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terça-feira, 15 de maio de 2012

Um trivial café...

Consegui acabar as consultas a tempo na parte da manhã. Desloquei-me até Pombal, onde almocei. Pedi grelhado misto à senhora, o habitual para quem se comporta como um animal que tem fome e que não está para experiências, gastando o pouco tempo do meio do dia. Enganou-se, trouxe-me entrecosto. Não disse nada, até agradeci porque foi super rápida o que me permitiria descansar um pouco e beber um segundo café, coisa que só faço aqui. Passei o rio, desloquei-me à esplanada e fiquei aborrecido. Não tinham posto as mesas e as cadeiras. Recusei ir para o interior do café. Com um dia destes seria uma heresia. Que fazer, então. Muito simples. Entrei na igreja da Nossa Senhora do Cardal, onde se encontra a "milagroza imagē", e aí permaneci até retomar o trabalho. É um local encantador, fresco, suave, elegante, excelentemente bem cuidado e vazio como é recomendável para uma pessoa como eu. Olho para as paredes e vejo nichos, santos e o local onde o Marquês descansou durante alguns anos, poucos, e que, certamente, caso lhe perguntassem, onde é que quereria ficar até ao fim da eternidade, ou coisa parecida, diria que era ali. Mas que raio de ideia teve o seu quarto sucessor quando o levou para Lisboa, um provinciano, vê-se mesmo. Levou o que restava dos seus ossos, mas o seu espirito está bem presente neste local. Eu gosto desta estranha combinação, confesso. Não é por motivos religiosos que entrei neste espaço, é "por motivos", como diz o José Raposo. Como não tomei o segundo café na esplanada em frente, onde teria oportunidade de ver os vivos, e os seus comportamentos, refugiei-me num dos mais belos, doces e tranquilizadores lugares que conheço. Ao meu lado direito vejo a lápide do Sebastião José Carvalho e Mello e três imagens da Nossa Senhora, entre as quais a tal "milagroza imagē". Já aqui estou há um bocado e não me cansaria se ficasse mais um pouco. Entretanto, escrevinho, já não sei por que razão, apenas porque considero o local muito convidativo à reflexão e à escrita. Tanta gente passou por aqui, tanta gente que chorou e tanta que se alegrou nesta bela igreja barroca, mas quantos escreveram? Não sei, às tantas mais do que eu penso, mas se não escreveram, então, escrevo eu e agradeço este excelente e estimulante café espiritual. Está-me a saber bem. Olho para dois fransciscanos, doutores, o São Boaventura e o São Luís, presumo que o de Anjou, e julgo aperceber-me de que deverão estar, também, em reflexão ou a escrever algo, naturalmente muito mais elaborado e profundo do que eu. De qualquer modo, agradeço-lhes terem-me deixado reflectir, ainda que humanamente, sobre a existência e a falta de um trivial café.
Vou-me embora, são quase duas horas. O trabalho urge

5 comentários:

Bartolomeu disse...

Peço-lhe desculpa, caro Professor, mas em minha opinião, a decisão do sucessor do Marquês de Pombal, de mandar trasladar os seus restos mortais para a Igreja da Memória, em Belem, não me parece nada provinciana (considerando o termo menosprezante para a quem for aplicado).
Como saberá certamente, aquela igreja foi mandada construir pelo próprio Marquês, em memória do atentado perpretado contra o Rei D. José I, quando regressava de um habitual encontro com a "marquezinha" de Távora. O que levou a que (quase) toda a família fosse mandada executar pelo marquês, com o assentimento do Rei, naquele que está hoje assinalado com uma coluna de pedra, como "chão salgado".
Mas, isto que refiro, não seria por si só justificativo da decisão do sucessor de Sebastião José se, não se desse o caso de Igreja da Memória ter sido construída segundo determinadas regras, tanto arquitectónicas, como esotéricas.
Ou seja, na planta arquitectónica a construcção observa a regra de phi e ainda os preceitos maçons, o portico, as colunas, etç. A configuração em planta, é em forma de cruz e... numa vista aérea (verificável utilizando as imágens do google earth) a cúpula maior exibe a forma de rosa e a menor, inserida no conjunto, assemelha a figura do próprio Marquês que como se acha referido, era mestre maçon e cavaleiro Rosacruciano.
Portanto, caro Professor, numa dedução à merceeiro, diria que a decisão do sucessor, teve em vista, satisfazer póstumamente, um desiderato do marquês. O qual, ao que parece, gostava mais de Oeiras, que de Pombal e só terminou lá os seus dias por imposição da Rainha D. Maria, a qual tentou contrariar, segundo a lenda, vindo a Lisboa mas trazendo o piso da sua carroagem, coberto com terra de Pombal, onde pisava. Safando-se assim à prisão, alegando que o desterro, decretava que não poderia voltar a pisar o chão de Lisboa.
;)

Massano Cardoso disse...

Oh Bartolomeu.
O seu comentário é enriquecedor, sem qualquer dúvida, sob todos os pontos de vista. No entanto, se o homem estivesse aqui, às tantas, seria mais "apreciado" do que em Lisboa. O termo depreciativo provinciano também se aplica a muitos habitantes da Capital,, até mais do que na "província" propriamente dita. Aprendi este termo, e o seu significado, em Lisboa, quando era pequeno. Assim que chegávamos a Santa Apolónia, os taxistas, que na sua maioria eram da província, faziam a pergunta habitual: - Então, vêm da província? Para o raio que vos parta, pensava eu. Mas ainda hei de lhe mostrar um texto a este propósito.
Um abraço

Bartolomeu disse...

Caro Professor,
relativamente ao facto de os Pombalenses poderem dar mais apreço à presença dos restos mortais do Marquês, que os Lisboetas; sem proceder a um referendo prévio, declaro-lhe que me acho convicto do mesmo.
Os lisboetas, por tradição ou qualquer outro inexplicável fenómeno, tratam péssimamente os monumentos evocativos dos vultos que engrandeceram Portugal, assim como as suas memórias.
Neste aspecto, os "provincianos" sabem muito melhor preservar as figuras que notabilizaram as suas terras. Apesar de o Marquês não ter nascido, nem em Pombal, nem em Lisboa e muito menos em Oeiras.
Neste caso, a figura do Marquês de Pombal, talvez a mais contorversa de toda a nossa história, é literalmente esquecido tanto pela memória colectiva, como pela dos académicos. Talvez o facto se fique a dever à quase inexistência de documentação bibliográfica da época, relativa ao personagem. Diz-se até que o Marquez proibia os cronistas da época, de escrever e publicar, fosse o que fosse a seu respeito.
;))

Massano Cardoso disse...

Bartolomeu

Em Pombal há um pequeno museu sobre o Marquês, bem cuidado, rico e aprazível de se ver. Papéis é coisa que não falta, às tantas, não permitem saber quem era o indivíduo, mas isso não sei dizer. Quando passar por lá, caso não o conheça, vai ver que não se arrepende.
Pronto! Hoje, as orelhas do Sebastião José devem estar a arder ;)

Bartolomeu disse...

Caro Professor,
Agradeço-lhe imenso a preciosa informação, logo que tenha oportunidade visitarei o museu.
Até porque me interesso muitíssimo por tudo o que diz respeito à figura de Sebastião José de Carvalho e Mello.
;)