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domingo, 1 de abril de 2012

A reconstrução

Estive agora a ver um programa na SIC em que uma equipa pluridisciplinar de médicos, psicólogos, nutricionistas e o mais que for preciso, incluindo cabeleireiros e conselheiros de como vestir ou escolher uns óculos, se ocupam de pessoas em estado francamente mau para as transformar no que queriam ou podiam ser. Um dos casos impressionou-me bastante, soretudo porque mostrou o amor de um garoto pela sua mãe. Uma mulher de 48 anos, que ainda era bonita mas que vivia completamente destroçada por sucessivas infelicidades, algumas resultantes da falta de dinheiro para se cuidar, outras provocadas pela incúria ou incompetência de outros. Por exemplo, tinha os dentes todos partidos na sequência de um acidente num autocarro, uma travagem brusca, caiu desamparada, entre as contusões uma brutal pancada na boca. Pelos vistos ninguém a indemnizou ou ajudou.Empregada de balcão de profissão, simplesmente deixou de sorrir e passou a falar quase sem mexer os lábios, com medo de ser despedida, e sofria reparos e humilhações permanentes. Sofria também de dores de cabeça terríveis e má alimentação, tudo por causa dos dentes. Além disso tinha feito há anos uma histerectomia da qual ficou uma costura horrível, que lhe dava dores permanentes, a impedia de usar roupas mais justas e, claro, não voltou à praia. Seguiu-se um divórcio e crescentes dificuldades financeiras. O filho mais novo, um garoto de 15 anos, não suportava ver a infelicidade da mãe e o testemunho dele no programa foi profundamente comovente. Vivia amargurado com a infelicidade dela, fazia-lhe músicas para a alegrar, dizia-lhe todos os dias que ela era linda, mas nada, ela vivia numa tristeza profunda e a desejar a morte, de que só o filho a fazia desistir. Foi por isso que ele a inscreveu no tal programa, acreditando que era uma oportunidade única de, sem gastarem o dinheiro que não tinham, lhe devolver a auto estima e o gosto de viver. Fez-lhe a surpresa de a inscrever e ela aceitou, muito receosa, mas mostrou ter imensa coragem perante a imensidão dos tratamentos a que teria que submeter-se. E, por cada progresso, falava do filho e da alegria que ele ia ter ao vê-la.
Depois de passar por uma série de intervenções cirúrgicas de pura reconstrução e alguns retoques estéticos, mais um bom tratamento e corte no cabelo esbranquiçado e baço, a senhora ficou lindissima, como devia ser naturalmente se não tivesse passado pelas desgraças que a vida lhe reservou. Incrível também como o facto de ela se sentir horrível ainda a fazia desleixar-se de pequenas coisas que podia resolver.
Foi bonito vê-la, toda produzida e sorridente, com brilho no olhar e a abraçar longamente o filho, um adolescente muito mais alto do que ela, que chorava de alegria como uma criança.
Bem sei que este programa é para fazer propaganda e divulgar as maravilhas das ciências modernas tantas vezes mostradas como um luxo inacessível, mas a estética realmente não pode ser vista como uma futilidade, é mesmo muito importante que as pessoas possam sentir-se bem consigo próprias, tanto quanto é importante que saibam distinguir o que é essencial daquilo que é simplesmente um envelhecimento saudável e natural.

7 comentários:

Caboclo disse...
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JM Ferreira de Almeida disse...

Felizmente ė episódico, mas acontece. Há quem apareça aqui para expressar a sua loucura. Como não há camisas de força virtuais só resta mesmo apagar as maluquices...

Massano Cardoso disse...

Muito bem Ferreira de Almeida. Certos casos não têm cura e nem vale a pena estar com medidas estéticas.
Quanto ao teor da nota, que apreciei muito, só posso dizer que o cuidado com a imagem de uma pessoa é uma poderosa terapêutica capaz de modificar o curso de determinados acontecimentos. Quantas e quantas vezes a aconselhei, desde medidas comezinhas e baratas, até a algumas maIs sofistificadas. Garanto que são muito eficientes, a alma vê-se de forma diferente e sabe apreciar o cuidado com a imagem e o corpo. Resultado, começa a dançar de alegria e o "resto" é para ajudar.
Por isso, Suzana, graças ao seu post, acabei de recordar muitos episódios. Bonitos e felizes, posso garantir-lhe.

Pinho Cardão disse...

O amor filial e o amor maternal por vezes fazem milagres. Um episódio comovente.

(c) P.A.S. Pedro Almeida Sande disse...

O sofrimento silencioso de uma parte deste povo que merecia uma elite do poder mais desprendida e solidária, está bem plasmado neste post da Suzana Toscano - mas também no "estar sentado é perigoso para a saúde" e no "resistir" de Massano Cardoso- e infelizmente não é caso único (Sampaio falava há pouco na enorme dignidade de um povo que sofre! - infelizmente um sofrimento imposto muito do qual não da sua responsabilidade).

Portugal tem esta coisa estranha de conviver com o melhor em várias "artes e disciplinas", como é hoje o caso da medicina dentária, com uma parte de um povo etnograficamente de uma extraordinária riqueza que o tem feito sobreviver à indecência de uma nobreza de corte - como o que se mostrou ontem contra a morte das freguesias por decreto - desprovido e excluído do acesso a um rendimento mínimo de dignidade e sustentabilidade (basta cruzar o PIB per capita com a distância entre o seu ponto mínimo e máximo).

Em consequência, sofre o povo e sofre o país, enquanto se enganam do seu "vazio interior" uns poucos, por um país desequilibrado a várias velocidades. Que se alterasse esse desequilíbrio com mais justiça de partida e solidariedade, conseguiria o país só por essa via "ganhar" muitos pontos a acrescer ao PIB, ajustando-se até no seu ratio orçamental e reganhando novos sorrisos, em muitas das poucas faces desta população sistematicamente amargurada, desesperançada e triste.

Caboclo disse...

Abaixo o politicamente correto !

Suzana Toscano disse...

Caro Ferreira de Almeida, não cheguei a ler,obrigada pela sua pronta atuação.
Caro Massano Cardoso,acredito que tenha excelentes memórias para recordar,bem as temos partilhado aqui e espero que este post possa "render" umas quantas mais!
Caro P.A.S., talvez porque estamos todos massacrados de más notícias e pouca esperança saiba tão bem ver um caso em que valeu a pena lutar e que acaba mesmo com um grande sorriso.