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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Diversidade

Em termos biológicos quanto maior for a diversidade de uma espécie maior é a garantia da sua perpetuação. Uma regra observada por tudo quanto é sítio; regra a que os seres humanos também estão sujeitos. Em termos culturais e ideológicos, características intrínsecas à nossa espécie, também somos muito diferentes uns dos outros, e ainda bem, porque, teoricamente, do confronto das ideias e rumos a propor podem surgir novos paradigmas e serem encontradas soluções para muitos dos nossos males, isto se o confronto se realizar com base em certos princípios, nomeadamente respeito e tolerância. Não é o que vislumbro, o que não é de admirar, basta para o efeito olhar para o passado e verificar que os fenómenos de intolerância e de agressividade são das mais poderosas constantes da humanidade, a fazer inveja a outras que são utilizadas, à falta de melhor, para explicar o funcionamento do universo. Olhamos para as notícias e o que é que vemos? Decisões tomadas num determinado sentido começam, ao fim de algum tempo, a ser contestadas para que tudo regresse à primeira forma, porque as mesmas não são percecionadas com o mesmo valor por todas as pessoas. Devido à forma como as lutas ideológicas, ou melhor, doutrinais se processam na nossa sociedade é fácil de verificar uma agressividade exagerada, um autêntico proselitismo e uma intolerância a raiar a patologia que me leva a pensar se é benéfico para todos nós, isto porque dos debates a que tenho assistido, os protagonistas dos mesmos são totalmente insensíveis a qualquer mudança, "entram" com uma ideia e emergem com a mesma, mas reforçada. Não convencem e nem querem ser convencidos, quanto aos outros, os que assistem ou leem, a maioria procura apenas o grupo que lhe poderá ser mais útil para satisfazer as suas necessidades, facilitar a progressão social e alcançar o poder, seja qual for o tipo de poder, que é sempre bem-vindo, porque isto de viver é muito complicado e custa muito. Sendo assim, poderemos, por analogia, afirmar que a espécie humana, em termos biológicos, caracteriza-se por uma franca e respeitável biodiversidade, permitindo o cruzamento entre os seus representantes, que é a base da definição de uma espécie, mas, sob o ponto de vista cultural, ou melhor, doutrinário, os humanos comportam-se como se pertencessem a espécies diferentes e, deste modo, nunca conseguirão "miscigenar-se", pelo que farão tudo para imporem as suas vontades de forma mais ou menos violenta sobre os opositores. O que estamos a observar no momento presente, de grave crise económica, social e de valores, é precisamente o ressurgir de velhas/novas ideologias com o objetivo de tomarem conta dos "outros", os "desencaminhados" de uma qualquer ordem, através do cerceamento da liberdade de pensar e a imposição de regras e normas próprias da sua "espécie". Irão conseguir? Temo que sim, embora haja sempre pequenas bolsas de resistência que, mais uma vez, terão oportunidade para repor alguma normalidade neste estranho planeta.
Mas começa a cansar, e muito.

5 comentários:

Tonibler disse...

Caro prof.,

Deve ser por isso que biologicamente temos um "motor" para nos atrairmos por seres geneticamente diferentes. Porque o nosso ser económico, que é uma peça fundamental na evolução da espécie, que governa as nossas relações sociais todas, é (tudo indica) muito menos complexo e forma "geometrias fractais", em que existe sempre uma corrente dominante com um número enorme de seguidores, depois uma mais pequena com metade e várias muitos mais pequenas. Por isso temos sempre a sensação de que não há essa miscigenação, porque não há de facto, o ser económico (aparentemente) não tem essa característica. A evolução do ser económico faz-se por avalanches, por crises geradas quando essa geometria experimenta os limites, ao contrário da evolução genética, em que em cada instante existe um processo de optimização.

Resumindo e batalhando, claro que cansa, mas quem está habituado a mundos de enorme resiliência "geométrica", como é o mundo científico, esta avalanche da crise económica deve-lhe parecer uma brincadeira. Porque no mundo científico, estas avalanches são muitíssimo mais raras(ando agora a descobrir...).

Massano Cardoso disse...

Essa da "avalanche" é muito curiosa. Presumo que não se deve limitar ao ser económico, ou melhor,será que o "ser económico" engloba o ser político, o ser doutrinário e o ser cultural? Se assim for, abre-se uma forma interessante de explicar certos fenómenos.

Tonibler disse...

Falei no ser económico por não existir nenhuma justificação, para além da vantagem biológica da especialização, para explicar a existência do político, doutrinário, cultural, etc... Se pensarmos, porque é que tudo isso não resulta dessa vantagem biológica que nos colocou este instinto tão forte de trocar trabalho, mesmo quando não existe qualquer risco de sobrevivência?
Esse singelo princípio, de que somos atraídos para tal inconscientemente, explica a forma das cidades, dos países, dos idiomas, da riqueza, da pobreza, dos partidos, das quedas e subidas das bolsas, das organizações das empresas, do número de livros vendidos, da importância dos jornais, das religiões, ... Chama-se criticalidade auto-organizada e é um mecanismo semelhante ao da pilha de areia onde vamos deitando grãos e os períodos de crescimento vão sendo interrompidos por avalanches que podem alterar substancialmente a configuração do sistema mas, após cada uma dessas avalanches, o sistema reorganiza-se novamente com o crescimento até atingir um limite onde se dá uma nova avalanche.

Na realidade, é o mais "estúpido" de todos os sistemas dinâmicos cujos postulados são os mais básicos: Existe atracção, os corpos são todos diferentes e existe um limite finito de energia. Tão básico e, no entanto, começa a perceber-se que boa parte da natureza, e da vida humana, pode ser tão simples como isto "andámos" séculos perdidos. Infelizmente, também quer dizer que boa parte da natureza, humana ou não, é imprevisível e não é possível a existência de um óptimo ou um mais "fit", como na genética. Mas por outro lado, felizmente, não é possível existirem unanimidades, pensamentos únicos, equilíbrios económicos, certezas, etc...

E isto torna-se mais interessante quando se percebe que a matemática que se construiu com os pais do cálculo, L'Hopital, Lagrange, Laplace, etc... poderá ter, afinal, uma aplicação muito reduzida e nos falta uma matemática inteira para explicar a natureza, humana ou não. Porque, afinal, os mesmos pressupostos se podem aplicar, com vantagem, ao universo todo.

Massano Cardoso disse...

Muito bom! Tenho de me debruçar sobre este assunto. Estou a ficar deveras interessado com este "sistema".

Massano Cardoso disse...

Tonibler. Já arranjei alguma coisa sobre criticalidade auto-organizada. À primeira vista parece-me ser inspiradora para explicar alguns problemas da minha área. Vamos a ver.