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domingo, 5 de agosto de 2012

Prurido

Todas as pessoas vestiam-se de forma diferente, mas havia uma que se destacava de todas, era o único homem que andava de saias e de negro. Não me foi difícil compreender que as mulheres vestiam saias e os homens calças, numa altura em que elas nem se atreviam a usar outra coisa. Na mesma altura comecei a ser impregnado da ideia de Deus, ou melhor, a ter que ouvir por tudo e por nada essa palavra que, com o andar do curto tempo de existência, passei a associar ao homem de saias, ao grande edifício com duas torres gigantes, a um ritual semanal, a figuras e imagens sofredoras e genericamente tristes, sofredoras e lúgubres distribuídas pelos altares e paredes. A foto memória mais antiga é a do padre António, tinha respeito pela seu ascendente e primazia social, mas o que mais me cativava era ver as suas orelhas carcomidas pelas frieiras, como se ratos as tivessem roído num acesso de fome. Eu também sofria de frieiras e a comichão que me provocavam era de tal intensidade que tinha que as coçar. Nas as coces! Gritavam-me. Senão ficam como as orelhas do padre António. Curioso, sempre que o via passar na minha rua, corria para junto dele e seguia-o durante algum tempo, depois de lhe ter dado a salvação, olhando para cima para ver como eram. Mas ele era alto e eu muito baixo. Não conseguia ver distintamente as ditas. Optei, um dia, por ficar à janela, à espera de o ver passar. Foi assim que vi duas orelhas retalhadas, muito vermelhas, abanando-se ao sabor do seu passo pesado. Assustei-me. Que coisa mais feia, pensei. Não quero ficar como ele. Registei como sendo a primeira lição de um padre. Se tiveres comichão nas orelhas devido às frieiras, então, nas as coces. O pior é que não são só as frieiras a provocar comichão. Outro padre, o padre Rodelas, provocou-me um dia comichão. Gostava dele, calmo, bonacheirão, uma boa alma que quis convencer-me, nas primeiras aulas de religião, aquando da criação do mundo por Deus, de que o primeiro homem, Adão, e a primeira mulher, Eva, eram o pai e a mãe de todos nós. Uma história que não me convenceu e que esteve na origem da minha primeira discussão com um adulto, e ainda por cima padre. Não sei qual dos dois foi o mais atrevido, se ele ou eu. Eu deveria ter uns seis anos, mas senti uma enorme comichão que nunca mais deixei de coçar e, ao que saiba, nunca me provocou lesões idênticas às orelhas do padre António. A par destes dois ainda retenho mais lembranças de outros, do padre Franklin, homem de voz altiva, demasiado distante para os miúdos, a representar uma velha escola que começava a entrar em desuso. Tirando as suas aulas de Religião e Moral, penosas, hipercríticas, com um permanente sentido de provocar-nos sensações de culpa por tudo que fazíamos ou deixávamos de fazer, resta-me o consolo de ter sido um medíocre professor de geografia, em que metia as mãos pelos pés nos cálculos dos fusos horários. Sentia um agradável alívio sempre que conseguia distanciar-me dele. Um prurido que só aliviava dessa forma, até que um dia me apercebi de que já não me reconhecia, nessa altura deixei de sentir a necessidade de me coçar. Um quarto padre, o padre Fausto, merece alguma atenção. Bem parecido, sorridente, mundano quanto baste, com maneiras um tanto ou quanto adamadas, foi meu professor de história e de português. Um padre da era moderna, em nítido contraste com os outros. Menos moralista, mais realista, sabia ensinar e cativava-nos. Quando as coisas se complicavam, disparava de imediato, usando para o efeito um sorriso muito especial, a querer ser assustador, sem o conseguir, "isto vai dar um estouro que nem uma castanha, ai vai, vai". Ainda me cruzei com outros, em circunstâncias diferentes, não suscetíveis de me provocarem grandes transtornos ou produzirem muita comichão, mas mesmo assim ainda deixaram algumas marcas. Dos quatros primeiros limitei-me a descrever um pequeno apontamento, entre muitos que ainda consigo reter. A vida de cada um faz-se à custa da vida de outros, provoquem ou não algum tipo de prurido, o qual ajuda a explicar muito do que somos. Digo isto sem qualquer espécie de prurido...

3 comentários:

Tavares Moreira disse...

Caro Professor Massano,

Seria extremente interessante se o meu Amigo pudesse (um dia) apresentar tb uma retrospectiva da sua experiência de conhecimento pessoal - tal como faz aqui, com imensa graça, em relação aos Padres com quem se cruzou ao longo da vida- em relação aos políticos que consigo se cruzaram...

Suzana Toscano disse...

Se calhar não deixaram impressões tão fortes :) mas muitos devem ter previsto o mesmo que o último destes padres, a quererem ser assustadores sem o conseguirem...

Massano Cardoso disse...

Agora que me chamaram a atenção para esse facto, talvez possa dizer algumas coisas, curtos apontamentos, não tão marcantes como os dos tempos de criança, mas mesmo assim... interessantes.