Segunda-feira, 26 de Julho de 2010

A maldição lançada sobre a justiça portuguesa

Não há outra explicação, a justiça sofre de mau olhado. Só isso explica a falência total das medidas para recuperar a credibilidade e a eficácia mínima do sistema de justiça.
O senhor ministro da justiça dá hoje uma entrevista ao ´Público´. O discurso é de tal forma recorrente que esta poderia ser a entrevista estival do responsável da justiça do ano passado ou de há quatro anos atrás. Significativa a ausência de qualquer ideia acerca da anunciada nova reforma da acção executiva, após a falência do ensaio que deveria fazer corar de vergonha os criadores do actual sistema perante os resultados conhecidos. Diz o ministro que tem um grupo de gente muito sábia a tratar de reformar a reforma. Tudo como dantes, não espantando que nestes sábios se encontrarem alguns dos que elaboraram a anterior lei.
Significativo, também, é o anúncio de que, volvido um ano e picos sobre a entrada em vigor da alteração das custas judiciais que encareceu como nunca o acesso à justiça, tudo volta à primitiva quanto ao momento do pagamento da taxa de justiça! Para que, dentro de meses, se questione o sistema de parcelamento ou o momento em que se paga. No que não se vai mexer, claro está, é no montante da taxa de justiça, a não ser para a aumentar.
Sem direcção política, com ministros escolhidos a dedo pelo seu desconhecimento sobre como se passam as coisas no terreno, minada por interesses corporativos e sindicais, a justiça continua a apostar no experimentalismo. A tal ponto é assim que por estes dias quem é mais notado no meio, não é quem contribui com o seu estudo e conhecimento para a boa aplicação e aperfeiçoamento do Direito, mas quem se dedica às análises das patologias do próprio sistema.

8 comentários:

Bartolomeu disse...

Não percebo népia de leis, de como funcionam os tribunais, sobre que base surgem os acordos, o que motiva o arrastar de julgamentos, as fugas de informação, as discrepâncias entre as opiniões e as decisões jurídicas.
Mas, basta-me ouvir as acusações de Marinho Pinto,o Bastonário da Ordem a que V. Exª pertence, para perceber com clareza, que qualquer "nova reforma da acção executiva", iría forçosamente mexer profundamente com o interesse de fortes poderes instalados.
Daí, talvez a recorrência palradora se justifique em si mesma, com o geral "Data venia"

Pinho Cardão disse...

Infelizmente, o mesmo se aplica à economia e às finanças públicas. Estou consigo: ministros escolhidos a dedo pelo seu desconhecimento sobre como se passam as coisas no terreno. E até fora do terreno, junto eu.

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Já não sei quem é que no outro dia num debate na televisão veio dizer que tinha estado a percorrer os currículos dos nossos actuais governantes e tinha chegado à conclusão que nenhum deles tinha experiência em funções de responsabilidade de gestão. Isto diz muito!

JM Ferreira de Almeida disse...

Meus caros,
Como aqui temos dito por diversas vezes, o bom governante não precisa de ser técnico e sobretudo não deve substituir-se aos, nem deixar substituir-se pelos técnicos.
Mas o conhecimento da realidade do sector governativo é o requisito mínimo para poder decidir bem. Se virem os curricula das personalidades que nos últimos anos têm ocupado a pasta da justiça, perceberão em parte porque o sistema é prisioneiro do conhecimento e dos interesses das corporações, essas de onde saem os tais grupos de trabalho de gente muito sábia.

joao disse...

Caro JMFAlmeida

O seu post suscita-me os seguintes comentários:

a) Mentalidades:
Enquanto um antigo ministro da justiça (Laborinho Lúcio) considerar normal que mais de 80% dos processos em Portugal, não ultrapassam os quatro anos de vida; enquanto esta afirmação realizada em público (Prós e Contras)não suscitar sequer um reparo ou uma crítica; enquanto se utilizar o anormal (processo casa pia) para ilustrar o normal (a necessidade de quase toda a obrigação ter de ser declarada executiva, por via judicial);enquanto um presidente do supremo tribunal de justiça perorar contra a "situação" dos juízes por estarem a ficar meros "cobradores de dívidas", sem que ninguêm, ninguêm mesmo, solicitar a imediata demissão do mesmo magistrado; não vale a pena lamantar o "estado" da justiça ( o que quer que isto seja).
b) Contemporaneadade
Um estado moderno na europa em que nos encontramos tem uma finalidade essencial: velar, defender e implementar actos (aqui no sentido amplo) que permitam aumentar o bem estar dos cidadãos. Nesse quadro o efectivo cumprimento da lei é um elemento essencial.
No séc XXI fazer cumprir a lei é um exercício duplo:a norma tem de ser o suficientemente fundada para que concite a adesão e ao estado deve ser dado os meios para fazer cumprir as leis.
Neste contexto, os juristas (aqui no sentido amplo, incluindo os juízes) são alfaiates sociais, técnicos qualificados para vestir acções e actos, ou defender os particulares. Não são Diógenes com lâmpadas em busca da Justiça, ascetas puros que buscam a verdade...
c) Pragmatismo
Quarenta e oito anos de regime de Estado Novo devía-nos ter ensinado que não é necessário muita gente para controlar uma nação, nem é necessário muitas leis para condicionar o comportamento. A diferença entre a democracia e uma ditadura está, precisamente neste acto que realizo: poder sem medo, dizer e opinar o que penso; o único risco que corro reside na chacota ou indiferença que as minhas opiniões posasam suscitar. Por isso, tenho enorme dificuldade em compreeender como pudemos chegar a uma situação em que o número anual de diplomas é cem vezes superior ao do Estado Novo, sem que a população tenha apenas sofrido um aumento de apenas 30%.
e) Simplicidade
As leis são para serem seguidas pelo comum dos mortais, ergo, devem ser compreendidas por todos; quando nem os "especialistas" compreendem o que está escrito ou, quando o que está escrito não tem congurência com a realidade ou o comando é, virtualmente, ineficaz; tenho de considerar que alcançámos o limiar em que o sistema entrará em rotura.
f) Refrescamento de ideias
De há 250 anos a esta parte, só um sector do estado foi dirigido por profissionais do meio: a Justiça. É chagado o momento de abrir de par em par as portas do edifício, sob pena de ampliar ainda mais as taras de que padece.

Caro JMFAlmeida, quando o responsável pela pasta da justiça tomar as seguintes medidas:
a) Acabar com o princípio do juiz natural para os processos civis e implementar o desaforamento administrativo dos processos;
b) Implementar o estudo de impacte legislativo e impor a sua obrigatoriedade prévia á publicação das leis;
c) Definir quais as leis que não tenham um limite temporal de vigência e impor às restantes um limite de dez anos.

Não vale a pena lamentar o "estado" da nosso sistema de aplicação de justiça, nem criticar os responsáveis

Cumpirmentos
joão

JM Ferreira de Almeida disse...

Meu caro Joao,
Estou de acordo com muito do que opina.
Em desacordo absoluto com a opinião que manifesta no final de que não vale a pena lamentar e criticar.
Meu caro,
Só vale a pena lamentar, criticar como no seu comentário o faz com muito fundamento, e exigir que se extraiam consequência políticas dos repetidos falhanços, coisa que na área da justiça, mais do que em outros sectores da governação, não está nos nossos habitos desde que o ministério se chamava da justiça e dos cultos...

joao disse...

Caro JMFAlmeida

A nossa sociedade tem de mudar e, em especial, tem de começar a escolher, diferenciar e hierarquizar.
Não podemos continuar a passear um certo remorso bem pensante que é típico da intelectualidade dos anos 60 e 70 do século passado.
Saúde, Educação e Justiça são elementos essenciais da cidadania, pelo que deviam ser gratuitos para os indíviduos.
(Não podemos ter tudo, estradas gratuitas, carros gratuitos e o resto. Veja-se, com olhos atentos, o que se passa na Suécia)
O que não podemos é, a coberto do conceito de justiça social, implementar políticas públicas erradas porque ineficazes no longo prazo e terrivelmente injustas na sua aplicação.
As custas judiciais são um atentado ao Estado de Direito uma "gozação" de justiça, um convite ao laxismo e mais um elemento que irá aumentar os entraves à avaliação do desempenho dos actores judiciais.
Ora isto é o reflexo de uma mentalidade como a que reflecte o presidente do supremo, mais próxima de um cidadão do séc XIX do que do nosso século.
(Neste caso, a suécia já não é exemplo, o Burkina Fasso passa a ser o "benchmark".)
É por causa desta mentalidade tipo "hamish", mentalidade muito comum nos actores judiciais é que considero que não vale a pena reformar com eles, nem contra eles, há que relocalizá-los...
Cumprimentos
joão

bravomike disse...

«não é necessário muita gente para controlar uma nação...»
"Administrar muitos, é tão simples como administrar poucos, é apenas uma questão de organização" - Sun Tzu.
«o número anual de diplomas é cem vezes superior ao do Estado Novo»
A bem da Regime & Corporações.
Na tropa, com o número de generais e almirantes, é a mesma coisa.
Não acabamos de ver, como é que na AR que temos, os seus profissionais resolveram uma questão de décadas, proposta por duas deputadas, sobre a 'organização'/arrumação dos feriados?
E vem o seu excelso Presidente dizer: "Não se pode dizer que Portugal tenha um Parlamento adormecido". Pois.
BMonteiro