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segunda-feira, 6 de agosto de 2012

É fundamental que a Europa acorde!...

1. Este aviso de despertar foi lançado este fim-de-semana por um político nacional que não dorme, ao contrário do resto da Europa que parece ter entrado num sono profundo desde o início do corrente mês...
2. Este mesmo político acrescentou “...e coloque o emprego e o crescimento no topo das prioridades”...com este aditamento quase toda a gente perceberá quem é o político nacional autor deste aviso de despertar...
3. Creio que ninguém de boa fé colocará em causa a prioridade do crescimento e do emprego como objectivos finais de qualquer política económica...mas a questão que hoje se nos coloca não é a dos objectivos finais da política mas a da criação das condições para os atingir.
4. É ilusório pensar que uma economia como a portuguesa, com os formidáveis desequilíbrios que acumulou até ao início de 2011, atingindo um nível de endividamento de tal modo elevado que os credores resolveram suspender-lhe o crédito, pudesse agora proclamar que o crescimento e o emprego são o topo das suas prioridades, sem primeiro tratar de corrigir, de forma sustentada, os desequilíbrios que a conduziram à situação de sufoco financeiro em 2011...
5. É ilusório pensar que podemos esquecer os compromissos assumidos no PAEF, deixar de novo aumentar o défice público, voltar a agravar do endividamento e os desequilíbrios da economia ainda mal corrigidos, com o fantástico argumento de que é preciso recolocar no topo da AGENDA o crescimento e o emprego...
6. O resultado de uma hipotética mudança de postura política, tal como advogada por este político sem sono, seria simplesmente catastrófico: perderíamos em poucos dias (ou horas?) o limitado crédito que conseguimos recuperar durante este primeiro ano em que nos esforçamos por cumprir o PAEF, voltaríamos a estender a mão aos credores internacionais, a dose de austeridade que seríamos obrigados a cumprir seria seriamente agravada em vez de abrandar...
7. ...e o crescimento e emprego cairiam estrondosamente do TOPO para a BASE das prioridades, ficando entregues a uma apagada e vil tristeza com o desaparecimento da luz ao fundo do túnel que agora, muito tenuemente, começamos a vislumbrar...
8. Este convite à Europa para que acorde e coloque o crescimento e o emprego no TOP das prioridades é uma retórica fácil e agradável, sobretudo para quem aprecie ouvir música, mas contém em si mesmo a insanável contradição de pressupor que se pode garantir o crescimento económico e o emprego sem meios para o fazer...
9. Trata-se, na verdade, de um convite (embora envergonhado, não abertamente assumido por razões que se percebem) para o regresso às políticas de descontrolo financeiro que nos conduziram à asfixia financeira e à perda do crédito...não haverá maneira de aprendermos?

9 comentários:

Joao Jardine disse...

Caro Tavares Moreira

Tenho alguma dificuldade em compreender o seu post. Isto porque o seu raciocínio supõe que ainda tenhamos o grau de soberania que nos trouxe ao estado em que se encontram as nossas finanças. O que, manifestamente, não é o nosso caso.
Sobre as prioridades, não tenho qualquer dúvida que, crescimento e emprego esta no topo das prioridades de todos os governos europeus.
O "problema" é que só terá acesso ao crescimento quem tiver condições para o financiar, se não na totalidade, pelo menos em grande medida (ou esse tal de eurobonds não é, precisamente, isso?).
O dirigente em questão e uma parte considerável dos nossos compatriotas, locais e europeus, encara o dinheiro disponível como se tratasse de uma senha de racionamento, descurando completamente, o modo como se vai conseguir o financiamento para ter a "senha". Por isso, falam tanto em "sacrifícios" e muito pouco em "esforço".
O perigo, aqui e na eurolândia, é que esse tipo de discurso cola e leva muita gente atrás. Por isso, mais do que demagógico, o discurso é irresponsável.
Cumprimentos
joão

Tavares Moreira disse...

Caro João Jardine,

Estamos de acrodo que este discurso da prioridade ao "crescimento e emprego", no momento actual, sem pesar a inexistência de recursos necessários, é mais irresponsável do que leviano.
Mas quando diz que o meu raciocínio "supõe que ainda tenhamos o grau de soberania que nos troxe ao estado em que se encontram as nossas finanças", aí é que já não posso concordar.
Então se eu digo que a hipotética aplicação desta doutrina delirante teria como resultado a perda (em dias ou horas) do pouco crédito que temos, aliás recuperado com muito custo, bem como a subsequente imposição de um PAEF/2 cujo nível de austeridade faria do actual um oásis - acha que eu estou a ser optimista quanto a tal hipótese ou a admitir que temos ainda soberania para "dar e vender"?

Joao Jardine disse...

Caro Tavares Moreira

Pedindo desculpa, caso tenha sido mal entendido, nunca me passou pela cabeça que perspectivasse que, ainda, temos soberania que chegue, para fazer pouco mais do que reformular a nossa economia e o estado; de modo a alcançarmos o nível de sustentabilidade que nos permita ser, de novo autónomos.
O líder em questão ainda não percebeu que, não voltaremos ao antigo estado de coisas; além disso, comporta-se como qualquer líder de província, quando adopta o discurso que adopta.
No contexto actual e para estarmos em consonância com os tempos futuros, seria essencial que o líder em questão, promovesse o regresso o mais depressa possível aos "mercados", só assim, poderemos ter uma palavra a dizer na futura redistribuição de poder na eurolândia.
Embarcar em discursos apelativos mas, desfasados da nossa realidade ( o farol utilizado não pode ser usado como exemplo porque a demografia é favorável), não apenas atrasa os resultados inevitáveis, como nos coloca, enquanto país, numa situação, estrategicamente, muito complicada para o futuro próximo.
Nesse sentido, o discurso é, irresponsável e demodé.
Cumprimentos
joão

Joao Jardine disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Tavares Moreira disse...

Caro João Jardine,

Em 1º lugar não tem que pedir qq desculpas, estamos num terreno dialético franco e tranquilo, em que não há culpados nem desculpados se me permite...
Quanto à paupérrima retórica do político em questão (se é realmente líder já tenho algumas dúvidas, embora nominalmente o seja), eu até admito que ele próprio não acredite na bondade do que diz, o grande problema é que ele fala para uma plateia que viveu muitos anos na irresposabilidade e por isso acredita que o caminho do País é o da auto-destruição...
E talvez resida aí a explicação para o facto de o homem não ter sono: quando se deita vai de tal modo arrependido dos discursos que proferiu durante o dia que não consegue dormir...

Joao Jardine disse...

Caro Tavares Moreira

Conta-se que, no dia em que Major foi indigitado para PM, um dos primeiros comentários foi o seguinte: vou deitar-me cedo e dormir, porque, a partir de amanhã, não sei quando voltarei a dormir descansado.
Só um PM ou um PR não tem o sono descansado enquanto em funções. Por isso, se, o senhor em questão não dorme, é porque tem insónias ou, não tem capacidade física para ser PM.
Basicamente, o partido do senhor, resolveu usar a estratégia de, ganhar votos prometendo o regresso ao passado; é verdade que, até hoje, o nosso eleitorado é como o papel, aguenta quase tudo mas, há sempre uma primeira vez.
O problema, é que, para além da bonomia meridional do nosso eleitorado, como não temos dinheiro e precisamos de pedir emprestado, teremos de ser como a mulher de César: além de parecer temos de ser; caso contrário, não nos emprestam nem pagando.....o que nos remete para o qualificativo sobre a conduta do senhor: irresponsável.
Cumprimentos
joão

Tavares Moreira disse...

Ok, caro João Jardine, quanto a esse ponto do pauperrismo/ irresponsabilidade da oratória do nosso político sem sono, que quer que a Europa acorde, creio que poderemos dá-lo por esclarecido.
Resta-nos saber o que fazer para salvar a Pátria...
Escolher o oposto do que o dito político propugna será talvez uma solução segura e tb simples de enunciar...

Suzana Toscano disse...

Do ponto de vista político, esse discurso resulta do facto de não ser nada conveniente falar do passado que nos conduziu até aqui, ao desemprego, às falências, às dívidas. Por isso, fala-se do presente como se ele tivesse surgido de repente, sem razão nem evolução, alimentando o velho cliché dos "bons" e dos "maus", os que se preocupam com os mais desvalidos e os que só olham os "mercados", pode parecer absurdo do ponto de vista económico mas faz todo o sentido do ponto de vista político e do que as pessoas querem ouvir.A compatibilidade disto ás vezes é difícil de perceber, mas também não se percebe como é que se vota em quem ilude a realidade e é o que acontece em geral, aqui e em todo o lado.

Tavares Moreira disse...

Creio que essa será a explicação, cara Suzana, mas a repetição deste comportamento leva, em iterações sucessivas, ao esgotamento do sistema político.
Não é concebível que os políticos responsáveis (tenho o actual SG/PS na conta de uma pessoa responsável embora extrememente condiconada na sua intervençao pública) assumam, em público, discursos que a realidade não tem espaço para acolher, só porque isso é agradável ao ouvido das audiências...
Este comportamento dual dos políticos (que tb afectou os do actual governo quando militevam na oposição, talvez em menor escala mas afectou) acaba por gerar situações de frustação quando assumem responsabilidade governativa, situações que se vão repetindo até à exaustão...