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segunda-feira, 29 de abril de 2013

O outro Algarve...


Domingo. Excecionalmente um dia de trabalho, trabalho diferente, mas nem por isso deixou de ser trabalho. Fiz o que me competia, moderei, interpelei, sintetizei e saímos da sala convictos de que é possível mudar as coisas. Claro que é possível, só que leva tempo, tempo de mais, havendo necessidade de continuar neste intercâmbio entre a ciência e a política. Desta feita convidaram deputados e representantes de associações de doentes para fazerem parte da mesa-redonda. Ainda bem, há muito que ando a dizer que só assim a ciência e os conhecimentos podem atingir quem tem vocação e capacidade para decidir. 
Como ganhei o dia, dei-me ao "luxo" de tirar a tarde para mim. Almocei e dei uma pequena volta sempre empurrado por um vento furioso. As ruas, limpas, eram salpicadas, de quando em vez, por turistas excitados pelo sol e alheios ao desconforto do vento. Há gostos para tudo. Junto a uma montra, um tabuleiro com anéis e colares artesanais quase que escondiam uma dezena de pequenos óleos, representando quadros das paisagens urbana e rural algarvias. Senti alguém a aproximar-se, discretamente, como que a querer esclarecer qualquer coisa, mas sem se intrometer. Deveria ter pouco mais de quarenta anos, seco de carnes, olhar brilhante, oferecendo um discreto sorriso em que imperava algo semelhante a humildade. Fiz de conta que me ia afastar para ver outras coisas na montra, mas, logo de seguida, voltei a minha atenção para os quadros. O senhor apercebeu-se do meu interesse, e, muito respeitosamente, numa voz baixa a fugir para a timidez, disse: - Foi eu que os fiz. - Sim? São interessantes. Vê-se que é um autodidata. - Sim, sou. Como viu o meu olhar a focar incessantemente um deles, adiantou: - É a torre do Arco da Vila de Faro. - Ah, bem me parecia. Lembro-me de a ter visto há anos. O que me chamou a atenção foi a cegonha. Riu-se. Na parte inferior do quadro estava o seu nome, Amilio M. - O senhor chama-se Amilio? Era a primeira vez que lia este nome. - Não senhor, não me chamo Amilio. Pensei que o seu pai se tinha enganado e trocado o nome. Naquelas alturas os erros de registo eram comuns, por vários motivos, entre os quais a hora dos mesmos e a dose de tinto que alguns funcionários já tinham emborcado. - Não senhor, o meu nome é Humberto. - Humberto? Então porque é que escreve Amilio? - Olhe eu não consigo escrever o meu nome nos quadros, não sei porquê, mas não consigo. Já tentei, mas não consigo. Optei por Amilio, um nome artístico. - E porquê Amilio? Olhei para a sua face e vi algum incómodo ou indecisão perante a minha pergunta. Com um sorriso humilde disse em voz baixa: - Coisas complicadas, histórias, histórias. Estive em França muitos anos. Como vi algum desconforto, não insisti e mudei de assunto. - O senhor de onde é? Sou algarvio, de Moncarapacho. - Mon...quê? - Moncarapacho. Um aldeia entre Loulé e Faro. - Ah, então o M. é de Moncarapacho? - Sim! Confessou  um pouco surpreendido por ter descoberto o significado da sigla da assinatura.
- Olhe meu caro, vou levá-lo. Foi então que vi a estupefacção misturada com manifesta alegria. Olhei mais uma vez para o quadro com a torre e a cegonha e meti-me no carro. Rumei até Faro. Ao chegar ao Arco da Vila, vi que a cegonha estava lá, a mesma que devo ter visto há uns anos. Dei uma volta e visitei o museu de Faro. O senhor recusou-me o pagamento, porque faltava meia-hora para fechar, mas tranquilizou-me, esteja à vontade. Vi um belo convento e apreciei obras de uma beleza extraordinária. As funcionárias abriram algumas salas, que já estavam fechadas, com uma simpatia difícil de descrever. O domingo quis mostrar-me outras gentes e outras almas. Acabei por ver e sentir humildade, arte, delicadeza e encantadores sorrisos. Um perfeito contraste com o Algarve da véspera. 
Não podia deixar de o descrever. Seria uma perfeita injustiça...

2 comentários:

Bartolomeu disse...

Na ânsia de ser o mais perfeitos possível, acabamos invariávelmente por escolher o caminho, ou a decisão mais difícil. Nota-se no entanto uma tendÊncia recente para a busca de soluções e a tomada de decisões, dentro de um consenso que abranja diferentes opiniões e pontos de vista sobre o mesmo e único assunto.
Ainda bem.
Recordo muito bem essa Torre e a cegonha. A última vez que estive em Faro, hospedei-me no Eva. Da varanda, voltada para a marina e para o largo, podia observar e fotografar (o que fiz, aliás) a Torre e a Cegonha, altaneiras, ambas, guardiãs de uma urbe com muitos séculos de História. Quem sabe, aquela cegonha, tal como as palmeiras mais velhas, viram já passar pelas ruas que do alto dominam, fenícios, árabes, romanos e cristãos e... Amilios, que após anos de ausência, lá pelas Franças, trouxeram olhos de saudade e habilidades de retrato...
A talho de foice... e de histórias, de venturas e desventuras.
Almocei na sexta-feira num restaurante de Lagos com esplanada. Em frente, apareceu entretanto um tocador de guitarra, aspecto de inglês, que tocou e cantou meia-duzia de músicas folk para justificar o peditório final.
Numa mesa ao lado sentavam-se 2 casais estrangeiros, de meia-idade, ingleses. Um dos homens, rebuscando nos bolsos, perguntou ao artista se aceitaria trocos. O outro respondeu que aceitava tudo e em troca lhe oferecia um conselho: que gastasse bem o seu dinheiro e que nunca desse demasiado à mulher. Deram todos uma gargalhada, (eu inclusivé) e depois de passar o efeito da graça, rematou com a moral: é para que não lhe venha a acontecer o mesmo que a mim.
Quem sabe, no caso do pintor de Moncarrapacho, o nome Amilio, não represente a memória de alguém que marcou profundamente a vida do artista?!

Suzana Toscano disse...

Ás ezes é o estado de espírito com que estamos que atrai os bons ou os maus, aposto que no domingo, já depois de ter "ganho o dia", se sentia muito mais bem disposto do que antes d efazer a conferência com um belo dia de sol cá fora :)