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sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Cicatrizes da alma

Entrou com um sorriso fresco, rasgado e estranhamente suave, como se fosse obrigada a partilhar a felicidade que sentia. A conversa fluía normalmente até ao momento em que lhe perguntei se tinha tido alguma doença relevante; abrandou um pouco a intensidade do discurso e esmoreceu o sorriso, coisa de um piscar de olhos; foi tão rápido que passaria despercebido caso não estivesse a olhá-la. Estive de baixa durante três anos por causa de um linfoma. Estive muito mal, mas, graças a uma nova terapêutica, recuperei, não sei até quando, nem quero lembrar-me de que estive mais de um ano deitada sem poder fazer nada. Via-se a pairar entre nós uma estranha mistura de medo, de sofrimento, de alegria e de esperança. Não quis, obviamente, aprofundar mais a situação, para mim era suficiente, e, perante a sua atual situação, limitei-me a tomar algumas medidas que pudessem não prejudicar o seu estado de saúde, medidas sensatas e adequadas à sua atividade. Não entrei em pormenores, é muito complicado numa consulta fazer reviver o passado de doenças, sobretudo as situações graves. Incomoda-me fazer certas perguntas, porque é mexer em cicatrizes dolorosas, provocam dor. Dei a entender que tudo iria correr bem, que não haveria problemas, mas apercebi-me, atrás daquele doce, suave e amoroso sorriso, que não seria bem assim. Nova, mas com filhos já muito crescidos. Riu-se com vontade, ao dizer que tinha sido mãe muito jovem, e ainda bem, porque hoje são adultos autónomos, nem quero imaginar se os tivesse tido mais tarde. Agora não há problemas, senhor doutor. Certas conversas são estranhas, marcam-nos muito e ensinam-nos muito mais. Recebi mais do que dei, e evitei esmiuçar o seu passado patológico, aterroriza-me ter de tocar em cicatrizes da alma. Mas estas coisas nunca acontecem isoladamente, porque logo a seguir a funcionária, que tão diligentemente me ajudou, foi, também, observada. Fiz-lhe as perguntas sacramentais quanto ao passado patológico. Nada de relevante, ainda bem, pensei eu, mas ao colocar o estetoscópio verifiquei de imediato que tinha caído numa planície inesperada, não disse nada, auscultei apenas. No final, a senhora disse: senhor doutor, esqueci-me de dizer que fui operada há quinze anos. Não comentei e nem fiz qualquer referência, transmiti a ideia de que tudo estava bem e que essa informação era um pormenor sem importância, não valia a pena estar a recordar momentos dolorosos para a alma. Retribuí-lhe o sorriso, o meu misturado com o da senhora que a tinha antecedido, e que me tinha oferecido com tanta gentileza, talvez para poder oferecer a quem dele necessitasse. Foi o que eu fiz.

1 comentário:

jotaC disse...

Nesta vertigem insana que nos inferniza a vida, posso imaginar a tranquilidade que a reciprocidade de um sorriso pode causar...