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sábado, 20 de abril de 2013

Pessoal, recursos, capitais


Ainda não há muito tempo vivíamos na era das modernas teorias de gestão, ouvíamos conferências sobre motivação das pessoas, formação de equipas, avaliação, objectivos, lideranças. Os livrinhos de aprendizagem rápida de como ser um gestor “de sucesso” atingiam os tops de vendas e a liderança era sem dúvida o segredo a ser partilhado para se ter um grupo de gente a trabalhar como devia ser. Até vale a pena lembrar que as velhas repartições de “pessoal”, onde se processavam vencimentos e se anotavam as faltas, foram remodeladas em departamentos de “recursos humanos”, promovendo as pessoas a fonte de matéria prima, a par dos outros recursos que a empresa transformava e que constituia a sua fonte de riqueza. Mas logo se achou insuficiente, não, as pessoas não eram apenas recursos, eram realmente um “capital”, um investimento de que se esperava rendimento crescente, o “capital humano” merecia formação, perspectivas de desenvolvimento, havia até análises sobre o seu potencial e estudos aturados sobre a melhor forma de tratar esse capital para o tornar mais rentável, incluindo desenvolvendo o “coaching”, uma espécie de personal training para melhor rendimento das qualidades pessoais e profissionais de cada um. E, apuro dos apuros, já estava até a evoluir-se para considerar que o melhor e mais abrangente qualificativo desta preciosidade nas empresas era mesmo o de “pessoas”, qual recursos, qual capital, pessoas é que era, pessoas era a palavra certa para ilustrar a plenitude do significado que tinham. Era então o tempo dos estímulos, dos prémios de produtividade, do mérito, tudo já a preparar o caminho da tal sociedade do conhecimento, falou-se até no “imaterial” que não era mensurável pelos meios de medir resultados mas que estava lá, valia muito ou pouco e, se valesse muito, era de não perder, de cativar, cada pessoa com formação e experiência era uma perda se fosse embora ou passasse para a concorrência.
Falar hoje disto tudo parece uma miragem, evaporou-se, ao menos da linguagem quotidiana, dos motes habituais, o que se ouve hoje é quem despede, quem reduz, quem limita, quem ameaça, quem sobrevive até quando. O capital humano, tal como os outros capitais, foge para onde o recebem melhor; os recursos humanos, tal como os recursos materiais, se explorados até à exaustão e maltratados, deixam de produzir; e o pessoal reforma-se, desinteressa-se, e luta pela sobrevivência, se é o que lhe pedem. No entanto, havendo pouco com que pagar e diferenciar, não seria mais do que nunca necessário saber falar-lhes, cativá-las, contribuir para que o seu trabalho não seja um favor mal encarado mas um esforço bem reconhecido?
E assim, de uma penada, ficamos sem capitais, sem recursos e sem pessoas. É talvez um dos sintomas mais graves da crise.

11 comentários:

skeptikos disse...

Subscrevo! Clap, clap, clap de pé! Julgava que era só eu a pensar assim e já me sentia como uma ET.

Hão-de ficar apenas os parasitas e as sanguessugas que sem hospedeiro se comerão umas às outras!

Bom fim-de-semana! E obrigado por este conforto.

Floribundus disse...

é tudo cada vez mais volátil. os capitais, as pessoas desaparecem como por encanto. a vontade de trabalhar nunca existiu.

saíram os que valiam alguma coisa e o lixo humano involuiu para mais e melhor lixo

Carlos Sério disse...

E assim, de uma penada, vieram os "mercados".

jotaC disse...

Também me lembro: um desperdício de milhões em formação sem descanso!. Ele era para isto, ele era para aquilo, ele era até para nada. Para nada, não!. Para a vida de angústia e temor a que chegamos, aqui. Angústia, para os que procuram trabalho e não o encontram, mesmo aquele trabalho que só os “desformados” aceitavam. Temor, para aqueles que tendo trabalho vivem o pesadelo de o perder, quando tudo à volta se desmorona.
Como era bom o tempo em que as citações dos poetas faziam algum sentido, quando nos estimulavam a rebeldia, tornando-nos mais afoitos, mais entusiastas, mais recetivos, menos apáticos…
- “Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto, quem não muda as marcas no supermercado, não arrisca vestir uma cor nova, não conversa com quem não conhece. “
Vivemos uma tragédia. Mais aqueles que têm filhos desempregados, já com o subsídios esgotados, que os veem felizes quando recebem uma carta da Segurança Social com promessa de emprego que afinal não o é -é apenas uma patetice inventada por gente palerma a justificar o cargo-, e entusiasmados perante a perspetiva nos encaram de frente a dizer: eu já aceito tudo, até tratar “dos velhos”, quero lá saber, eu quero é ganhar para as minhas despesas, cada vez que te peço dinheiro para o desodorizante, para me vestir, para essas merdas todas, sinto-me um desgraçado, que nem sei o que faça!...
E é assim a vida de muitos vizinhos por quem nos cruzámos em dias de pessimismo, e em que a nossa imaginação pode ver que se arrasta, que cumpre, que faz… Mas nunca fará, certamente, de igual modo…

Tiro ao Alvo disse...

Quero crer que, em muitas empresas, as pessoas são consideradas o activo mais importante. E que esse é o estado de espírito de muitos patrões.
Digo isto, por que não podemos perder a esperança...

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Suzana
Vivemos tempos de grandes paradoxos. As organizações para sobreviverem e competirem no mercado global precisam de pessoas motivadas e mobilizadas. Trabalhadores satisfeitos e que acreditam no futuro das suas empresas são a melhor garantia do êxito das suas organizações. São uma espécie de “seguro”. O bem-estar dos trabalhadores mede-se por um conjunto de boas práticas, em que a remuneração é uma parcela de entre outras igualmente importantes. As organizações que praticam esta cultura são ganhadoras ou sobreviventes, enfrentam melhor as dificuldades das crises, são capazes de manter a satisfação dos trabalhadores em níveis satisfatórios ou elevados.

JM Ferreira de Almeida disse...

Suzana, por causa do abandono das teorias tão em voga na última década há já algumas pessoas no desemprego. Amealharam com consultadorias o suficiente para resistirem até uma nova vaga. O problema é que ficam por cumprir aqueles desígnios revolucionários dos SIADAPes e coisas do género...

just-in-time disse...

Na mouche, Suzana!
E quando estávamos quase a chegar à sofisticação máxima de gestão do pessoal, recursos humanos, capital humano e finalmente "pessoas", tão proclamada por alguns CEO's tornados milionários sem serem empresários ou accionistas, veio a crise e o desemprego ou, em alternativa, os salários sucessivamente abaixo do famigerado "salário mínimo".
Quanto à motivação, um amigo meu, reconheço que um pouco antiquado, costumava dizer "Motivação? Cumpram mas é o vosso dever!"

Pinho Cardão disse...

Estou com o Tiro ao Alvo. Apesar de tudo, em grande parte das empresas as pessoas são consideradas o activo mais importante. E que esse é o estado de espírito de muitos patrões.
Pelo menos, dos que querem manter as suas empresas vivas e actuantes.
Os outros são parasitas, sempre à cata de apoios e subsídios para coompensar a má gestão. Lamentavelmente, ganham com isso e têm sempre do seu lado os partidos políticos e a comunicação social. E o estado acaba por entrar com mais dinheiro dos contribuintes para manter artificialmente muitas empresas. Isso não é economia de mercado, é trafulhice. Mas é aquilo de que quase todos gostam e apoiam.

Manuel Rocha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Manuel Rocha disse...

Cara Dra. Margarida,

O sucesso das empresas para além do que disse, também passa pela existência de um liderança transformacional capaz de agregar os interesses individuais aos interesses coletivos, de criar “redes” de pessoas em que não bastam as qualificações mas as competências relacionais (saber fazer).

Dica:
Lei Fukuyama em que diz que o problema da Portugal é mais profundo, discute-se o macro, micro, mas está na cultura.
Fukuyama explica isso muito bem através de um indicador muito interessante=> CONFIANÇA.

Portugal é um pais com falta de confiança, dai que o grosso são empresas PME (familiares). Enfim é interessante!.