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terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Grécia: entradas de leão, saídas de sendeiro?


  1. É certo que a “procissão ainda vai no adro”, mas parece já claro que não poderia ter sido mais aventureirista (para dizer o mínimo) a forma como o novo governo grego cumpriu a sua primeira semana em funções, começando por anunciar um conjunto de medidas de política económica e financeira que contrariam frontalmente os compromissos assumidos pelo País com os seus credores no âmbito do Programa de Assistência Financeira ainda em curso.
  2. Tratou-se de uma verdadeira “entrada de leão”, mas numa forma incrivelmente desajeitada: é totalmente incompreensível, com efeito, que, tendo a Grécia necessidade (segundo o seu próprio governo) de obter grandes concessões dos seus credores internacionais, tenha começado por lhes “atirar á cara” um conjunto de decisões que são exactamente o oposto do que tinha sido prometido a esses credores…
  3. Ao agir desta forma, o novo governo grego terá criado a si próprio uma situação da qual agora só poderá sair de forma muito pouco auspiciosa: espera-o doravante um caminho árduo, de cedências atrás de cedências, pois já terá percebido que a persistência nas exigências de redução da dívida, de rejeição pacóvia de negociação com a Troika, de abandono unilateral do Programa de Assistência, teriam como consequência, a brevíssimo prazo, umam situação de bancarrota generalizada no País e de “salve-se quem puder”  - e quem não se salvaria seria certamente o governo…
  4. Mas agora, perante um cenário em que só lhe resta ir deixando cair, uma após outra, as fantásticas bandeiras eleitorais que lhe permitiram obter um mandato para governar (com um parceiro pouco cómodo, para agravar), vai colocar-se um novo e “inesperado” problema: como explicar aos gregos que, em tão pouco tempo, tenham sido abandonadas as teses centrais de um espectacular programa de governo…
  5. Vai ser muito curioso, com efeito, quando estiver concluído o corrente périplo europeu do seu Ministro das Finanças, e no seu regresso a casa tiver que mostrar uma mão cheia de nada, ver como irá começar por reagir o eleitorado face á evidente impossibilidade de cumprimento das grandes promessas eleitorais…
  6. …o eleitorado e também, segundo parece, a facção mais radical do partido vencedor das eleições, para a qual estas inevitáveis cedências poderão ser tomadas quase como actos de traição à Pátria Helénica…
  7. É o que têm muitas vezes estas entradas de leão, mal calculadas, acabam geralmente em saídas de sendeiro…

18 comentários:

Carlos Sério disse...

É claro que o governo grego a obter êxito nestas novas políticas deixará em muito maus lençóis o governo português e seus seguidores. Daí todas estas atoardas sobre os “recuos”.
Mas que culpa é que os gregos têm de os portugueses terem um governo subserviente para com a Troyka, que gosta de ser bom aluno e que não apenas concorda com a austeridade imposta pela Alemanha como a tem aumentado?
Os gregos seguem o seu caminho porque têm um governo que os defende ao contrário de Portugal que tem um governo que defende os interesses dos credores e despreza o seu povo.
O que o Syriza pretende quando diz que não negoceia com a Troyca é acabar com esse espectáculo humilhante para qualquer país, da chegada mediática para negociações de cinco funcionários de pasta na mão, com cara de poucos amigos e sem palavras, a que ministros sorridentes se curvam perante as suas ordens. Ainda por cima pagos a peso de ouro.
Creio não ser correcto afirmar-se que o Syriza atenuou o discurso ou ter já defraudado o seu eleitorado. Pelo contrário, o Syriza repôs o salário mínimo nos valores que antecederam os cortes, parou com as privatizações, repôs a energia eléctrica a mais de 300.000 gregos, recolocou funcionários públicos que tinham sido despedidos, iniciou a renegociação da dívida pública e deu acesso gratuito ao serviço nacional de saúde aos desempregados que com os cortes da Troyca passado um ano de desemprego ficavam sem esse acesso.
Em campanha eleitoral o Syriza sempre afirmou não querer sair do euro mas querer renegociar a dívida, exactamente o que está a fazer. Não corresponde portanto á verdade dizer que o Syriza suavizou o discurso. Pelo contrário, está a fazer precisamente o que prometeu - parar com a austeridade e renegociar a dívida.

Nuno disse...

Estou muito desiludido com o Syriza - até no salário mínimo recuaram e não repuseram nada.

Zuricher disse...

Nuno, tem link para essa informação? É que eu realmente tinha-me parecido que tinha sido só anunciado e não efectivamente reposto mas como não encontrei nada fiavel sobre o assunto fiquei com a dúvida.

Obrigado.

Pinho Cardão disse...

É mesmo assim, caro Zuricher! Ainda ontem isso me foi confirmado por alguém insuspeito e bem informado. Real, foi a readmissão das empregadas de limpeza do Ministério das Finanças...

Pinho Cardão disse...

Caro Nuno:
Estou solidário com o meu amigo. Falam, falam...

Zuricher disse...

Obrigado, caro Pinho Cardão, muito obrigado. A pantomina vai mais além do que eu julgava possivel então.

Mas, claro, é a tal coisa. Quando não há dinheiro...

Carlos Sério disse...

Eu compreendo a irritação e o mal-estar do governo e dos seus seguidores perante as novas políticas do governo grego. Colocar em causa, como estão a fazer os gregos, o modelo único, a austeridade sem fim, impingida aos portugueses como a única saída para a crise é coisa que os incomoda profundamente. É por esta razão que eles se desdobram em lançar anátemas sobre o governo grego.

Pinho Cardão disse...

Caro Carlos Sério:
Colocar em causa é o mais fácil que existe. Construir, mais difícil.
Ah, e com tais políticas os gregos já resolveram a crise? É que o meu amigo fala como se isso tivesse acontecido...

Tavares Moreira disse...

Caro Nuno,

Não tem nada que estar desiludido! Como terá verificado, não falta para aí (e para aqui...) quem esteja deslumbrado com as conquistas já conseguidas pelo governo grego.
Conquistas que podem bem ser sintetizadas numa declaração de hoje do PM grego: "Ainda não há soluções, mas estamos no caminho certo".
Como vê, são bastante visíveis e concretos os resultados já obtidos pelos (esforçados, reconheça-se) governantes gregos, justificando o entusiasmo de alguns simpáticos comentadores...

Caro Pinho Cardão,

Bem se pode dizer que as empregadas de limpeza do MF grego já fizeram sentir a sua presença, limpando uma expressiva fatia da arrecadação fiscal em Janeiro, graças á expectativa de um perdão fiscal por parte do novo governo.
Essa é também uma forma auspiciosa de iniciar um período de combate á evasão fiscal, ao que parece uma praga que persiste na economia grega...

Caro Zuricher,

Estes períodos de grandes mudanças que conduzem a escassa ou nenhuma mudança, na altura de fazer as contas, como parece ser cada vez mais o caso desta nova experiência governativa quase revolucionária na Grécia, têm sempre uma componente essencial de pantomina.
Componente essa que com o tempo até tenderá a acentuar-se, atenta a necessidade de disfarçar a vacuidade das realizações políticas no plano do concreto.
Prepare-se (preparemo-nos), pois, para mais, sempre mais pantomina...

Pedro Almeida disse...

Vale a pena ler este artigo do diretor do Diário Económico:

O "PLANO VAROUFAKIS" ADAPTA-SE À REALIDADE

O novo governo grego mudou de discurso, outra vez, mas agora, a realidade obrigou-o a acertar no tom, deixou-se de ilusões e pôs em cima da mesa uma proposta politicamente aceitável para a ‘troika' e, por isso, passível de ser discutida.
Os mercados tendem a ser racionais e, por isso, gostaram do ‘plano-Varoufakis', do pouco que ainda sabem, porque, afinal, tudo vai mudar para garantir que a Grécia continua o seu plano de ajustamento.
Em apenas uma semana, o ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, deixou cair a exigência de um novo perdão de dívida, que tem o valor astronómico de 322 mil milhões de euros e 175% do PIB, e passou para outra estratégia, mais realista para os investidores e para os eleitores dos países que pagam a assistência financeira à Grécia. Realista do ponto de vista político, porque ainda não se sabe verdadeiramente quase nada da proposta grega e por, isso, continuam a ser de difícil aceitação do ponto de vista económico.
Mas sabe-se um compromisso relevante: o governo grego quer manter excedentes primários, isto é, sem juros, o que é música para os ouvidos dos mercados - e dos credores oficiais - e uma machadada nas expectativas dos que gregos que votaram no Syrisa. Porquê? Porque isso não é compatível com as promessas de expansionismo orçamental e de fim da austeridade.
O governo grego propõe trocar os empréstimos europeus, no valor de 195 mil milhões de euros, e do BCE (50 mil milhões) por obrigações associadas ao crescimento económico e obrigações perpétuas, respectivamente. Não se sabe, por exemplo, qual é a meta de crescimento do PIB e o que sucede se essa evolução não for atingida. E as condições que a Grécia já tem do Mecanismo Europeu de Estabilidade, por exemplo, serão difíceis de melhorar.
Dito isto, o discurso revisto e corrigido de Varoufakis, que só se explica porque os bancos gregos estiveram à beira do precipício e dependentes da bondade do BCE - ironicamente, um órgão não-eleito, tal como os técnicos da ‘troika', os tais com quem a Grécia se recusa a discutir -, abre espaço a uma negociação, que tem também de ser política.
Dos resultados da negociação das próximas semanas, vai ficar a discussão sobre os vencedores e vencidos, inevitável por causa da forma como Tsipras chegou ao poder. Em relação ao programa eleitoral, a derrota do Syrisa é não só evidente como clarificadora sobre o que será a Europa nos próximos anos, mesmo com uma suavização de prazos e, menos provável, de taxas. É claro que Tsipras e Varoufakis vão vender qualquer cedência da Europa, que deve existir porque não há economia sem política, como uma vitória que muda o curso da história. Mas para os gregos, na verdade, o processo de ajustamento vai continuar, e não será tão diferente do que teria de ser sempre, com ou sem Syrisa.

http://economico.sapo.pt/noticias/o-planovaroufakis-adaptase-a-realidade_211341.html

João Pires da Cruz disse...

O BCE decidiu há pouco que OT's gregas deixam de ser colateral. A coisa parece encaminhar-se para a emissão de obrigações perpétuas sem taxa de juro, desta feita emitidas pelo Banco Central da Grécia, estas sim indexadas ao crescimento económico.... Ainda há quem diga que o plano está a falhar...

Zuricher disse...

Cruz, como quando isso acontecer já eles estarão fora do euro e a comprar o pão com malas de dracmas, problema deles, literalmente. Nessa altura a única preocupação dos restantes países Europeus deverá ser reaver o dinheiro que puseram na Grécia.

João Pires da Cruz disse...

Zuricher,

Não me parece. A preocupação deve estar nas questões operacionais porque nesta fase queimar 350 mil milhões de euros e imprimir mais outro tanto até dá jeito aos números do Draghi . As questões operacionais de como é que põem a Grécia fora de Schengen parecem-me mais cabeludas. Sim, porque assim que a Grécia sair do euro, como já foi sublinhado que o euro é um tratado irrevogável, aquilo que acontecerá para exemplo é que todos os outros tratados serão rasgados.

Tavares Moreira disse...

Caro Pedro de Almeida,

Iremos assistir, muito provavelmente, a uma sucessão de mudanças de discurso por parte do governo da Grécia que, devidamente somadas, equivalerão a uma alteração de posições de cerca de 180 graus.
A decisão do BCE de suspender a aceitação de dívida pública grega como colateral das suas operações de financiamento a bancos, vai acelerar esse processo de mudança.
As grandes questões que deverão colocar-se, face a essa alteração, terão que ver com a reacção das diversas forças componentes da coligação de governo na Grécia...admito que nessa frente se venham a registar algumas surpresas.
Quanto ao teor do seu comentário, parece-me, mais uma vez, bastante bem estruturado.

Caro Pires da Cruz,

Parece-me que já estou a vê-lo exibir, com orgulho, após ter subscrito honrosamente essa emissão, não um exemplar das obrigações perpétuas e sem cupão emitidas pelo Estado Helénico - uma vez que esses títulos são agora desmaterializados, como sabemos - mas sim um extracto da sua conta-títulos onde constam títulos dessa emissão.
Com esse gesto magnânimo, o Senhor irá, por direito próprio, para a galeria dos heróis da renovação europeia.

João Pires da Cruz disse...

Caro Tavares Moreira,

agora que se sabe que não perceber que emissões perpétuas a cupão zero indexadas ao crescimento económico se chamam "moeda" dá direito a uma carrada de cátedras por esse mundo fora, o mínimo seria o nomeaçãozeca para a Medalha do Banco da Suécia em Memória de Alfred Nobel. A ver o que o Stieglitz e o Krugman fazem a dizer disparates por aí, quem sabe não era o meu IRS a resolver as questões orçamentais portuguesas? Era o mínimo...

Tavares Moreira disse...

Caro Pires da Cruz,

Confesso que quando li no seu comentário a expressão "uma carrada de cátedras por esse mundo fora", ocorreu-me que ainda não é conhecida - ou não lhe foi dado o devido relevo na imprensa lusa - a douta opinião do Prof. Boaventura sobre este escaldante tema das obrigações perpétuas sem cupão...

João Pires da Cruz disse...

Não sei se o Prof. Boaventura precisa de se pronunciar sobre assuntos tão mundanos e epistemologicamente desinteressantes por viverem da ditadura das epistemologias do mundo capitalista.
Aqui há uns dias passei pelo site do CES, essa fonte de conhecimento para o mundo e reparei num texto novo de uma das suas investigadoras, uma tal de Prof.Dra. Teresa Moura, colega de Boaventura, Pureza, Pinho Vargas, Reis, Carvalho da Silva e outros galáticos do disparate. Versa o texto sobre:

"As comensurabilidades e as articulações tornaram-se possíveis e foram amplificadas porque ao estudo preside a lógica do tempo-longo, que permitiu captar as complexidades e de contra-contar este tempo longo e complexo; falar e descrever estas cidades velhas e novas, coloniais e capitais independentes e, nelas, encontrar as senhoras que as percorrem e habitam através das simbioses e discrepâncias que os seus trabalhos e ideias foram tecendo entre passados, presentes e futuros."

A senhora, especialista em feminismos pós-bélicos do Índico(sic), chega a este contra-contar do tempo longo e complexo de uma forma aparentemente admirável. Talvez alguém saiba o que isso significa, mas não retira de modo nenhum o mérito da investigação.

Tavares Moreira disse...

Caro Pires da Cruz,

Esse delicado tema das "comensuralidades e articulações" e respectiva "amplificação" (ao microscópio, creio, já que essas comensuralidades devem ser entidades extremamente minúsculas), entre nós admito só o Pinho Cardão tenha condições para investigar com alguma profundidade, depois de se ter dedicado à exegese dos textos publicados por um reputado tudólogo (no Diário de Notícias, se bem me recordo).
Sin embargo, atrevo-me a sugerir que esse tipo de análises pode revestir-se de grande interesse no âmbito da teoria da avaliação das obrigações perpétuas e sem cupão - estamos perante realidades financeiras de extrema delicadeza, exigindo instrumentos de análise não convencionais.