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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Se não tivesse passado quem passou...


Se não tivesse passado quem passou, passava. Mas, como passou quem passou, não passou.

Falava-me há tempos alguém nos “caminhos não trilhados”, o que é uma forma de imaginar o que seria se tivesse sido, ou o que não seria se não tivesse acontecido. Em qualquer caso, é sempre uma reconstituição hipotética, quando nos pomos a redesenhar os trilhos que lá estavam e que não percorremos eles surgem sempre livres dos escolhos que talvez então nos dissuadiram mas que, agora, não nos parecem tão grandes, também podemos com facilidade orientar esses rumos para um horizonte que nos sorriria quando, na altura, o caminho se fechava num lugar escuro. Não é só a vida das pessoas que é feita destes “ses”, geralmente decantados pela bondade da memória, ou pela insatisfação da realidade presente, em qualquer caso impossíveis de restaurar na sua real importância e inúteis se influenciarem a nossa capacidade de fazer balanços para orientar o presente. A vida dos países é, como não podia deixar de ser, igualmente fértil nessas encruzilhadas que se abriram, qualquer livro de História, mesmo romanceada, nos confronta com essas incógnitas que é preciso interpretar para lhe conferir emoção ou avolumar a responsabilidade ou a clarividência de quem decidiu na altura. Mas os “caminhos não trilhados” raras vezes servem para que se dirijam os destinos de uma forma mais lúcida, que se saiba nunca são as lições do passado que nos livram de errar de novo, ou de fazer escolhas que voltam a ser diferentes do que antecipávamos, precisamente porque as circunstâncias mudam, por muito que as queiramos pintar com as cores nítidas com que recordamos o que podia ter sido. Sempre que é preciso escolher, dizer que sim ou renunciar, voltamos a acrescentar “ses”, que voltarão a ser lidos com olhos que não foram os que os viram quando os confrontámos e decidimos, para o bem e para o mal. O mais que se aprende é prudência, é cálculo, o mais que se consegue é duvidar e hesitar, talvez até deixar de sonhar. Se, na vida das pessoas, isso significa menos paixão, menos ousadia, na vida dos povos essas reconstituições, aplainadas do seu real contexto, trazem frustração, desejo de vingança ou, talvez o pior, descrença nas capacidades de enfrentar a realidade da melhor forma possível. Já não é nada mau se usarmos o passado para olhar com prudência o que se nos depara sem perdermos a coragem de voltar a decidir. Mas, por favor, não aproveitemos a confusão para desvendar os “ses” do passado como se, tal como hoje, as escolhas de então tivessem sido isentas de erros, dúvidas e muitas incertezas. Tal como a vida de qualquer pessoa, que pode ser contada como uma sucessão de felicidades ou uma sucessão de falhanços, dependendo do ponto de vista que se queira focar, a História dos povos pode ser contada como gloriosa ou dramática porque sim, foram, ou porque, que pena, podiam muito bem ter sido. Nunca saberemos, de certeza absoluta, como seria se não tivesse sido ou, sequer, se poderia ter sido de maneira diferente. O que é difícil, na verdade, é continuar para a frente, apesar do que se sabe, admitindo que se supõe bem, esperando acertar quando é preciso decidir entre tantos ses. Como sempre foi e será, até nos figos, que podem passar se ninguém passar para os colher antes que passem, ou talvez não, quanto mais nos povos.

5 comentários:

jotaC disse...

Antes de mais eu não passava por esta figueira sem fazer passar pela minha garganta este figo prestes a passar...

Muito interessante este post (até parece transmissão de pensamento!), eu próprio o teria escrito - isto se soubesse fazê-lo, claro -, depois de rever hoje o vídeo do Engº Sócrates e da Dra. Manuela Ferreira Leite, aquando das eleições de 2009. A argumentação a esta distância não deixa dúvidas sobre o caminho que deveria ser passado, mas os malditos "ses" ofuscaram mais uma vez o discernimento...

Partilho aqui. a clarividência de MFL, i interrogo-me como estaríamos hoje se a tivessemos tido como PM...

Suzana Toscano disse...

Caro jotac, era mesmo apanhá-lo e comê-lo, acabavam-se logo as dúvidas :)

JM Ferreira de Almeida disse...

Subscrevo, Suzana. O passado, o que se trilhou e o que se não trilhou. a História feita e a falhada, podem e devem, no entanto, estar presentes quando se tomam decisões. Na maior parte dos casos comportam importantes lições para que saibamos contornar os erros.

JM Ferreira de Almeida disse...

Quanto ao fruto...chamava-lhe um figo! :)

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Suzana
Gostei imenso da sua reflexão com a qual me identifico. De facto não se consegue construir o presente e o futuro se nos agarramos aos "ses", mas o passado dá-nos, no entanto, lições que devemos ser capazes de perceber para podermos com mais confiança, esperança e segurança tomar decisões, nunca esquecendo as circunstâncias porque não há momentos iguais. O "copiar e colar" da informática não se aplica na vida real!.