Número total de visualizações de página

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Fantasia...

O mundo deve ter sido criado num momento de irreflexão, talvez fruto de um desejo, de uma paixão momentânea, mas nunca com base na razão, nunca. Perante o que vemos em nosso redor, e o que nos precedeu, terror, miséria, vingança, sangue e predação constante, viver constitui um tormento difícil de aceitar e de digerir. Mesmos os momentos mais prazenteiros, delicados, finos, artísticos, amorosos, caritativos, e inspiradores são ou foram curtos instantâneos que permitem apenas manter uma estranha e vã esperança em dias melhores ou numa melhor humanidade, mas não passam de ilusões num devir estupidificante que sabe adaptar-se às novas tecnologias e criações ao nosso dispor. Talvez o "sucesso" ou a beleza da criatividade sejam devidos à natural capacidade destruidora e predadora do homem, uma tentativa de esconjurar uma natureza pérfida ou meio pérfida, apenas para não reduzir à forma mais negativa a sua maneira de ser. Um ciclo estranho para o qual não há maneira de quebrar; nem a religião, ela própria um poderoso combustível de terror e de amor, nem a educação, nem todas as medidas sociais e culturais são capazes de melhorar o que quer que seja. Modificam o aspeto das coisas, e querem dar a entender que um dia tudo mudará, mas não, é uma ilusão que mitiga o esforço de alguns, só isso e nada mais do que isso. Resta-nos tentar viver na fantasia, a única forma de passar pela existência, porque a realidade faz doer, e cada vez mais. Um estranho queixume? Não. Um queixume tão velho como o homem, só que não nos recordamos dele, porque só agora é que o sentimos, ele precede-nos e suceder-nos-á com um estranho, colorido e cínico sorriso. Penso compreender a razão do porquê do refúgio de muitos em determinadas atividades; a melhor maneira de viver é virar as costas a uma realidade que se torna cada vez mais incompreensível. Afinal, a fantasia é muito mais percetível, quer a nossa quer a dos outros. Olho para as crianças e vejo exemplos vivos ameaçados de morte prematura assim que começam a entrar no mundo dos adultos. Tanta pressa! Mas para quê? Para nada, ou melhor, para sofrer, embora alguns consigam morfinizar-se por curtos períodos de tempo na beleza da arte e da criatividade.
Estranho consolo!

3 comentários:

Catarina disse...

... e na fantasia.

C.e.C disse...

A própria Natureza é feita de antíteses; umas subtis como se de simbioses se tratassem, outras extremas onde se balanceia a sobrevivência individual através da morte alheia.
No final, somos meros produtos da Natureza - como poderíamos nós esquivar-nos dessa sua "natureza"? Mas ao mesmo tempo, e talvez devido ao engenho humano, somos, no entanto, capazes de antíteses únicas. Os anos do Renascentismo, que para muitos ainda serão considerados como uma "Golden Age" intelectual, estavam contaminados por uma pecaminosa falha de valores e morais sociais; talvez o próprio proselitismo expresso na arte não fosse mais que um requiem de consciência. Os dias de hoje, tão criticáveis quanto os próximos, trouxeram evoluções morais, sem dúvida, mas igualmente estão impregnados de novas malícias e horrores.

Fantasia? Tanto quanto uma paralela selecção natural, com tanto de adaptativo como de destruidor, e portanto neutra.

jotaC disse...

Vamos criando (temos mesmo de inventar!) coisas que nos confortem para de alguma forma vivermos na ilusão de felicidade e segurança...