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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Zona Euro: não há soluções mágicas ou "quick-fixes"...

1. Anda para aí muito “opinion-maker” - boas almas de uma forma geral - desde há um ror de tempo reclamando intervenções definitivas e convincentes dos lideres europeus e/ou do BCE, intervenções que de uma vez por todas resolvam a crise larvar que se instalou na zona Euro...
2. Em vagas sucessivas desde meados de 2010, a Grécia primeiro e depois Portugal, a Irlanda e agora a Espanha e a Itália foram afectados por graves crises de confiança nas suas finanças públicas e na solvabilidade dos seus sistemas financeiros, e só a intervenção do BCE – no apoio aos sistemas financeiros – e a aplicação de programas de resgate negociados com a chamada Troika no caso das finanças públicas, permitiram que essa crise não se transformasse em tragédia...
3. O episódio mais recente das falsas expectativas criadas em torno de uma possível intervenção do BCE para resolver a crise das dívidas públicas, a que me referi em Post ontem editado, tem a vantagem de mostrar, porventura em forma definitiva, que ao contrário do que as boas almas atrás mencionadas piedosamente reclamam, não há soluções mágicas ou rápidas para a crise do Euro...
4. O que o BCE ontem veio dizer, de forma clara, é que sem programas de resgate acordados com os Fundos criados para esse efeito – o EFSF e o ESM – não haverá possibilidade de intervenção nos mercados para aliviar as pressões sobre as dívidas públicas dos países a braços com dificuldades de financiamento.
5. Um episódio ocorrido em Espanha na semana passada, vem mostrar que qualquer alívio da pressão para que os países com maiores desequilíbrios os corrijam, pode ter efeitos contraproducentes.
6. O governo de Madrid convocou uma reunião extraordinária com responsáveis das Autonomias destinada a apresentar medidas com o objectivo de fixar limites mais apertados para a respectiva despesa pública. Acontece que a Catalunha faltou a essa reunião e os responsáveis da Andaluzia (que enfrenta graves dificuldades financeiras) abandonaram a reunião em protesto contra as medidas...ambos alegando que o ano a mais que a Espanha conseguiu obter da União Europeia para endireitar as suas finanças públicas não justificava o aperto pretendido por Madrid...
7. Não é preciso ser mágico para perceber que uma qualquer intervenção do BCE ou dos líderes europeus para facilitar o acesso ao financiamento dos países em dificuldades, sem contrapartidas arduamente negociadas, teria como consequência a paragem dos esforços de ajustamento que, penosamente nalguns casos (é o caso de Portugal) têm vindo a ser prosseguidos...
8. ... pois a máquina trituradora da despesa pública ainda conserva energias suficientes para, uma vez libertada das “camisas de força” dos programas de ajustamento, voltar a absorver recursos com a voracidade que infelizmente lhe conhecemos...
9. O processo para a normalização das condições de financiamento dos países mais afectados pela crise vai continuar a ser pois árduo, demorado, com avanços e recuos, em permanente tensão com os mercados...
10. ...mercados que, curiosamente, depois de uma primeira reacção negativa na tarde de ontem, parecem ter hoje reagido muito positivamente à posição cautelosa do BCE, entendendo que não há soluções mágicas para os problemas da zona Euro - que há muito trabalho a fazer mas que esse trabalho deve e pode ser feito...e nós, algum dia entenderemos?

8 comentários:

Carlos Sério disse...

Caro Tavares Moreira,
Afirma o meu ilustre economista - “não há soluções mágicas ou rápidas para a crise do Euro”. Em nada me custa concordar consigo. Na verdade, não há soluções nem rápidas nem lentas, digo eu, a manterem-se as actuais políticas neoliberais porque se regem os líderes europeus.
Foram estas políticas que nos arrastaram para a crise e não serão aqueles que nos conduziram a este sufoco que nos irão tirar dele.
São seguramente, uma vez mais concordo consigo, almas simples e boas, aquelas que apelam por “uma intervenção definitiva e convincente dos lideres europeus e/ou do BCE”.
É de facto de grande ingenuidade pedir ao BCE (um lobby da banca alemã), que altere a sua política quando tal política é ditada pela banca e o Estado alemão, empenhados como se encontram, em continuar a retirar vantagens económicas e financeiras da actual crise.
cumprimentos

Tonibler disse...

Carlos Sérgio,

tem algum facto concreto que sustente as afirmações que faz ou são meras fezadas?

Pinho Cardão disse...

Por mero acaso, até foram as virtuosas políticas socialistas de aumento da virtuosíssima despesa pública de governos muito virtuosamente socialistas que levaram Grécia, Espanha e Portugal ao actual estado de coisas. Mas que conta isso perante as pérfidas políticas neoliberais inspiradas pelos pérfidos banqueiros que levaram a sua perfídia ao ponto de perdoarem 75% da dívida à Grécia?
E de, de uma forma ou outra, ainda fornecerem os fundos necessários para pagar funcionalismo, serviços de saúde, educação?

Carlos Sério disse...

As condições colocadas pela Alemanha a quando da constituição do euro foram que o euro fosse governado por uma instituição, o BCE, em que o Bundesbank (banco central alemão) tivesse a maior influência, em realidade, em que o BCE estivesse sob o seu controlo. Uma outra condição que a Alemanha colocou foi a aprovação de um Pacto de Estabilidade, que submetesse todos os países da eurozona a uma austeridade fiscal, que deveria respeitar-se mesmo em condições de recessão como agora. Estas condições foram aceites pelos países aliados que haviam ganho a guerra, atemorizados pela reunificação das duas Alemanhas, receosos de uma nova Alemanha unida frente aos países aliados (como a França e a Inglaterra) que sofreram, duas vezes num século, as ânsias expansionistas daquele país.
Para entender la aceitação destas duas condições (que tiveram um impacto negativo no crescimento económico de toda a Eurozona) por parte dos países aliados, há que compreender o domínio hegemónico do neoliberalismo nascido com Reagan e Thatcher. Um promotor de tal ideologia foi o capital financeiro alemão, que estabeleceu o controlo da inflação com o objectivo central do estabelecimento do sistema financeiro europeu, centrado no BCE, visando diminuir o papel dos Estados, favorecer a banca privada e o mundo empresarial exportador.

Carlos Sério disse...

Caro Pinho Cardão,
1-“E de, de uma forma ou outra, ainda fornecerem os fundos necessários para pagar funcionalismo, serviços de saúde, educação?” Acrescento eu, fornecem fundos necessários para pagar aos Bancos, às Parcerias Público Privadas, Fundações, Empresas municipais, Institutos, Autoridades, Agencias e outros órgãos parasitários do Estado. E, também, a uma presidência da Republica que gasta o dobro da Casa Real espanhola.
2-Meter a Espanha no mesmo saco de Portugal e Grécia é deveras surpreendente.
3-“perdoarem 75% da dívida à Grécia?”
De volta ao mesmo argumento falacioso -. Recordemos que por una obrigação de um valor inicial de 100 euros, os credores receberam em troco um novo título com um valor facial de 46,5 euros. Contudo, não perdem com este pequeno jogo já que os títulos a trocar se vendiam no mercado secundário a um valor muito menor, entre 15 e 30 euros, enquanto com esta permuta obtêm títulos muito mais seguros.
Por outro lado, substituem-se por credores públicos internacionais (BCE, Estados da zona euro, FMI) que exercerão uma pressão constante sobre as autoridades gregas.
E para completar o quadro, enquanto em caso de litígio, 85 % dos antigos títulos dependiam da legislação grega, os novos títulos dependerão totalmente da justiça de Londres. O objectivo dos credores é limitar a possibilidade de que a Grécia decrete un default ou um repúdio da dívida e neste jogo de forças continuam, como não podia deixar de ser, a ficar a ganhar.
Cumprimentos

Pinho Cardão disse...

Caro Carlos Serio: Perante tal teoria da conspiracao, fiquei sem qualquer argumento. Mas também não creio que o meu amigo acredite nessa teoria. Nota: Perdoem -me o erro da conspiracao , mas o equipamento em que escrevo e americano e imperialista e ideologicamente neoliberal, não respeitando línguas alheias.

Tavares Moreira disse...

Caro Carlos Sério,

A afirmação que faz quanto ao Pacto de Estabilidade como condição para a criação do Euro é verdadeira. Provou-se, todavia, que a criatividade orçamental - a famosa técnica do tapete - foi capaz de contornar o Pacto de Estabilidade. Isso viu-se logo em 2002 quando se descobriu que o último défice orçamental da excelente gestão guterrista (2001) não tinha sido 1,1% do PIB como rezavam as crónicas oficiais, mas sim 4,4%.
Mas a afirmação que faz quanto ao controlo do BCE pelo Bundesbank é falsa. Dizer que o BCE, pelo facto de cumprir o que está disposto nos seus estatutos é dominado pela Alemanha, é uma esmerada infantilidade.
A sua linha sensitiva anti-liberal - sem tampouco se dar ao trabalho de explicar o que isso significa - acaba por conduzi-lo a estes caminhos sem retorno...

Carlos Sério disse...

Caro Tavares Moreira,
Não basta afirmar que "Mas a afirmação que faz quanto ao controlo do BCE pelo Bundesbank é falsa".
É preciso prová-lo meu caro, coisa que não faz. Não basta dizer que é falso é preciso apresentar a justificação da sua categórica "sentença".