Número total de visualizações de página

sábado, 12 de maio de 2012

Rosa vermelha

Manhã quente, demasiado para o meu gosto. Disse a frase costumeira, já venho, vou tomar um café. Ninguém respondeu, não havia necessidade, os trabalhadores ainda não tinham concluído o ritual dos exames habituais, é o que faz ter a mania de chegar "antes do tempo". Não me importo, porque confere-me o direito a saborear a minha bebida preferida, respirar o ar matinal, olhar para as faces recém despertas, umas imbuídas de alegria, outras de tristeza e algumas atormentadas pela angústia, enfim, almas ainda meio despidas pela noite, almas a transbordar sinceridade, porque é a esta hora que as suas janelas se entreabrem, permitindo ver o seu interior. Não se apercebem. Sorrio. É bonito de se ver. Cruzei-me com algumas, muito poucas.
Enquanto me dirigia até ao café, lembrei-me de uma consulta do dia anterior em que observei uma jovem, que, na madrugada da serenata, foi atropelada, tendo os autores fugido sem prestar os cuidados necessários. A sorte esteve do seu lado. Apesar de ter sido arrastada durante alguns metros não sofreu graves traumatismos. Quis identificar os autores e registar a matrícula da viatura mas não conseguiu. Passados alguns dias foi à minha consulta. Hematomas variegados recobriam grande parte do seu corpo, mas estavam no bom caminho, e não havia, felizmente, nada de grave. Uma atitude lamentável, a não prestação de socorro, porque as coisas poderiam ter corrido para o torto. Comentei o assunto e sugeri-lhe que participasse às autoridades, mesmo que os autores não venham a ser descobertos. Face à explicação, tudo leva a concluir que teriam sido estudantes encharcados em etanol. A jovem vai proceder em conformidade. Lamentável e criminosa a atitude dos agressores. Estudantes mal formados que um dia serão cidadãos irresponsáveis. Claro que o comportamento da maioria é o oposto do verificado neste caso, tem que ser, não pode ser outra coisa, mas uma fruta podre é suficiente para destruir toda a restante. Ia a pensar neste episódio, perto da passadeira para passar para o outro lado, quando ouço o barulho de um automóvel a aproximar-se. Abrandei e olhei para o veículo, branco, com uma jovem estudante no banco do pendura, fresca de idade, portadora de um belo sorriso, irradiando verdadeira felicidade, a que não terá sido alheio, muito provavelmente, uma noite quente. Vejo o seu braço a sair da janela a lançar uma rosa vermelha. O riso acentuou-se num misto de vergonha e de alegria, confiante de que a distância a pouparia a algo que pudesse perturbá-la. Olho para os meus pés e vejo uma linda rosa. Em redor não havia mais ninguém, o que me levou à conclusão de ter sido o alvo, um alvo desconhecido, de um gesto que considerei como testemunha de alegria de uma alma. Fiquei agradado, naturalmente, com este episódio, rapidamente esquecido pelo anúncio da morte anunciada de um cunhado.
Veio-me à memória este episódio da rosa, porque hoje, no funeral, uma das filhas retirou uma rosa vermelha, linda, entre a miríade de flores que ornamentavam a urna. Deu-a à mãe com a indicação de a colocar na campa da avó, adormecida a muitos quilómetros do local onde o filho ficou. Dois corpos, duas almas vivas, sofredoras, distantes, mas sempre presentes que partilharam a mesma flor no mesmo dia, uma rosa vermelha. E eu estou a partilhar duas rosas, ou será que é a mesma?

2 comentários:

Catarina disse...

Em ambos os casos, a rosa vermelha indica respeito e amor.

Suzana Toscano disse...

Os meus olhos

Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
Que eu vejo no mundo escolhos
Onde outros com outros olhos,
Não vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
Uns outros descobrem cores
Do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
Onde passa tanta gente,
Uns vêem pedras pisadas,
Mas outros, gnomos e fadas
Num halo resplandecente.
Inútil seguir vizinhos,
Querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.

António Gedeão
(1906-1997)