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sábado, 5 de maio de 2012

Um acto subversivo

O Pingo Doce cometeu um acto profundamente subversivo. Só isso explica a comoção nacional perante um saldo de produtos de supermercado. Pensou que os “pobres" tinham autonomia, podiam ser desafiados a gerir o seu pouco dinheiro ou, heresia total, comprar a crédito!!, o que consideram necessário para encher a sua despensa. Erro absoluto. Em Portugal, os “pobres” não estão autorizados a pensar, ou a decidir, são uma massa indefinida que deve ser tutelada e protegida pelo Estado e amotinada pelas forças de esquerda. Cair na condição de “pobre”, significa, na ordem estabelecida, que se fica fora do mercado e se perde a identidade. Fica-se fora do mercado de trabalho e deve-se ir para as filas da Segurança Social, para ver se os “ajudam”. Fica-se fora do mercado de consumo e deve-se ir para a sopa dos pobres, ou para a porta das instituições de solidariedade para receber, com pré inscrição, os cabazes de assistência. Os “pobres” são propriedade da esquerda, que amorosamente organiza manifestações de protesto, exibe as desgraças que lhe cabe a ela “denunciar”, e espera que as televisões acorram a entrevistar os infelizes que, é claro, deverão exibir condignamente as suas aflições e não demonstrar qualquer apetência para deixar de ser “pobres”. Os “pobres” são disputados pela direita, liberal ou menos liberal que, em qualquer caso, se reserva o exclusivo de os amparar com sensatas decisões que os orientem na vida, depois de devidamente catalogados. É absolutamente impensável, no imaginário nacional, que os “pobres”, os “novos pobres” ou mesmo os que já são pobres mas ainda não o sabiam, se lembrem de pegar nas suas pernas, nas suas economias, na sua família, e acorram a um super saldo de produtos alimentares ou outros que se habituaram a ver nos supermercados destinados ao segmento popular, tal como faziam livremente quando não eram “pobres”. Ai, ai, que atrevimento, que indignidade, que humilhação, se o super saldo fosse de plasmas, de telemóveis ou de roupas baratas, ainda se admitia. Comentar-se-ia, com um abano paternalista da cabeça, mas ainda assim tolerante, que “esta gente” ainda não percebeu que se acabou o tempo do consumismo, querem plasmas mas não têm o que comer, cambada de inconscientes. Ah, mas se o saldo é de supermercado de produtos correntes, e se os “pobres” acorrem abrindo os seus porta moedas e disputando o seu quinhão de boas compras, isso é uma indignidade, uma falta de respeito do abominável empresário, uma subversão de tudo o que está tão clarinho na cabeça de esquerdas bem pensantes ou de direitas populistas. A ordem social fica de pernas para o ar, afinal os ”pobres” movem-se, decidem, sem ser às ordens de quem os tem que proteger ou fazer revoltar, afinal “eles” atrevem-se a ir comprar o que está à sua disposição em tantos terminais de caridade, sem dar o lucro a esses gulosos dos empresários. Que diabo, assim, não se vai a lado nenhum, o Pingo Doce propôs-lhes um negócio e eles esqueceram a tutela e acorreram em massa, prontos a cair na ratoeira de não terem antes pedido a devida autorização ao administrador de falências. Mas, como os “pobres” estão privados da sua autonomia na cabeça de quem tão bem se ocupa deles, levanta-se a vozearia indignada contra o empresário que ousou tal subversão. O “crime” é exposto e condenado, a esquerda deduz prontamente que tais “saldos” escondem, afinal, “lucros fabulosos” antes escamoteados e o Estado, desorientado e com medo de ser acusado de deixar os seus indefesos protegidos à mercê de predadores, ergue a sua mão punitiva e lança-lhe a ASAE que prontamente descobriu “indício de ilegalidade” e já avança com multas, para acalmar a desordem. Infelizmente, descobre-se que as multas são leves, ai que país este, nunca nos acautelamos o suficiente contra quem tem iniciativas, um empresário com iniciativas é um perigo, sobretudo se resolve desafiar o mercado rotulado de “pobres”, um atrevimento e uma falta de respeito evidentes. Multe-se, puna-se, de preferência boicote-se, o que é preciso é acabar quanto antes com este desvario e fazê-los aprender, de uma vez por todas, a quem pertencem “os pobres”.
Fica assim esta lição. Quem foi ao Pingo Doce fica sabendo que foi objecto duma intolerável manipulação de um capitalista pouco escrupuloso, que terá o devido castigo. O Estado pede desculpa por não ter contado com as investidas do mercado contra os indefesos e a esquerda promete acompanhá-los sempre que eles saiam de casa, para não caírem em armadilhas capitalistas. Remetam-se, já, à vossa condição de protegidos, de orientados, de seleccionados para aquilo que vos quiserem dar. Isso de irem às compras, meus meninos, era dantes. Agora, esperem que vos levem a casa, por caridade. Habituem-se, e os empresários também. E tudo voltará à normalidade, depois deste grande susto.

11 comentários:

Zuricher disse...

Acto subversivo? Se não tivesse sido feito no 1º de Maio não teria havido problema nenhum. Agora ter sido no 1º de Maio e tirado a cobertura jornalistica aos chefes de banda cativos dessa data é que não pode ser.

Bartolomeu disse...

Gostei bastante deste post, cara Drª. Suzana, fez-me recordar Karl Marx e o seu idealismo utópico de pretender que o preço justo de cada mercadoria, deveria corresponder à quantidade de trabalho humano, empregue para a produzir.
Mas, soube Karl Marx e sabemos todos nós, que na vida real, cada vez mais, este desiderato, deixou de ser uma utopia para passar a ser um tremendo e inadmissível disparate, sobretudo, na optica de quem lucra com os variadíssimos processos porque as mercadorias "obrigatóriamente" passam, desde a origem, até ao consumidor.
Hoje, ao almoço, dizia-me a minha mulher: sabes? Já estou farta de ouvir tanto protesto e tanta demagogia à volta deste assunto. Esta gente toda devia era preocupar-se em encontrar soluções para o desemprego, para que todos tivessem possibilidade de viver com dignidade.
- Sou da mesma opinião, respondi-lhe. Mas sabes uma coisa?! Estou admirado por ainda não ter vindo ninguém defender os interesses dos outros grandes supermercados.
- Que interesses? perguntou-me ela.
- Então... nota uma coisa; de certeza que aquela multidão que correu aos saldos, não são todos clientes exclusivamente do PD, muitos deles, provavelmente, abastecem-se em outros hiper-mercados. Ora bem, como todas aquelas pessoas compraram grande quantidade de produtos, com certeza, tão cedo não precisarão de se voltar a abastecer. Portanto, o mais provável, é que nos tempos mais próximos, quer o PD como os restantes hiper, vão estar às moscas...

Suzana Toscano disse...

Caro zuricher, até gostava que tivesse sido só por isso, mostraria que a cobertura mediática que é dada ao 1º de maio cede a qualquer outro acontecimento digno de nota, e essa é uma dura provação para os organizadores. Mas na realidade acho que foi mais grave, foi uma mentalidade nacional inaceitável, que remete para "pobres" e, logo, indefesos e incapazes de governar a sua vida, muitos dos que sempre souberam dirigir as suas vidas, tiveram emprego, casa, empresas,tinham uma vida organizada e agora ficaram sem nada, pela força das circunstâncias, e não por dependerem de quem os oriente e proteja. Um erro de avaliação imperdoável, sobretudo da parter de tantos comentadores, políticos e decisores que todos os dias aparecem a perorar sobre a situação do País.
Caro bartolomeu, tem a sua mulher toda a razão, é a voz da habitual sensatez feminina :) Não é estranho que quem se tenha queixado fossem políticos e cidadõas que "não foram ao Pingo Doce"? Não foi a concorrência, que era quem devia gritar, foi o Estado, que lhes mandou logo a ASAE e desatou a "investigar", foram os cidadãos que não precisam dos descontos "humilhantes", foi uma certa esquerda que adora a desgraça alheia. Mais vala que se preocupassem com as soluções, como diz a sua mulher, para que as pessoas possam recuperar a sua vida em condições.

Tonibler disse...

Cara Suzana,

Estou chocado com este post tão liberal que roça o "tonibleriano". Está a sugerir que as pessoas sabem pensar por si? Mas isso é demasiado revolucionário! Tem que se encontrar um filósofo qualquer do sec. XIX que tem resposta homeopática para isso...

Suzana Toscano disse...

"les bons esprits se rencontrent", caro Tonibler, algum dia havia de ser :) Liberal não sei se é, mas que é a pensar na liberdade das pessoas, acho que é capaz de ser...

Rui Fonseca disse...

A campanha publicitária do Pingo Doce tem tantas leituras quantos os leitores. E a controvérsia suscitada só ajuda a acampanha.

Há um aspecto, contudo, que a mim me parece incontroverso: o Pingo Doce declarou que não fez "dumping", logo não vendeu abaixo do preço de custo váriável.

Se não vendeu abaixo do preço de custo variável, e assumindo que os seus custos fixos são relativamente muito reduzidos(essa é uma das vantagens dos grandes espaços, a outra é a capacidade de negociação com uma multiplicidade de fornecedores) o Pingo Doce arrecada margens que só podem justificar-se se a concorrência não funciona.

Mas se a concorrência não funciona por que razão gastam milhões numa campanha publicitária?

Há dias, Lobo Xavier, que reclamou saber do que fala, dizia no programa televisivo onde é comentador que não precisam os grandes grupos de distribuição de fazer guerra de preços porque todos têm aumentado as vendas ... mesmo em tempos de crise, e que o Pingo Doce, ao fazer esta campanha, terá querido "dar um mimo" aos seus clientes habituais...

Se não houve dumping (os concorrentes não reclamaram), há acordos de preços? Não há. Se houvesse, não haveria campanhas publicitárias desta ordem de grandeza.

Então o que há?

Desequilíbrio de forças entre (muitos) fornecedores e (poucos)distribuidores.

Dir-se-á: Mas isso é bom para o consumidor final. Aparentemente, assim é. Acontece que o "dumping" que espreme os fornecedores nacionais é feito por fornecedores externos. O mercado português é, para muitos produtores estrangeiros um mercado marginal. Porque é um mercado onde colocam as quantidades que os mercados mais próximos não absorvem.

Ainda, e mais uma vez, dirá um liberal: Mas isso é excelente, porque com isso ganha o cliente.

Parece.

Inundado por fornecimentos externos, podemos continuar a ter mercado sem ter produções?

Ajudem-se a sair desta, senhoras e senhores liberais.

André Miguel disse...

Grande posta, na mouche.
Em Portugal, seja à esquerda ou à direita, todos cometem o erro de julgar o povo como acéfalo, necessitando assim da sua superior orientação. Foi preciso uma simples campanha de um supermercado para mostrar como têm andado todos a dormir.

Ilustre Mandatário do Réu disse...

A troika sempre cá esteve a controlar o burgo, a de fora é só para inglês ver... Inglês ver seria no tempo em que o reino era colónia inglesa. Agora é mais para "burocrata europeu ver" ou "maneta de Bruxelas ver".

Quanto à campanha do pingo doce ela é muito simples. Trata-se de pagar mais por um bem do que por outro. Neste caso compra-se muito mais barato, mas o custo indirecto de confusão e tempo é elevado. Não é muito diferente entre o lidl e o supermercado do corte-inglês.

Quem não deve estar contente é o mercado dos criativos da publicidade... ter-se-á algum subversivo mudado para o pingo doce?

Rui Fonseca disse...

Volto, porque já depois de ter colocado um comentário, quis op acaso ter conseguido uma fotografia que coloquei aqui

http://aliastu.blogspot.com/2012/05/o-pingo-suico.html

A Migros, maior cadeia de hipermercados suiça, sustenta a sua campanha publicitária num slogan dirigido ao sentimento comum dos consumidores suíços: ajuda-te, ajudando o teu vizinho.

Ouvimos tantas vezes que não podemos continuar a "consumir mais do que produzimos", pelo menos quantas nos espantamos com a preponderância de produtos importados à venda nos centros comerciais e hipermercados.

O consumidor, argumentam os radicais liberais, não é acéfalo.
Pois não, mas é frequentemente intrujado.

As crises com que nos confrontamos (a estruturalmente nossa, e a conjunturalmente importada) decorrem em grande medida da confusão entre os interesses imediatos (com que se intruja o consumidor) e os mediatos com que se suporta o crescimento sustentado das sociedades.

É pelo menos o que pensam os suíços, que são liberais quanto baste, e não se têm dado mal com isso.

Suzana Toscano disse...

Caro Rui Fonseca, todas essas dúvidas que levanta deveriam ser normalmente seguidas pelas autoridades competentes e não ficar "escandalizados" apenas quando há uma campanha como esta. Ou só quando tocam os sinos é que acordam? Está visto, se não se der nas vistas pode-se continuar a fazer a vidinha normal e ninguém se incomoda mas, se se tem uma ideia fora da risquinha, aqui d'el rei que há aqui há gato! O País no seu melhor...
Caro André Miguel, é isso mesmo, um grande risco, mostrar que se tem cérebro!
Caro Mandatário, tem razão, não é diferente das campanhas do Lidl ou do Corte Inglès, mas não foram no dia 1 de Maio, e aí os interesses confluem. Realmente os publicitários devem ter ficado nervosos :)só que estas iniciativas não se podem fazer todos os dias.

Pinho Cardão disse...

Cara Suzana:
Só lhe digo que gostava de ter sido eu a escrever o post!