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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

PRODUTIV IDADE – II

Uma das questões mais interessantes no debate em torno da produtividade e do crescimento, numa perspectiva macroeconómica, resume-se na questão: porque é que a mesma combinação de capital e de trabalho tende a gerar produtividades diferenciadas entre países diferentes? Uma parte da resposta está na forma como organizamos o capital e o trabalho. Ou seja, diferentes formas de organização empresarial podem gerar produtos diferenciados, partindo da mesma combinatória de factores de produção. Entretanto, um outro factor tende a ser valorizado: educação. Se nos limitarmos a considerar como trabalho apenas quantidades e preços, a componente dita “residual” da produtividade tende a ser negligenciada. Ora o que a educação confere ao trabalho é qualidade. Só que a mais recente investigação concluiu que não basta ter mais educação, os maiores ganhos de produtividade obtêm-se com melhor educação. É por isso que ao ouvir distintos políticos e economistas a falar do problemas da produtividade, as soluções que apontam são sempre em torno da baixa das quantidades de trabalho e da redução dos salários. O que a evidência nos diz é que por aí o tacho já está rapado. Ou passamos a ter processos produtivos melhor organizados e capital humano mais qualificado ou então qualquer ganho de produtividade em Portugal será efémero e ilusório. Uma leitura interessante: artigo.

11 comentários:

Bartolomeu disse...

Interessante análise, caro Professor David Justino.
Das respostas que enumera, não descurando a questão da necessidade absoluta de um programa educacional ajustado e bem concebido, sou de opinião que as diferentes formas de organização empresarial, ditam o sucesso da produtividade.
Estou a lembrar-me do Marquês de Pombal que, como todos sabemos, durante o período em que foi ministro de D. José, desenvolveu o comércio,a indústria e agricultura e criou diversas escolas profissionais. Foi sem dúvida um homem que olhou para o país com olhos de projectista. Mas, depois de a rainha D. Maria I - A Pia e depois, A Louca, ter decretado o seu exílio, Sebastião José com 75 anos de idade, doente e velho, recolheu-se à sua quinta de Santorum em Pombal. Encontrou uma extensa propriedade descuidada, a casa senhorial em mau estado e as propriedades agrículas abandonadas e improdutivas, o povo das redondezas a viver numa pobreza atroz. Então o Marquês, impulsionado pelo seu espírito de organização empresarial, desata a percorrer as suas propriedades a pé, fala com os trabalhadores e os mestres, reforma a casa, manda cultivar os campos e até, numa localidade próxima, Gramela, funda uma fábrica de chapéus. Com a produção da quinta, alimenta os mais necessitados, dá trabalho e prosperidade a imensa gente e 5 anos depois, com 82 anos de idade, morre. Feliz? Provávelmente, porque ao que parece, o Marquês era um homem de horizontes largos, de projectos , de empreendedorismo...

Bartolomeu disse...

ressalvo o erro das datas; com 77 anos de idade, foi desterrado para Pombal, morrendo com 82 anos, permaneceu durante 5 anos exilado.
;)

Tonibler disse...

Chiça, 22 páginas de paper... Impossível de ler.

O princípio da utilidade do trabalho é um dos pressupostos de toda a teoria económica e sem a qual nada na economia faz sentido. Capital é só trabalho passado. A importância da educação parece-me derivada daí, de conferir utilidade ao trabalho que serve para bens e serviços novos e estes são úteis por serem... novos. Digo eu, que não sou economista. Melhor educação é de onde vem a capacidade de fazer coisas novas.

Gosto sempre de olhar para este tipo de gráfico e procurar a posição de Israel. As 22 páginas do paper podiam resumir-se a uma palavra: Israel.

Pinho Cardão disse...

Caro Professor:
Independentemente da "razão pura" que assiste ao estudo, não podem ser abandonadas contribuições que advêm da "razão prática", que podem levar a um "juízo" algo diferente.
Posto isto, claro que a organização dos processos produtivos é factor determinante para ganhos de produtividade. Mas também o são a lógica das instalações, a disposição dos equipamentos, o ambiente físico, a motivação. E a educação, claro está.
Mas, em matéria de educação, não se pode generalizar. A maior percentagem do mundo de licenciados, bolonheses ou verdadeiros, não traz nem um átomo de aumento da produtividade, se não houver técnicos fabris com boa educação básica e formação adequada. Isto é, a melhor educação não pode ser vista de forma geral.
Aliás, muita gente sustenta, por exemplo António Barreto, que mais e melhor educação é efeito do desenvolvimento (e não há desenvolvimento sem produtividade), e não causa do desenvolvimento.
Concluindo, diria que melhor educação seria formar técnicos, seria o ensino profissional, em vez de formar licenciados para o desemprego. E, noutro nível, formar verdadeiros licenciados, excelentes técnicos, mas não meros tecnocratas, antes gente dotada de cultura humanística, capaz de compreender o mundo em que se vivemos.

David Justino disse...

Meu caro Pinho Cardão,
não creio que se possa distinguir a "razão pura" da "razão prática". Ai desta se não se orientar por aquela. lamento contrariá-lo na relação entre educação e desenvolvimento: economistas, historiadores e sociólogos recentes convergem na ideia que o segredo está na articulação, na convergência, entre as duas dinâmicas. Veja o caso dos tigres asiáticos ou, entre os europeus, os países do norte. Muito antes de apresentaram ritmos e níveis de desenvolvimento elevados, dispunham de níveis de literacia e escolarização dos mais altos da Europa.
Não vale a pena andarmos à procura dos "factores determinantes", nem das causas das causas. O desenvolvimento é um processo complexo que não se reduz à economia.
Os processos produtivos assentam numa combinatória que vai muito para além da clássica trilogia dos factores de produção (terra, trabalho e capital).
Se reparar no gráfico verifica que Portugal tem um nível de produtividade muito elevado para o nível educacional que apresenta. É por isso que eu digo que a margem de progressão está no lado da valorização do capital humano e da cultura organizacional. Mas é claro que não chega ficarmos só por aí.
No artigo que cito que foca o caso do Canadá, faz-se um "state of the art" da teoria económica sobre produtividade e poderá constatar que a evidência científica tende a fazer destacar os ganhos de produtividade decorrentes da qualidade do capital humano.
Se no ficarmos só pelas funções de produção do Solow, não percebemos quais os desafios.
Subscrevo o problema da qualificação técnica e desta febre de licenciados sem qualquer competência técnico-científica para integrarem o mercado de trabalho. Mas isso meu caro, está num outro tema que em breve abordarei a UNIVERS IDADE.
Abraço

Joao Jardine disse...

Caro David Justino
No seu post falta-lhe uma questão que não é abordada: as expectativas e o comportamento da sociedade para com os detentores de diplomas da educação formal.
Se, a sociedade atribui papeis definidos de acordo com o grau de educação, dificilmente, evitará a armadilha da sobreeducação; porque, este tipo de sociedades, retira, ao trabalho o seu valor ético essencial.
E, como sucede em Portugal e noutros países, ocorrem com frequência as situações em que, as qualificações, são, sistematicamente, escondidas, porque senão, não terão trabalho.
Mas, alterar isso, como se pode depreender do que está implícito no comentário de Pinho Cardão, é outra labuta.
Cumprimentos
joão

Pinho Cardão disse...

Csaro Professor:
Usei a "razão pura" no sentido de Kant, que analisa se a "razão", o conhecimento a priori e dedutivo, não conhece, ela própria, limites. O que leva Kant a dizer que o julgamento dos factos deve levar também em consideração, não apenas a razão (conhecimento dedutivo), mas também outros factores derivados da experiência, da memória ou dos sentimentos.
Daí que eu seja muito céptico em relação a estudos "puros", que muitas vezes estabelecem a priori as conclusões para depois as comprovar. O pior que pode existir nas ciências sociais.
Mas, depois disto, claro que estou de acordo com o conteúdo do comentário que o meu amigo fez e que precisou alguns pontos.

Assim, concordo plenamente que "não vale a pena andarmos à procura dos "factores determinantes", nem das causas das causas. O desenvolvimento é um processo complexo que não se reduz à economia". E que "os processos produtivos assentam numa combinatória que vai muito para além da clássica trilogia dos factores de produção (terra, trabalho e capital)".
E que " a margem de progressão está no lado da valorização do capital humano e da cultura organizacional. Mas é claro que não chega ficarmos só por aí".
E também que existe esse " problema da qualificação técnica e desta febre de licenciados sem qualquer competência técnico-científica para integrarem o mercado de trabalho".
Como vê, consenso alargadíssimo. Em termos de razão pura, de razão prática e de conclusão (juízo) final.
E cá fico à espera do importantíssimo tema que, neste contexto, prometeu abordar em breve, o da Universidade. Será mais um excelente post. De quem sabe e vive a matéria.

(c) P.A.S. Pedro Almeida Sande disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Suzana Toscano disse...

Em Portugal preferimos sempre ficar pela relação quantidade/preço, veja-se as contas de merceeiro que se fazem e divulgam quanto a "médias" de salários entre setores com qualificação totalmente diferente (público e privado) e se decide sumariamente pela nivelação. Veja-se também como se ignoram os percursos contributivos dos diferentes grupos profissionais, fazendo "médias" entre as pensões recebidas na CGA e as do setor "privado", incluindo as do regime não contributivo, para concluir pela escândalo da diferença (€400 e 1200), tudo isto apagando grosseiramente qualquer consideração de qualificação e qualidade do trabalho. Por outro lado, criou-se a ideia de que os nossos licenciados não sabem nada, só tiram cursos inúteis e que tem que se pensar tudo de novo, incluindo a recuperação dos cursos profissionais de que fala o Pinho Cardão. Como sempre, oscilamos entre o tudo ou nada. Milhares dos nossos "inúteis" licenciados têm trabalho noutros países, trabalho qualificado e, pelos vistos, sabem mais do que por cá estaríamos na disposição de lhes reconhecer. O que acontece é que as empresas,a maioria pequenas empresas, não reconhecem a importância do trabalho qualificado ou nem sequer sabem como integrar e tirar proveito desse conhecimento académico dos que acabam de se formar. Uma significativa percentagem destes jovens (e menos jovens) licenciados e são contratados a prazo, não têm qualquer perspetiva profissional,nunca chegam a fazer curriculo digno de nota por causa disso mesmo e acabam com grande frustração por concluir a "inutilidade" dos seus estudos. Até nisso somos pobres!

(c) P.A.S. Pedro Almeida Sande disse...

Seria sem dúvida também muito interessante integrar aquilo que aqui se diz como parte substancial do desenvolvimento e produtividade nacional.
Será que o desenho do sistema político actual, a partidocracia e a corrupção não são elementos fundamentais para a percepção da crise? A história atirará para a fogueira muitos dos responsáveis pela actual ineficácia do desenvolvimento e produtividade nacional!
http://www.youtube.com/watch?v=WOrv8IH1ZB0

David Justino disse...

A Suzana tem toda a razão. Porque é que muitos trabalhadores portugueses emigrados, especialmente os que detêm qualificações médias e superiores, acabam por ser altamente produtivos nos países que os acolhem, quando entre nós eram um factor de baixa produtividade?
Daí a dimensão organizacional. Uma parte dos problemas da produtividade em Portugal reside na má organização das empresas e dos processos produtivos, a cultura de lidar com mercados pouco exigentes, na sua descapitalização, etc.
Não é só factores de produção, nem só educação. Também é cultura organizacional.