULPA

A culpa é do pólen dos pinheiros
Dos juízes, padres e mineiros
Dos turistas que vagueiam nas ruas
Das 'strippers' que nunca se põem nuas

Da encefalopatia espongiforme bovina
Do Júlio de Matos, do João e da Catarina
...A culpa é dos frangos que têm HN1
E dos pobres que já não têm nenhum

A culpa é das prostitutas que não pagam impostos
Que deviam ser pagos também pelos mortos
A culpa é dos reformados e desempregados
Cambada de malandros feios, excomungados,

A culpa é dos que têm uma vida sã
E da ociosa Eva que comeu a maçã.

A culpa é do Eusébio, que já não joga a bola,
E daqueles que não batem bem da tola.
A culpa é dos putos da casa Pia
Que mentem de noite e de dia.

A culpa é dos traidores que emigram
E dos patriotas que ficam e mendigam.
A culpa é do Partido Social Democrata
E de todos aqueles que usam gravata.
A culpa é do PS, do BE, do CDS e do PCP
E dos que não querem o TGV
A culpa até pode ser do urso que hiberna
Mas não será nunca de quem governa.

(autor desconhecido)

MariaCalado disse...

Compreende-me tão bem...

Ilustre Mandatário do Réu disse...

Acho que foi dos melhore textos que aqui li. É certo que o cházinho, a compota e o som aquático predispõem o espírito, mas ainda assim...

Não percebi porque foram condenados. Li muita coisa e ainda não percebi. Quanto maior o espalhafato menor o entendimento, ora lá está um princípio de Heisenberg dos tempos modernos...

Suzana Toscano disse...

Caro jotac, apesar de não ser uma admiradora de Sartre,há uma frase dele que me deixa sempre angustiada: "estamos condenados a ser livres". Acredito que haja interpretações rebuscadas e certamente muito profundas de tal pensamento, mas eu prefiro tomá-la quase à letra, nunca somos inteiramente vítimas, salvo talvez quando nos privam fisicamente de qualquer ação, o que acontece é que, obrigados a escolher, tantas vezes decidimos obedecer cegamente, confiar demais, adiar o que não nos convém. É claro que temos que acreditar nalguma coisa, também as nossas decisões têm sempre condicionantes impostas, ou induzidas, mas no fim, é essa tal condenação a sermos livres que pode determinar o que somos.Mantenha-se solvente, pode nãos er importante para o coletivo mas para si é, de certeza :)
Caro Tonibler, do que percebi das notícias, os cientistas disseram isso mesmo, parece que um terá sido mais afirmativo, ou aparentado mais segurança, mas é evidente que falou como cientista, não como um Deus. Daí a ignomínia do julgamento, a cobardia do julgamento.Não sei se podemos até comparar com o medieval, onde muitas vezes estes julgamentos resultavam de acesas lutas pelo poder, temporal e religioso. A ciência, o conhecimento, sempre foram perigosos inimigos dos tiranos, seja de que espécie forem, mas neste caso parece-me ainda pior, se possível, porque é uma espécie de sacralização ao contrário, a ver se me explico. O julgamento pretende induzir que houve culpa, pretende levar as pessoas a acreditar que os cientistas, perguntados sobre uma matéria,têm o dever de acertar, daí eu ter referido o endeusamento dos cientistas. Se erram,é deles a responsabilidade das consequências, salvam-se os que realmente decidiram, que foram os que os chamaram a pronunciar-se, os decisores políticos que na verdade aconselharam o povo, que o quiseram aquietar e provavelmente justificar que não fossem tomadas medidas de alarme. Este julgamento, como diz, é um hino à ignorância mascarada de prudência, é uma monstruosidade, a menos que se provasse que os cientistas agiram de má fé, caso em que deveriam ser julgados como impostores e não como "incompetentes". Em suma, caro Tonibler, estamos de acordo.E obrigada pela recomendação do livro, o almoço deve ter sido bem interessante :)
Caro Bartolomeu, os habitantes de Átila foram mal conduzidos pelos seus chefes, que os enfraqueceram perante a ameaça. Chamaram os cientistas para fundamentar os seus conelhos de lider, muitos seguiram esses conselhos e morreram. Podia ter-se tudo passado exactamente da mesma forma, com as mesmas consequências, mas julgar os cientistas não corrige nada, não previe nada, apenas adensa o medo e a insegurança em futuras decisões.COm sorte, às vezes o Mar Vermelho abre-se, e o povo passa. Dizem os cientistas que foi uma maré extraordinária, em que o mar encolheu, pelo menos é uma tese científica,o que vale é que é posterior :)
ACro João Jardine, concordo totalmente.
caro Ilustre Mandatário do Réu, abençoado cházinho, ainda bem que divulgou aqui a receita para apreciarmos os debates!

Ilustre Mandatário do Réu disse...

Nesta história há pormenores que são estranhos. Em primeiro lugar há um eco histórico importante com o caso Galileu. Em segundo as notícias são unânimes na crítica. Em terceiro apenas apresentam comentários de membros do mesmo grupo/casta dos condenados. Em suma trata-se de mais um caso onde a simplicidade maniqueista leva o espírito crítico a desconfiar.

E se os cientistas tivessem mentido deliberadamente à população seguindo instruções dos políticos? Isso faria deles culpados? Ou por serem membros da casta, isso faz deles inimputáveis?

Deixo apenas um link que pode ser útil.

Suzana Toscano disse...

Obrigada pelo link, caro Mandatário. A meu ver, esta histíra acabaria sempre mal para os cientistas. Como dizia Péricles, se tivesse corrido bem seria dos políticos o mérito da decisão de pouparem incómodos e pânico aos cidadãos. Como correu mal, os cientistas subiram ao palco do julgamento, como se pudessem alguma vez ter tido a certeza absoluta. Até podem ter sido imprudentes, ou vaidosos da sua ciência, ou sido fracos perante as pressões para se pronunciarem em determinado sentido, mas julgá-los? Incrível. Se tivessem dito que havia um risco enorme e se tivesse gasto um fortuna e grandes incómodos ás populações, e não tivesse havido nada, lá estariam eles de novo a ser julgados, desta vez pelo contrário. O caso de Galileu foi muito diferente, creiu eu, ele punha em causa uma quantidade enorme de "certezas" em que todos confiavam, só que ele não se calou... a não ser quando ameaçado de morte na fogueira.

Ilustre Mandatário do Réu disse...

Há só um ponto que me esqueci de referir. As pessoas que foram julgadas não foram enquanto cientistas que fazem investigação mas sim enquanto responsáveis de "protecção civil".

A notícia ao afirmar que "cientistas foram julgados" é enganosa, porque quem foi julgado foram responsáveis que tinham uma formação científica.