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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

"Que o envelhecimento me faça esquecer estas tristezas..."

Os sinais de envelhecimento não são as rugas, a perda da elasticidade da pele, a luta pela recordação do nome de um amigo, as dores nas juntas, o cansaço, a perda de cabelo ou a rebeldia distópica das gorduras, enfim, tudo isto é natural e corre, de uma forma geral, devagar, devagarinho, para que possamos habituar-nos sem grandes sobressaltos ao anúncio do fim, temido umas vezes desejado outras tantas. Os verdadeiros sinais são a falta de pachorra, a intolerância crescente à mediocridade, a revolta contra a falsidade e a iniquidade e um sentimento nauseabundo despertado pela vigarice protagonizada por muitos.
A vigarice é altamente lucrativa para um certo número de pessoas ao sugar a riqueza e a boa vontade colectiva.
É incrível que a sociedade da cultura, sociedade fortemente mediatizada, não consiga por travão a tamanhos fenómenos causadores de angústias, de mal estar social e, até, mesmo de sofrimento físico. É horrível. De ano para ano aumenta a agressividade publicitária e a conivência de interesses económicos, em que vale tudo, desde chupar o tutano dos pobretanas a alienar o pouco juízo que reina por aí. Caiem como tordos ou como tralhões sequiosos das lagartas presas aos costilos. Ao fim do dia os predadores recolhem as mais valias de uma prática mais do que milenária, eterna, perene, abençoada pelo sol e pelos deuses. Quantos movimentos religiosos se regem por estas práticas? Tantos, negócio seguro. Quantos produtos alimentares são caracterizados por princípios saudáveis, mesmo que não o sejam? Tantos, negócio seguro. Quantas figuras da televisão conseguem vender a alma ao diabo, enriquecendo à custa do reconhecimento publico? Tantas, negócio seguro. Quanta publicidade enganosa em curso está a revelar-se perante a idiotia humana? Tanta, negócio seguro. Mas há mais, muita da política e da economia que se consome e se produz não são abandonadas ao acaso ou ao capricho de alguns, não, devem ser vistas num outro contexto como formas eloquentes de enganar o máximo número possível de pessoas, reduzidas muitas vezes para a esfera da cretinice, mesmo sem ser cretinas, antes pelo contrário. Mas são impotentes. Negócio mais do que seguro, seguríssimo, porque são os patetas que irão pagar as loucuras de quem governa. Colchão para as dores das costas? Negócio seguro. Extorsão praticada por encartados e, curiosamente, protegidos pela lei, negócio seguro. Estamos perante negócios seguros, e sempre dentro da lei, mesmo que à partida saibamos que são atentados à esperança e aos legítimos desejos dos cidadãos que acabam por ser canibalizados por quem sabe da poda. Para mim é talvez a mais grave da economia paralela. Ao encherem os bolsos esvaziam não só a carteira de muitos mas, também, o alimento da alma de quem se entrega confiante ao cuidado do próximo.
Ver certos programas televisivos provocam-me um mal estar profundo. Vejo frequentemente apresentadores(as) das televisões sem qualquer sentido ético, sem a mínima noção de responsabilidade, abusando do poder mediático que alcançaram e provocando apreensão ao promoverem "curandeiros" sem escrúpulos. Mais eficientes do que os camaleões, os mesmos mostram facetas de um pretenso humanismo ante situações pungentes e dramáticas. Deveria haver códigos de ética para essas pessoas, às tantas até há, mas esquecem-se naqueles momentos particulares, que não são raros, mas são lucrativos.
Cada vez deteto mais casos de vigarices encapotadas e travestidas de mil e uma formas, sinal de que devo estar a envelhecer rapidamente. Que fazer? Que o envelhecimento me faça esquecer estas tristezas...

4 comentários:

Catarina disse...

Será o envelhecimento seletivo, caro Prof? Não irá ele fazer esquecer também as alegrias?

Massano Cardoso disse...

As alegrias não são para serem recordadas elas incorporaram-se na nossa essência, fazem parte de nós, logo, só as esqueceremos se não soubermos que existimos, até lá...

MM disse...

Permito-me aqui citar um blog da "concorrência", o morcon:
"A céu aberto.
A solidão é o mais fiel dos espelhos. Sublinha a nossa imagem e reduz a dos outros ao exílio das recordações..."
Publicada por Julio Machado Vaz". Sempre pode ser uma alternativa, Professor! Garanto que a solidão eh um precioso auxiliar para "lavar a alma" da náusea de que fala. E, se recheada de ocupação útil, como podar a vinha (e com estes dias de sol esta terapia quase só por si eh um sucesso!) e leitura adequada, nao eh preciso o envelhecimento,que eh penalizador...

Massano Cardoso disse...

Obrigado MM. Vou seguir o seu conselho...