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terça-feira, 15 de abril de 2014

Pela coragem de remar contra a maré, vale a pena ler..

Convém colocar as coisas nas devidas proporções, não vá a ironia do texto de HM confundir: nem os movimentos das marés são tsunamis, nem a legitimidade aparente é regra em democracia. Mas é um facto que a opinião publicada, dominada por uma fação da esquerda, ela sim burguesa e conservadora, cria a ideia de que se formou uma onda de insatisfação e até repúdio por algumas figuras políticas, a quem não se desculpam os erros ou os momentos menos felizes (antes se ampliam) e se não reconhecem virtudes, mesmo algumas que costumam ser bandeiras dos críticos.
Aníbal Cavaco Silva é uma dessas figuras permanentemente fustigada pelo pessoal que gostaria de mudar de situação. No exercício dos seus mandatos o PR cometeu erros, terá até frustado expetativas de alguns. As minhas, ao dar posse ao Governo minoritário de Sócrates quando a gravidade da situação tornava evidente a necessidade de uma solução política distinta, que teria poupado muita dor e sacrifício. Mas tem-se revelado o Chefe do Estado que o País necessita, repondo equilíbrios quando se decretam exageros, gerindo a oportunidade da palavra com a prudência exigida pelos momentos difíceis que atravessámos (e que não passaram).
Aos que provaram do poder e não se conformam com a dieta forçada, ou aos aspirantes a um lugar no palco, a postura do atual PR não pode agradar. À volta deles estão comentaristas de esquerda e de direita, analistas e cientistas, nos jornais, rádios, TV e redes sociais.
Ser contra os poderes instituídos é o que rende, mesmo que nada tenha mudado no plano da legitimidade democrática e a ação de quem está legitimado se paute por critérios de inegável ponderação e equilíbrio, como se exige aquele a quem a Constituição atribui o papel de garante das instituições. Todavia, este ruído próprio das sociedades fortemente mediatizadas, não traduz qualquer perda de legitimidade como com ironia o texto de Helena Matos inteligentemente demonstra. Nem acrescenta autoridade ou valor à palavra daqueles que, em eleições livres perderam rotundamente, mas veem o seu discurso (se demagógico tanto melhor) ampliado à exaustão. É, na verdade, o sucedâneo, para esses, de um abono de família perdido. Mas só isso...

6 comentários:

Pinho Cardão disse...

Excelente o texto da Helena Matos, aliás na linha do que vem escrevendo. Mais uma vez se verifica que sempre vai havendo oásis no deserto de uma comunicação socia dominada por lóbis arcaicos. E incultos, embora sempre prontos a exibir erudição de pacotilha.
E excelente a ideia de o Ferreira de Almeida divulgar o texto aqui, no 4R.

João Pires da Cruz disse...

Esse Cavaco Silva não é o mesmo que está em Belém. De certeza. O que está em Belém, o que cortou TODAS as iniciativas de corte de despesa e assinou por baixo todas as despesas que levaram à insolvência do estado, esse é o que está em Belém.

JM Ferreira de Almeida disse...

Meu caro João, o meu Amigo regressou há pouco do Bangladesh e ainda não se ambientou? ;)

João Pires da Cruz disse...

Tem um exemplo de corte na despesa corrente que o Cavaco Silva que está em Belém não tenha enviado para o TC? É que o Cavaco Silva que eu conheço, se calhar do Bangladesh, foi aquele que impediu que saíssemos do programa da troika um ano antes da Irlanda e andemos ainda a discutir os mesmíssimos cortes que se andam a discutir desde que a troika entrou e que foram validados por sufrágio, bem mais alargado que aquele que o elegeu. Se há personagem que não bate com o texto da Helena é mesmo o Cavaco. Mas isto é visto do Bangladesh, onde a coisas levam mais tempo a esquecer.

Diogo disse...

Sobre os «poderes instituídos»

«Ser contra os poderes instituídos é o que rende, mesmo que nada tenha mudado no plano da legitimidade democrática e a ação de quem está legitimado se paute por critérios de inegável ponderação e equilíbrio, como se exige aquele a quem a Constituição atribui o papel de garante das instituições»


Fernando Madrinha - Jornal Expresso - 1/9/2007:

Para um breve retrato deste nosso país singular onde cada vez mais mulheres dão à luz em ambulâncias - e assim ajudam o ministro Correia de Campos a poupanças significativas nas maternidades que ainda não foram encerradas -, basta retomar três ou quatro notícias fortes das últimas semanas. Esta, por exemplo: centenas e centenas de famílias pedem conselho à Deco porque estão afogadas em dívidas à banca. São pessoas que ainda têm vontade e esperança de cumprir os seus compromissos. Mas há milhares que já não pagam o que devem e outras que já só vivem para a prestação da casa. Com o aumento sustentado dos juros, uma crise muito séria vem aí a galope.

Não obstante, os bancos continuarão a engordar escandalosamente porque, afinal, todo o país, pessoas e empresas, trabalham para eles. Daí que os manda-chuvas do Millenium BCP se permitam andar há meses numa guerra para ver quem manda mais, coisa que já custou ao banco a quantia obscena de 2,3 mil milhões de euros em capitalização bolsista. Ninguém se rala porque, num país em que os bancos são donos e senhores de quase tudo, esse dinheirinho acabará por voltar às suas mãos.

Na aparência, nem o endividamento das famílias nem a obesidade da banca têm nada a ver com os ajustes de contas na noite do Porto. Porém, os negócios que essa noite propicia - do álcool que se vende à droga que se trafica mais ou menos às claras em bares e discotecas, segundo os jornais - dão milhões que também passam pelos bancos. E quanto mais precária a situação das tais famílias endividadas e a daquelas que só não têm dívidas porque não têm crédito, mais fácil será o recrutamento de matadores, de traficantes e operacionais para todo o tipo de negócios e acções das máfias que se vão instalando entre nós.

Quer dizer, as notícias fortes das últimas semanas - as da tal «silly season», em que os jornalistas estão sempre a dizer que nada acontece - são notícias de mau augúrio. Remetem-nos para uma sociedade cada vez mais vulnerável e sob ameaça de desestrutruração, indicam-nos que os poderes do Estado cedem cada vez mais espaço a poderes ocultos ou, em qualquer caso, não sujeitos ao escrutínio eleitoral.

E dizem-nos que o poder do dinheiro concentrado nas mãos de uns poucos é cada vez mais absoluto e opressor. A ponto de os próprios partidos políticos e os governos que deles emergem se tornarem suspeitos de agir, não em obediência ao interesse comum, mas a soldo de quem lhes paga as campanhas eleitorais. Quem pode voltar optimista das férias?

Suzana Toscano disse...

Há sempre muita parra e pouca uva na vozearia geral, caro Ferreira de ALmeida, dar opiniões como jornalista não custa nada e entre nós, como noutros países, a única atitude que rende é ser contra, se se for apoiante (salvo no futebol) corre-se o risco de ver testadas as suas teses e de se sentirem responsáveis, um peso enorme. Quanto ao governo minoritário não resisto a lembra-lhe quem eram os protagonistas políticos da época, acha realmente que uma coligação era possível?
Aproveito para desejar-lhe a si, e a todos os 4republicanos incluindo, claro, comentadfores e leitores, uma Páscoa muito Feliz.