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domingo, 12 de agosto de 2012

Nós e os outros

O Expresso (Economia , p. 15) noticia que há mais estrangeiros e menos portugueses (-10%) no Algarve este verão, mas que a quebra está a ser compensada com mais turistas alemães, que fogem da Grécia, holandeses e ingleses. São bem vindos, é claro, mas levou muitos anos a ser bem recebido o turismo interno no Algarve, antes do boom imobiliário que tornou algumas praias absolutamente intransitáveis e antes também de outros destinos turísticos mais longínquos e exóticos, facilitados pela democratização das viagens e do dinheiro fácil, serem descobertos como maravilhas do lazer. Lembro-me muito bem do tempo em que ser turista português no Algarve, mesmo quando ser turista e ir de férias para lá implicava algum desfogo económico, nos fazia sentir uma espécie de cidadãos de segunda, sem direito a ser atendidos nos restaurantes antes que todos os “estrangeiros”, mesmo de pé descalço, fossem atendidos, para não falar dos preços mal amanhados, os trocos errados e muito, mas mesmo muito má vontade para se ser atendido nos pedidos. Não foi pouco tempo, foi assim durante muitos anos, uma seleção automática e desconfiada que regulava o mercado com um instinto mais tarde sofisticadamente traduzido em teorias de relacionamento com o cliente. Se queres mantê-lo, que ele volte, que te elogie “lá fora”, trata-o bem, se não queres então mostra-lhe abertamente que não estás interessado nessa clientela. E os portugas eram relegados para bem longe. Esta segmentação ostensiva levou a que o Algarve sofresse muitos anos até recuperar o balanço na competitividade com outros destinos, desapareceram os estrangeiros e os portugueses não iam para o Algarve até os preços descerem e eles serem lá tão desejados como os turistas de outras origens, mesmo os com pouco dinheiro para gastar nesses parcos dias de descanso.A comparação que volto a ver nos jornais, os portugueses que “não consomem”, “não vão aos restaurantes” ou “não gastam no comércio” versus o maná dos alemães, ou de outros errantes mais prósperos que por cá param à procura de uns dias de férias, leva-me a temer o pior. É bom que não se esqueçam da lição, não foi assim há tantos anos, hoje uns, amanhã, haja esperança!, outros, os turistas devem ser acarinhados e bem recebidos, sejam de fora ou cá de dentro.  

6 comentários:

Rui Fonseca disse...

O Algarve nunca foi uma opção de férias para mim & companhia. Mas quando, em permanências curtas lá estive, fiquei com a mesma impressão que descreve neste seu apontamento.

A primeira vez que fui ao Algarve, há muitos anos, estivemos na praia de Dona Ana, em Lagos. Foi um deslumbramento! Desde o sol nascente, aquela pequena praia era o paraíso sem tirar nem por.

Quando lá voltei uns anos mais tarde, tinham matado a Dona Ana.
A ganância dos construtores civis e dos bancos que lhe deram folego, aliada ao alarvismo municipal, contruiram uma monstruosidade de cimento armado em cima das minhas recordações de um Algarve lindo.

É por estas e por muitas outras parecidas que deixei de gostar do Algarve.

Luís Coelho disse...

O Algarve pode ter turismo todo o ano.As praias são maravilhosas com um mar calmo e de águas mornas e transparentes.

Há lugar para todos e todos os estrangeiros são bem vindos. As cadeias de hotelaria devem continuar a servir com gosto e delicadeza sem explorar demasiado nos preços.

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Lembra bem, Suzana, os tempos em que os portugueses eram tratados como turistas de segunda. Ficou-me sempre aquela ideia que era mais fácil explorarem os turistas estrangeiros. Uma mentalidade parola que afastou os portugueses para outros destinos, cansados se serem mal tratados. Se juntarmos os preços especulativos que se praticavam e os atentados urbanísticos que se fizeram não é difícil perceber que o Algarve mais tarde ou mais cedo deixaria de ser o paraíso. No mesmo artigo, o presidente de uma associação de hotelaria diz que o Algarve se está a manter por causa das promoções e descidas de preços, que isso se vai reflectir no resultado das empresas. É o mercado a funcionar, as margens são menores - pois são - mas assim sempre vai havendo clientes.

Nuno disse...

Os alemães devem estar loucos. Trocar uma ilha grega pelo Algarve? E ainda por cima mais caro?

Suzana Toscano disse...

Mais caro não será, caro Nuno, o que acontece é que os alemães não são lá muito bem recebidos na Grécia neste momento...
Caro Rui Fonseca, também me lembro dessa época e de ficar horas na fila para comprar o que quer que fosse e depois "não haver" porque atrás de mim na fila havia ingleses e alemães, para os quais já "havia". Estive muitos anos sem lá ir.
Caro Luis Coelho, espero que sim, que saibam gerir bem estes tempos de transformação e que não percam nem a qualidade nem o interesse em receber todos os que procuram aqueles sítios lindissimos para uns dias de descanso.
Margarida, terão que fazer algum ajustamento, não são só os salários a baixar, pelos vistos a competitividade obriga a isso mesmo, a ajustar os preços mantendo a qualidade, será difícil mas não s epode deitar tudo a perder.

José Gonçalves Cravinho disse...

Pois eu sou algarvio filho de gente pobre e camponesa e desde os meus 18 anos que saí da minha terra natal Boliqueime e depois de muitos trambolhões na vida,consegui emigrar para a Holanda já com 40 anos de idade e aqui me encontro desde 1964. Vou a Portugal visitar os meus familiares,mas não tenho saudades da minha terra nem das gentes,porque o passado pesa na minha memória.