Número total de visualizações de página

terça-feira, 23 de abril de 2013

O valor da palavra


Não sei quantas vezes se abordou aqui o tema da erosão do valor da palavra. Não sou muito de me manifestar sobre assuntos com uma carga moral acentuada, onde a opinião tende a ser expressão de sentimento mais do que produto da razão. É o caso. Ainda assim, e porque me impressionaram (lá está, a impressão, o sentimento...) condutas que contrariam chocantemente a palavra pública e recente, ouso escrevinhar o que me vai na alma.
 
O Povo, habituado a que a honra deve pouco à palavra dada, diz entre si, pragmaticamente, que ´palavras, leva-as o vento´. Isso explica muita coisa. Explica, por exemplo, que a classe política, a da situação e a da oposição, que nada mais é do que uma extração do povo que assim pensa, se veja livre para comprometer a palavra e, no momento seguinte, se sinta do mesmo modo à-vontade para fazer o contrário da jura mais solene. Como sabe que nenhuma consequência advém e que a palavra é coeva da conveniência e não do compromisso, vá o político dizer o que convém no momento, sem receio de os seus atos o desmentirem. É pois natural que quem ambicione fazer parte da classe esteja atento ao exemplo e não se preocupe em medir as palavras ou em perder o sono se as quebrar. Sabe que o que escreve em blogues ou o que diz perante os microfones das rádios e TV em tom sério e grave, tem o valor de um prato de lentilhas. Afinal são simples palavras ditas, não são palavras dadas que hoje não há palavras de graça!

Pensando bem na coisa, palavra de honra que acho que têm toda a razão os permanentes candidatos a algo, atendendo à real cotação que na bolsa dos valores atingiu a palavra.

4 comentários:

jotaC disse...

Caro Drº Ferreira de Almeida,
Depois de ler o que algumas personalidades escolhidas para o governo publicaram, sobre o mesmo governo, fiquei admirado, eu pensava que a este nível as pessoas tinham padrões de coerência, pensamento político estruturado, mas não!, parece-me que o penacho vale tudo...

Pinho Cardão disse...

Caro Ferreira de Almeida.
Palavras leva-as o vento era quando as palavras ainda eram ouvidas por alguém, mas logo endossadas ao vento que passava.
Agora, nem vento as ouve ou quer saber delas. Desaparecem no mesmo momento em que são pronunciadas.

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

José Mário
A opinião tem hoje mais volatilidade que os mercados financeiros. Mas o risco associado é quase inexistente. Há quem não leve a sério o que escreve porque quem lê faz o mesmo. Opinião leva-a o vento...

Bartolomeu disse...

O valor de palavra é-lhe sempre atribuido por quem a toma. (Bartolomeu dixit)
Vem a propósito (ou não... dependendo do critério que os excelentíssimos leitores queiram usar) a fábula de Esopo: "O velho, o rapaz e o burro"
Cuja, reza o seguinte:
Certo dia,um homem resolveu ir com o filho à vila vender o seu burro.
Escovaram muito bem o animal e,logo de manhã bem cedo partiram.O rapaz puxava o animal e o pai seguia atrás.
Pelo caminho, cruzaram-se com um viajante que lhes observou:
-Que parvos!Vão a pé quando podiam ir montados no burro!
O homem, mandou então o filho saltar para cima do burro e continuaram o caminho.
Pouco haviam avançado,quando se cruzaram de novo com alguém que, fixando-os com ar de reprovação, lhes disse:
-Já não hà respeito nenhum pelos mais velhos!O rapaz vai sentado enquanto o pai vai a pé!
O rapaz saltou logo para o chão e o homem montou-se,e lá seguiram caminho.
Encontraram então uma senhora que de olhos arregalados,exclamou:
-Olhem que graça!Um marmanjo sentado e o pobre miudo a pé,já tão cansado...
O pai concordou e ajudou o filho a montar também no burro.
Já perto da vila,avistaram um vendedor experiente que lhes gritou:
-Não sejam idiotas!Querem vender o animal e vão os dois montados em cima dele?...O pobrezinho vai chegar tão cansado que ninguém vai querer compra-lo.
Então o pai decidiu:
-Meu filho,agora é o burro que vai descansar.Vamos leva-lo às costas.
Quando chegaram à vila,as pessoas,ao verem aquele espetáculo,aproximaram-se e riram à gargalhada.Ao libertarem-no, o burro,assustado com a multidão,fugiu a correr.Logo a seguir tropeçou caiu ao rio.
Então,frustadissimos,o velho e o rapaz,lá voltaram para casa, sem dinheiro, e sem burro.