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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Realpolitik ou surrealpolitik?

Varoufakis, o ministro das finanças da Grécia, declarou que "O meu maior receio é transformar-me num político". Frase pensada? Vantagem ou desvantagem, a questão coloca-se? Será que vai conseguir não ser político e obrigar os que estão do outro lado a deixarem de o ser? Ou será que rapidamente o seu receio será confirmado pela realpolitik?

26 comentários:

Pinho Cardão disse...

Cara Margarida:
Frase pensada? Que optimista está a minha amiga!... Mas o homem algum dia pensou?

Bartolomeu disse...

Depende do estupefaciente que ele utilizar e se o mesmo não o tornar adicto. Para já e até ver, nota-se-lhe uma aptência refinada para o jogo do gato e do rato, sendo que este rato, demonstra ser um ratão.

Carlos Sério disse...

Creio não ser correcto afirmar-se que o Syriza atenuou o discurso ou ter já defraudado o seu eleitorado. Pelo contrário, o Syriza repôs o salário mínimo nos valores que antecederam os cortes, parou com as privatizações, repôs a energia eléctrica a mais de 300.000 gregos, recolocou funcionários públicos que tinham sido despedidos, iniciou a renegociação da dívida pública e deu acesso gratuito ao serviço nacional de saúde aos desempregados que com os cortes da Troyca passado um ano de desemprego ficavam sem esse acesso. Concordará que em poucos dias de mandato não será pouco, seguramente.
Em campanha eleitoral o Syriza sempre afirmou não querer sair do euro mas querer renegociar a dívida, exactamente o que está a fazer. Não corresponde portanto á verdade dizer que o Syriza suavizou o discurso. Pelo contrário, está a fazer precisamente o que prometeu - parar com a austeridade e renegociar a dívida.
Quem parece ter atenuado o discurso será a Comissão Europeia e alguns dos países da UE.
Só pelo que já fez, dê o mundo as voltas que vier a dar, o primeiro ministro da Grécia jamais poderá ser comparado a Hollande.

João Pires da Cruz disse...

Faz-me lembrar um candidato a PR qualquer que não me estou a lembrar....

Pinho Cardão disse...

Caro Carlos Sério:
O Syriza pode ter feito isso tudo, parece que a coisa não é tão clara como isso. Mas admitamos, por mim, sem qualquer esforço, que o fez.
A minha questão é: onde é que vai buscar euros para isso?
Claro que pode ir buscar dracmas. Mas o custo tornaria bem pior a vida dos gregos. Bem pior, caro Carlos Sério.
Por tudo isto, não é sério o que o Syriza anda a fazer.

Zuricher disse...

Bem, segundo o Financial Times, até o ministro das Finanças já fala em bonds perpetus condicionais (e certamente com coupon 0) mas isso a notícia do FT não pormenoriza.

Esta gente quer realmente pregar o calote e que os outros paguem as suas maluqueiras. Andam é à procura da fórmula retórica para tornar o calote aceitavel para os credores.

Esta gente, de séria, nada. Uns pedintes de chapéu estendido arvorados em grandes senhores.

Zuricher disse...

Bem, segundo o Financial Times, até o ministro das Finanças já fala em bonds perpetus condicionais (e certamente com coupon 0) mas isso a notícia do FT não pormenoriza.

Esta gente quer realmente pregar o calote e que os outros paguem as suas maluqueiras. Andam é à procura da fórmula retórica para tornar o calote aceitavel para os credores.

Esta gente, de séria, nada. Uns pedintes de chapéu estendido arvorados em grandes senhores.

Carlos Sério disse...


Caro Pinho Cardão,
uma resposta rápida.
De onde vem o dinheiro? A reposição do salário mínimo e das pensões resulta na animação da economia com diminuição de desemprego o que acarreta diminuição dos encargos do estado em subsídios de desemprego e aumento das receitas do Estado em IRS, IRC, IVA, etc. Repare-se no que aconteceu em Portugal na economia quando o Tribunal de Contas repôs parte das pensões. Será deste aumento de receita do Estado que vem o dinheiro. E também com uma reforma fiscal que obrigue os ricos, as oligarquias, a pagar impostos coisa que não acontece hoje na Grécia.
Porque será que nos países com maiores salários são os mais fortes economicamente?

JM Ferreira de Almeida disse...

Meus caros Amigos, eu que de política grega nada entendo e que nunca fui entusiasta deste UE, e menos entusiasta do Euro que se baseou em pressupostos que a crise revelou serem profundamente errados, não subestimo o que aconteceu. A verdade é que tendo a Grécia o peso relativo que tem, política e economicamente, e um partido que à partida não tinha condições para encontrar fora de portas interlocutor válido, conseguiram que o Presidente da ainda maior economia do mundo fizesse a declaração que todos ouviram.
Mas para além disso conseguiram um coisa que para mim é e sempre foi óbvia: os interlocutores dos governos não podem ser tecnocratas nem os chefes de missão da troica podem ter tratamento de chefes de governo. Efeito colateral, mas relevante, desta situação parece-me ser o princípio do fim da quase indecorosa mas reiterada posição dos responsáveis máximo do FMI a dizerem à 2.a feira que a dose de austeridade está a matar a economia, e à 3.ª feira os tecnocratas do mesmo FMI censurarem, por ser ainda pequena, a mesma dose. Nalguma medida tem sido este errático comportamento o timbre quer do BCE quer da Comissão, sem que se perceba bem qual a posição do senhor que preside ao eurogrupo.
Por isso, meus caros, não desprezem os atores de quem todo mundo fala, não só porque lhes tem de ser creditado o mérito de terem posto o mundo a falar deles, como algum bem pode resultar na agitação desta Europa taralhoca e de taralhocos.

JM Ferreira de Almeida disse...

Se porventura tiveram a paciência de ler o comentário acima, relevem os erros sff.

Filipe Santos disse...

Caríssimos,
Deixem que a caravana ganhe velocidade - e após o latir dos cães se desvanecer ou pelo contrario a sua persistência levar a que cerquem a caravana, cá estaremos para dissecar todas as informações e dar a nossa opinião.
No que toca ao seu maior receio é perfeitamente compreensível.
Quando se tenta combater o sistema por dentro o pior receito e deixar se vencer deixando que o mesmo entre em nos e nos derrote nas nossas convicções que nos corrompa.
A minha ingenuidade de 29 anos faz me desejar que cada vez mais estes "Cancros" espalhem metástases rapidamente, e que Portugal seja assim como a Grécia, pioneiros na quebra deste sistema que está a querer ser perpetuado pela maioria dos políticos com 50 e 60 que fizeram vida fácil ao longo destes 40 anos democraticos

Empreendedorismo Politico!
É o que falta!
Valores! Vocaçao Politica!
É o que falta!
Porque e desses valores e vocação que vive uma Republica!
E a nossa, filha da Velha Senhora austera e rude, que após o libertismo e das desculpas que se lhe foram aceitando, chega aos 40 anos e está com um feitio que ninguém a atura!

luis barreiro disse...

No seguimento do a opinião do Carlos Sério, se o Fidel Castro aumentasse o salário médio cubano dos actuais 25.00€ para 50.00€, 50.00€ não, é pouco, já que estou mãos largas, se aumentasse para 200.00€ a enorme quantidade de dinheiro ia dinamizar a economia, e passado 1-2 anos o salário já estaria em níveis estratosféricos.

Como é possível em pleno séc. XXI haver pessoas que ainda acreditam em contos de fadas, em soluções milagrosas de curto prazo, mas bem dolorosas no médio e longo prazo.

Henrique Pereira dos Santos disse...

Até agora, tanto quanto sei, o Governo grego limitou-se a dizer que ia aumentar o salário mínimo, ainda não aumentou nada. A ver vamos como e quando o fará.
Ainda que o faça, o problema central é de matemática, não é de opção política: aumentar o salário é transferir rendimento do capital para o trabalho. Portanto ou há ganho de produtividade em que todos podem ganhar, ou há uma redefinição da distribuição relativa das mais valias do processo produtivo.
Numa economia descapitalizada e com empresas à beira da falência a mim parece-me uma burrice transferir rendimentos do capital para o trabalho, porque o resultado é mais falências, mais desemprego para pagar a melhoria das condições de vida dos que mantêm o emprego.
Ou seja, os miseráveis a financiar os menos miseráveis.
Moralmente inaceitável.
henrique pereira dos santos

Carlos Sério disse...


Caro Pinho Cardão,
A questão é esta: o que vem primeiro. É a procura que gera a oferta ou é a oferta que gera a procura. Como sabe uma velha questão secular que os neoliberais recolheram do baú da história ao optarem por esta segunda escolha. E que pelos vistos comprovadamente não resulta mesmo. Baixem salários, diminuam IRC, facilitem despedimentos, aumentem horário de trabalho, que mesmo assim a economia não arranca. Parece que num inquérito recente junto das empresas se constata não ser já a falta de crédito que impede o investimento mas o sentimento dos empresários de que não haverá procura para os seus produtos. Mas isto é coisa que não entra na cabeça dos cegos e obstinados neoliberais.

Carlos Sério disse...

Caro luis barreiro,
Estamos a falar de Portugal, um país do euro, com a inflação controlada e agora já em deflação. Não estamos a falar de um país como Cuba em que um aumento descontrolado de salários provocaria inflação que reduziria o salário ao nível inicial por mais notas que os trabalhadores levassem para casa.
Antes de lançar epítetos aos outros recomendaria que amadurecesse melhor as suas opiniões.

Pinho Cardão disse...

Caro Henrique Pereira dos Santos:

De acordo com o meu amigo. Aquilo é demagogia, só demagogia; pior, exploração consciente dos sentimentos e das expectativas dos mais desfavorecidos.
Verdadeiros lobos com pele de cordeiro.

João Pires da Cruz disse...

Caro JMFA,

Não é verdade que o FMI diga uma coisa à segunda-feira e outra à terça-feira. O FMI, como o Banco de Portugal e quase todos os bancos centrais desse mundo servem de "alojamento" a uns quantos estudiosos de pseudo ciência a que se convencionou chamar de Economistas, embora acredite que a intenção das instituições é de facto elevar o conhecimento dos fenómenos económicos. Como aquilo que essas pessoas fazem não é, de facto, ciência, quando o FMI põe cá fora um relatório desses é natural que sobre o mesmo assunto surjam conclusões completamente diferentes. É da natureza da actividade.

O que é menos compreensível é que os media tenham o trabalho de ler esses relatórios, alguns estuchas como há poucas, e ignorem o disclaimer que vem na segunda ou terceira página que diz que aquilo que está reportado reflecte a visão do autor e não da instituição. Na verdade o FMI não tem opiniões.

JM Ferreira de Almeida disse...

Meu caro João Pires da Cruz, esta vai fazer um ano, e aconteceu após uma avaliação em que foram feitas críticas quanto a algum alívio das medidas de ajustamento: http://expresso.sapo.pt/christine-lagarde-admite-erro-do-fmi-quanto-a-efeito-da-austeridade=f845511
Se o FMI não tem opiniões, a Sr.a Lagarde fala em seu próprio nome? E em nome de quem falarão os membros da missão que subscrevem os relatórios? E o senhor que preside ao Eurogrupo?

Pinho Cardão disse...

Caro Carlos Sério:

Quanto ao primeiro comentário do meu amigo:
Assim, como diz, seria fácil, punha-se o carrossel a trabalhar, impulsionado pelo salário mínimo e tudo se resolvia, numa correnteza sem perda de ritmo e sempre a avançar. Lamentavelmente não é assim, principalmente numa economia aberta como é a da Grécia, e ainda não ouvi que também a queiram fechar. Mas talvez não falte muito... E, numa economia aberta, o consumidor vai adquirir o que é melhor e mais barato, não importa onde é produzido.
Também eu penso que o salário mínimo (e até já fiz posts sobre isso aqui no 4R) deve subir (reporto-me a Portugal), porventura por outras razões mais profundas que não são as que normalmente aparecem a justificar o aumento. Mas não creio ser possível aumentar produtividades na ordem dos 40%, 20% ou mesmo 10%, pelo que o acréscimo de custos em cadeia induzido pelo aumento do salário mínimo vai neceessariamente repecutir-se nos preços, levando a outras escolhas, pelo que lá vai o carrossel ao desastre.
Como tenho outra tarefa em mãos, voltarei.

João Pires da Cruz disse...

Caro JMFA,

errar no impacto das medidas de ajustamento não é exactamente um erro. Por exemplo, governo nenhum deste país algum dia acertou no défice final do orçamento. Não significa que tenha andado a mudar de opinião sobre o que é para fazer, simplesmente falhou na previsão que, como é óbvio, depende de muitas mais coisas que a vontade das pessoas. Embora possa concordar que a Sra. Lagarde parece nem em nome próprio saber o que diz, a verdade é que os estados europeus são municipalidades do ponto de vista financeiro e devem portar-se enquanto tal. Não há muitas formas de dar a volta à realidade, é assim. Os estados podem andar a pedir a revogação da lei da gravidade que não é por isso que desaparece.

JM Ferreira de Almeida disse...

Tenho de discordar meu caro João Cruz. O que alguns responsáveis do FMI têm dito - logo desmentidos pelos relatórios de avaliação - não é que erraram NAS MEDIDAS DE AJUSTAMENTO, mas antes NA MEDIDA DO AJUSTAMENTO. O problema é de adequação, pelo menos pelo que percebo das sucessivas intervenções da senhora Lagarde e de outros com o mesmo nível de responsabilidade. Por isso é que opino que esta agitação, descontado as evidências de irrealismo de algumas propostas, pode ser virtuosa no sentido de fazer intervir, e sobretudo vincular, quem foi designado para assumir a responsabilidade de decidir. A continuarmos assim, acentuar-se-à o descrėdito destas instituições e o cansaço dos Povos, cada vez mais desconfiados sobre o mérito dos sacrifícios que lhes impõem.

Pinho Cardão disse...

Caro Carlos Sério:
Continuando:
Independentemente do peso do factor trabalho na formação do preço, aumentos colosssais daquele, sem produtividade correspondente, e numa economia aberta, só podem ter como consequência a recusa da procura a aceitar uma oferta mais cara, face às alternativas. O que significa desemprego, sem expectativa ou esperança.
Quanto à velha questão da procura e da oferta: na minha récita de finalistas de Económicas (no meu tempo ainda havia...), no Teatro da Trindade, havia um quadro em que o estribilho era "toda a oferta gera a sua própria procura", uma humorada crítica à Lei de Say. Claramente que é a procura que gera a oferta, embora fique por explicar o papel da oferta na criação de necessidades que levam à procura e aquisição de produtos antes desconhecidos ou inovadores.
A economia não é uma coisa simples,ou tão esquemática como o meu amigo a apresenta: carrega num botão e vem o sol, carrega noutro, e faz-se noite. Com as leis económicas que o meu amigo assim simplificadamente apresenta nunca uma economia em expansão entraria em crise e nunca uma economia em crise poderia recuperar. E não é assim.
Por exemplo, em Portugal, a economia tem vindo a recuperar e as exportações a crescer, mesmo com políticas pouco amigas do investimento (forte condicionamento industrial burocrático, fiscalidade ao nível do esbulho, justiça lenta, estado paralelo robusto, que os lobies procuram sustentar a todo o custo, etc, etc).
Ora, se é assim, claro que com outras políticas, mas nunca as centradas nos gastos públicos, o investimento privado poderia disparar, sendo ceto que nunca, porventura à excepção de um curto período após a crise de 2011, o financiamnento foi obstáculo à concretização de novos projectos. A burocracia, sim.

Pinho Cardão disse...

Caros Ferreira de Almeida e João P. Cruz:
Um ex-Ministro socialista dizia há tempos: ministro que despache contra os serviços é louco. Eu diria que, se assim é, não é preciso Ministro, bastam os serviços. Mas, se assim é, e apesar de tudo, também era bom que tivessemos vários ministros loucos.
Também nas grandes organizações internacionais proliferam organismos sem dono, que põem e dispõem de estudos e estatísticas, torturam os números em razão das ideologias, sobrepondo-se a tudo e a todos. Os dirigentes, passageiros provisórios e transitórios, geralmente uns contentinhos do poder a que ascenderam, deixam passar a procissão, mesmo que sejam desmentidos ou contrariados a cada passo pelas estruturas que era suposto darem-lhes apoio.
Por isso, as contradições são frequentes e notórias.
E cada vez me tornei mais crítico de relatórios da ONU, da OCDE, do FMI, etc, etc, cada vez mais a opinião de quem o escreve do que a opinião fundamentada da instituição. E, sendo assim, confio mais na minha opinião do que na dos doutos economistas subscritores. Servem-me de informação genérica, mas só me manipulam o juízo.

Pinho Cardão disse...

...mas não me manipulam o juízo, queria eu dizer...

septuagenário disse...

Nem que a dívida de uma Grécia ou de um Portugal, "periféricos" geográfica e económicamente, estes países acertam o passo para acompanhar o resto da Europa.

Estaremos sempre de mão estendida, a não ser...o tempo volte p´ra traz!

Carlos Sério disse...

Caro Pinho Cardão,
Não cabe aqui entrar em discussões profundas sobre a “ciência económica”. Não o vou fazer.
Ao contrário do que afirma - “a economia tem vindo a recuperar e as exportações a crescer”, parece-me que se está a iludir e a ir no conto do “milagre económico” do ministro Pires de Lima. Aliás essa história do arranque da economia já a ouço dos governantes e seus seguidores aqui no IV Republica desde 2012.
Mas vejamos:
O índice de produção industrial apresentou uma variação homóloga de -2,0%, em Novembro.
O Índice de Volume de Negócios na Indústria apresentou, em termos nominais, uma diminuição homóloga de 5,2% em Novembro.
O Índice de Volume de Negócios no Comércio a Retalho registou em Novembro uma variação homóloga de 0,2%.
Volume de Negócios do sector do Comércio estabilizou, mas o número de empresas e pessoal ao serviço diminuíram.
O índice de produção na construção registou uma variação homóloga de -5,8% em Novembro.
Em Novembro de 2014, as exportações de bens diminuíram 0,4% e as importações de bens cresceram 2,8% face ao mês homólogo.
(Dados INE)