1. Nestes dias de frenética agitação em torno de um possível “break-up” da zona Euro, com muitos investidores, nomeadamente asiáticos, a desfazerem-se de dívidas soberanas europeias com excepção da Alemanha – a segurança máxima, por definição – será interessante apreciar as consequências possíveis do cenário “saída da Grécia do Euro”, que tem sido o mais aventado...
2. Esse cenário, que irei apresentar sintéticamente, desenvolver-se-ia de forma sequencial, avisando desde já que a leitura dos pontos 4 e seguintes não é recomendável a pessoas que padeçam de insuficiências cardíacas ou de hipertensão...
3.Não vou entrar na questão de saber se a saída do Euro implica tb o abandono da União Europeia, como parece ser a opinião jurídica mais consistente, uma vez que essa circunstância apenas agravaria as perspectivas, reforçando a nota de Terror deste cenário.
4.A 1ª etapa deste cenário consistiria na decisão do Governo grego de avançar, ainda sem confirmação, para a saída, começando de imediato os rumores sobre o tema e o consequente levantamento de dinheiro (notas) dos bancos gregos por particulares, as empresas ordenam transferências de fundos para contas no exterior. Os financiadores externos de empresas sediadas na Grécia cancelam as linhas de crédito, os bancos gregos são forçados a suspender a actividade por falta de recursos...
5. 2ª Etapa, o Governo grego reúne de emergência, anunciando o regresso ao drachma, impondo controlos de capitais, incluindo o controlo das saídas de dinheiro (notas e outros valores) através das fronteiras. A dívida pública é redenominada para drachmas, o valor externo do drachma cai a pique, a inflação dispara...
6. 3ª Etapa, começam as disputas jurídicas para saber, por exemplo, se um empréstimo que tenha sido concedido por um banco alemão à Filial grega de uma multinacional alemã, passa a ser denominado em drachmas ou se continua ser denominado e exigível em drachmas...se o entendimento for no sentido do drachma, então o banco alemão passa a ter um sério problema pois o seu activo passará a valer muito menos...
7. 4ª Etapa, aparecem fenómenos de contágio, pois os cidadãos portugueses, italianos e outros, pensando que o mesmo pode acontecer no seu País, começam também a fazer levantamentos em massa das suas contas bancárias e as empresas transferem fundos para o exterior enquanto é tempo, colocando a banca entre a espada e a parede, forçando alguns bancos (para começar) a suspender a actividade...
8.5ª Etapa, espalha-se a confusão acerca da magnitude da exposição dos bancos europeus em geral ao sector privado da periferia atingida pela brutal crise de confiança, pelo que as transacções entre bancos são suspensas, as acções representativas do capital dos bancos, já muito depreciadas, tombam vertiginosamente...
9.6ª Etapa, em resposta a uma entrada maciça de capitais, a Suíça decide impor taxas de juro negativas aos depósitos de não-residentes...
10. 7ª Etapa, o crédito concedido pelos bancos por toda a zona Euro fica praticamente paralisado, a economia entra em abrupta recessão...
11. Não me vou estender mais, esclareço que este “Cenário de Terror” não é criação minha, foi publicado na edição do F. Times de 8 do corrente, num interessantíssimo artigo assinado por Robert Jenkins, membro do ínterim Financial Policy Commitee do Bank of England...para quem queira ler, o título do artigo é “Greece will restructure but it must do so within the Euro”.
12.Pela minha parte, direi apenas mais o seguinte: vai ser preciso termos todos (europeus) muito “juizinho”, pois apesar de não ser certo/garantido, a simples possibilidade deste Cenário se verificar é de molde a deixar-nos os cabelos em pé...