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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Emoção

Emoção. Quem é que nunca a sentiu? O que significa? Para que serve? Como a definir? Curtas questões que merecem alguma reflexão. A morte de Neil Armstrong obrigou-me a saborear o seu significado e a criar uma imagem de forma a retê-la para o futuro. Sem esforço surgiu-me uma bela queda de água entoando sons encantadores impregnando os minúsculos espaços vazios deixados pela miríade de gotas de água com as quais os raios de sol se entretêm a brincar, desenhando coloridos quadros da vida. Emoção, combinação da pureza da água, da alegria da luz, do canto de sons únicos, do calor do sol e do doce sabor que tamanha visão pode proporcionar. Quando surge, desaparece tudo. É o momento em que a verdadeira essência da vida consegue manifestar-se em toda a plenitude, embora numa pequena fração de tempo. A eternidade só teria sentido se se confundisse com este sentimento.

Foram muitas as situações que me provocaram tamanha sensação. Muitas e múltiplas. A visão do corpo sem vida da minha amiga de brincadeira em criança, a de um amigo mais velho enviado de África embrulhado na bandeira nacional na adolescência e a de um amigo que desapareceu depois de me ter ensinado o significado da arte de ouvir na vida adulta. Três mortos que ainda sabem despertar a emoção da vida. A par da morte, a vida também é fonte de emoção. O nascimento de um filho, a recompensa inesperada do nosso trabalho ou a pequenina lembrança oferecida pela criança a quem a vida queria fugir. A emoção surge, também, quando partilhamos a vivência de outros, como o caso da judia que vai à floresta beijar a terra onde os seus familiares foram mortos, o ato heróico de um anónimo que sacrifica a sua vida em nome da vida de outros ou a determinação de quem sabe que vale a pena embriagar-se de altruísmo, mesmo que a humanidade não seja merecedora. A emoção surge em momentos de alegria e de conquista, como na prática desportiva em que o atleta vencedor transporta em si algo de nós ou em momentos coletivos onde as diferenças, sejam quais forem, desaparecem como por artes mágicas. A emoção surge quando a alma necessita de ser refrescada pela bela cascata de água pura, seja perante a beleza de um por de sol, seja perante a visão de uma obra de arte ou um poema mágico. A emoção também terá ocorrido quando vimos pela primeira vez a beleza do nosso ponto azul a partir do espaço ou na noite em a Lua foi acariciada pelo homem.

Existem tantas fontes de beleza capazes de despertar emoções que é pena que as não procuremos, e as outras, aquelas que vêm ao nosso encontro, muitas vezes contra a nossa vontade, temos de as aceitar, no fundo, emoção é aquilo que desejamos sentir, mesmo que não aceitemos ou compreendamos muitas das causas.

4 comentários:

Catarina disse...

A emoção que se sente ao ler um texto como este que, momentâneamente, se sobrepôe a uma outra que nos tira o sono...

Bartolomeu disse...

tambem me emociona, assistir à passagem do tempo e ver que o nosso país está, a cada dia, em pior situação. os novos, os de meia idade, e os velhos, olham-se; olham para todos os lados e a sua visão não topa para onde, que rumo devem seguir. à uns anos atrás, um ministro, a propósito da implantação de um aeroporto internacional, declarou que para lá do Tejo, era tudo deserto. antes de Cupernico, para lá do horizonte, era abísmo. hoje, a noção de abísmo encurtou-se. abísmo é já ali, amanhã ou hoje ainda, se nos for diagnosticada uma doença fatal, se a empresa em que trabalhamos, falir, se... se... se...
retorno aos tempos dos druídas, aos tempos em que a Lua era venerada, porque fazia parte de um todo Universal, porque comandava os cíclos da vida, porque determinava os poderes dos feitiços... e inclino-me perante ela, na sua fase adequada. peço-lhe um feitiço, talvez uma derradeira achega, capaz de ajudar a colocar o Mundo, de novo, nos carris da coerência, da justiça, do progresso. não sei, nem consigo imaginar a emoção que Neil sentiu quando pisou o solo lunar, no entanto, coloco a possibilidade de que se tenha sentido um peregrino, visitando um templo, um trono celeste...

jotaC disse...

Caro Professor Massano Cardoso,
Efetivamente a maioria de nós fica-se apenas entre aquelas emoções universais, que vêm ao nosso encontro sem convite, umas agradáveis outras não, como a felicidade, a tristeza, a dor, o ódio etc.
Estou completamente de acordo com o último período do seu texto, devíamos procurar as inúmeras fontes de beleza capazes de gerar emoções igualmente belas, que certamente muito iriam contribuir para uma vida menos cinzenta...

Suzana Toscano disse...

Num tempo em que a publicidade apela a "emoções fortes", que convida a procurar em sítios longínquos ou em atitudes desafiantes, tantas vezes nos esquecemos de como é fácil encontrar fontes de emoção, de alegria, de compaixão, de puro prazer de ouvir, de ler, de descobrir. Como este texto, sem dúvida.