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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Os Rohingyas


A política, a arte ou o comércio de governar os povos, começou há alguns milénios, a ponto de ser categorizada como paleopolítica. Nesses primórdios, grupos humanos tribalizaram-se criando espaços próprios que lhes permitissem viver, sobreviver e dominar como se constituíssem um ser com vida própria, com cabeça, membros e úteros dos quais nasciam os novos seres. Mas precisavam de se individualizar, construindo ilhas, o que só era possível atacando todos os que não faziam parte da tribo, este era o fator indispensável à sua autonomia, ser opositor a outros, ou seja, os que estavam de fora é que eram os verdadeiros responsáveis pela sua personalidade grupal. De pequenas tribos passaram a tribos maiores, autênticas hordas, fechadas em esferas, que se puseram a conquistar, ou melhor, a destruir outros povos, outras comunidades. O que é curioso é que todos pertencem à mesma espécie! Daqui, da paleopolítica tribal, ou das hordas, passou-se para outras formas, mas no fundo, esta forma de governar está sempre presente e tenho algumas dúvidas se algum dia irá ser substituída ou eliminada. Para justificar esta última afirmação, não posso deixar de perguntar, lembram-se do que fizeram aos judeus e aos ciganos durante a segunda grande guerra? Lembram-se do que fizeram no Camboja de Pol Pot? Lembram-se dos gulags dos soviéticos? Lembram-se do Holodomor, a tentativa de eliminação dos ucranianos à fome pelos comunistas soviéticos? Lembram-se dos campos de re-educação dos chineses de Mao? Lembram-se do Biafra? Lembram-se da limpeza étnica do Ruanda? Lembram-se do que aconteceu, recentemente, na Sérvia? Lembram-se do Darfur? Lembram-se? Claro que se devem lembrar, destes e de outros acontecimentos em que o homem sente um estranho prazer em afirmar a sua identidade através de atrocidades e limpezas étnicas, tudo porque pretenderam e pretendem justificar a sua identidade étnica, pseudo rácica e religiosa.

Estamos no início do século XXI e não há volta a dar a tão recorrente e horrorosa atitude. Neste momento alguns conflitos têm sido noticiados, como é o caso da Síria, mas há um acontecimento que não vejo ser relatado e que constitui mais um exemplo da verdadeira essência da natureza humana, o caso dos Rohingyas, uma minoria muçulmana que está a ser perseguida em Myanmar, antiga Birmânia, um povo maldito que tenta fugir para o vizinho Bangladesh, que não os quer receber e também os persegue. Este povo vive há séculos naquela parte do mundo, por acaso budista, o que não impede que desrespeitem os postulados de tão interessante filosofia. Neste processo é o próprio governo e as autoridades policiais e militares que estão a chacinar seres humanos de uma forma perfeitamente gratuita, violando os mais elementares direitos humanos. Não ouço, não leio, não consigo vislumbrar um movimento que denuncie esta situação, o massacre, a limpeza étnica de um povo, os Rohingyas. Perante esta situação volto a interrogar: Que raio de mundo é este que mostra total indiferença perante a limpeza étnica de um povo, os Rohingyas? Que raio de mundo é este que se deleita com a beleza e a camaradagem dos jogos olímpicos e ignora mais uma limpeza étnica? Que raio de mundo é este que continua a praticar atrocidades impensáveis usando preconceitos religiosos? Que raio de mundo é este capaz de usar horas de antena com futebóis, chegadas a Marte e é indiferente à morte e sofrimento humano? Que raio de mundo é este que se emociona perante a beleza de uma obra de arte e foge ou esconde-se da miséria moral da humanidade? Só um mundo de merda, só pode!

2 comentários:

Bartolomeu disse...

Em primeiro lugar, cumpre-me felicita-lo por este post, pungente, reivindicativo e reflexivo, Senhor Professor.
Aquilo que muitos de nós desejariam, era poder ser Deus e, com a força do seu poder, impondo a mão direita sobre o mundo, irmanar a humanidade mas... prorrogando-lhe o direito à auto-determinação, porque se trata de um acordo estabelecido entre Deus e o Homem e que garante a existência do futuro. E... para que Deus exista, é forçoso que o Homem também exista, mas para que o Homem exista, é imprescindível que exista futuro, caso contrário, o Homem, fazendo uso da auto-determinação, suicida-se.
Quando era jovem, alimentava a ideia de vir a integrar um Kibutz israelita. A organização comunitária, harmoniosa, onde verdadeiramente eram partilhados o trabalho, a cultura e a fraternidade, seduziam-me imenso.
À algum tempo, recordando estas ideias da adolescência com amigos, dizia-me um deles: uma vez que já não tens hipotese de realizar esse sonho, os Kibutz deixaram de existir, como resolverias agora o problema? juntavas-te aos Amish?
Apesar de a ideia de poder ser casado com várias mulheres, me seduzir... não. Optaria por reeditar a aldeia gaulesa do Asterix, mas construia uma paliçada mais alta e colocava-lhe um tecto... o céu está prestes a desabar sobre as nossas cabeças!
;)))

Massano Cardoso disse...

Não sei se muito de nós desejariam ser deus. Só se fosse para corrigir os seus "erros", mas este pensamento seria de uma arrogância inimaginável, colocando-o abaixo do homem, logo, o melhor é deixá-lo em paz, que se entretenha a tomar conta de outras partes do universo. É ao homem que compete a solução dos seus problemas, mas tem vindo a dar provas da sua incompetência nesta matéria, ele bem deseja, mas na prática não consegue e nunca irá conseguir. Nem mesmo a transformação em uma nova espécie. O homem é um sonho condenado à extinção, mas não deixa de ser um belo sonho, apesar dos pesadelos com que por vezes nos confrontamos, como é o exemplo que teve por base este texto.