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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

"Debt buy-back" da Grécia: mercados colaborantes, quem diria?

1. De acordo com informações hoje divulgadas (edição do F.Times, por exemplo), a Grécia terá conseguido ultrapassar a barreira para que a 1ª tranche de € 34 mil milhões do novo programa de ajuda financeira seja desbloqueada.
2. Como se sabe, o desbloqueamento dessa tranche estava dependente (condição colocada pelo credor FMI) do sucesso de uma oferta de recompra de dívida grega (“debt buy-back”) que o governo grego dirigiu ao mercado – credores privados - utilizando para o efeito € 10 mil milhões que os credores oficiais colocaram à sua disposição.
3. Com essa oferta, o governo grego visava uma redução do stock nominal da dívida de Euros 20 mil milhões (+ ou - 10,6% do PIB), o que seria possível adquirindo a dívida a preço muito inferior ao nominal (o preço acabou por ser de 33,5% do nominal). Assim, gastando € 10 mil milhões, a Grécia conseguirá recomprar, ao preço de € 0,335 por cada 1€ de valor nominal, qq coisa como € 29.850 milhões de dívida – do que resultará uma redução do stock , não de € 20 mil milhões mas de € 19.850 milhões, que pelos vistos será considerado suficiente.
4. É claro que para alguns dos destinatários da oferta, o preço de € 0,335 por cada € 1 de nominal constitui um excelentíssimo negócio, uma vez que tinham adquirido a dívida por qq coisa como € 0,15 e há bem menos de 1 ano...estarão nessa situação alguns Hedge-Funds americanos que deram a sua anuência à oferta de “buy-back”.
5. Já para outros detentores de dívida a oferta não seria tão interessante e por isso o preço inicialmente anunciado, de € 0,3 por cada € 1 de nominal, acabou por ser elevado até aos € 0,335, de modo a obter uma resposta que viesse (quase) de encontro aos objectivos fixados, permitindo à Grécia ter agora acesso aos € 34 mil milhões da ajuda financeira.
6. Em conclusão, o horrendo mercado – esse mostrengo que está no fim do mar e que nas noites de breu se ergue a voar – acabou por ter um gesto simpático (não lhe chamo altruísta, certamente) em relação à Grécia, anuindo à oferta de recompra numa escala que vai permitir ao País avançar para o 2º programa de ajuda financeira...
7. ...quando, a avaliar pelo que dele dizem os Crescimentistas e seus aliados mais radicais, poderia muito bem/ muito mal ter reagido doutra forma, não aceitando a oferta para pressionar a Grécia e os seus credores oficiais a oferecer termos de recompra mais favoráveis...ou terem de encarar de novo um cenário de default o que, nesta altura de algum alívio financeiro na zona Euro, seria um contratempo desesperante...

14 comentários:

Tonibler disse...

Uma aposta como as notícias serão feitas usando o diferencial com o nominal para calcular um spread implícito e para dizer "Grécia livra-se de juros usurários eliminando dívida com especuladores" ?


Ou talvez, não... Falta meter a Merkel no título...

Pedro disse...

Tonibler,


eu vou ainda mais longe...nem sequer passo pelos spreads. Faço apenas a pergunta simplista que o comum dos mortais irá magicar:

-Então, mas o PM e o VG, afinal não querem as mesmas condições dádas pela TROIKA á Grecia, porque diziam eles : " é um mau sinal para o mercados... etc etc etc" : mas afinal agora parece que os mercados acabam "por ter um gesto simpático " com a Grecia ....!??!?!?!?

Mas afinal, esperem lá, as condições e juros mais baixos e perdões das divida : NÂO PORQUE OS MERCADOS ....

em simultaneo, os mesmo mercados, afinal até teem "gestos simpaticos" para com a Grecia ??!?!?


que raio, já não percebo nada! São mesmo os mercados que não gostam de nós...ou são as desculpas do PM e do VG que são uma farsa ?


(é obvio que percebo que existem outras vias e explicações, mas lhes garanto que o comum dos mortais irá magicar sobre esta confrontação de logicas que teem cada vez menos logica!)

Paulo Pereira disse...

Caro Tavares Moreira,

Uma boa parte mercado acredita que esta ajudinha da UE , que empresta dinheiro a 1% ou menos, vai ajudar muito a Grécia e assim os titulos que restam vão valer mais que os 33% oferecidos.

Os mercados já não andão tão distraidos como há uns anos atraz.

Parece que uma parte dos que venderam foram aconselhados a vender pois tinham uma oferta irrecusável ao lado.

Nós podiamos também pedir a 1% e comprar os titulos que estão a pagar 7,3%.

Tonibler disse...

Caro Pedro,

Mas é só "mercados", até porque mercados somos todos nós. Ou gostaria que emprestasse dinheiro a alguém e este alguém lhe dissesse "porreiro, agora só te devo 1/3"... O facto dos hedge funds estarem nisto já é um sinal estranho quando falamos de divida soberana, se o PM e o VG não querem estar neste campeonato é mesmo porque nós não queremos estar neste campeonato. Mesmo!

Carlos Sério disse...

“o horrendo mercado – esse mostrengo que está no fim do mar e que nas noites de breu se ergue a voar ”, infelizmente não é só nas noites de breu.
Os Estados europeus, ao invés de regularem e controlarem os mercados financeiros e colocá-los ao do serviço do desenvolvimento económico e social dos países, ao serviço da sociedade, ao serviço do bem comum, deixaram-se subjugar por eles. Os governos dos Estados europeus, tornaram-se hoje simples agentes colaboradores executivos dos interesses dos mercados financeiros agindo contra os interesses gerais da sociedade.
Ainda penso que há verdadeiros sociais-democratas a ler este Blog e não apenas fundamentalistas neoliberais. Esta a razão porque escrevo.

Jorge Lucio disse...

Caro Tavares Moreira,

Se calhar quando a Grécia estava a "colocar" dívida com "juros" de 100%, os célebres hedge funds emprestaram-lhe dinheiro e as contas que fizeram era já a considerar que depois iam apenas recuperar 30% do empréstimo. E admirar-me-ia que tivesse perdido dinheiro.

Também não vejo bem o que o seu ódiozinho de estimação (pois, os "crescimentistas") têm a ver com isto. Parece-me que, independentemente das loucuras gregas, quem vai ficar a ganhar são os mesmos, Assim, quando muito esta história vai é dar alento aos bloquistas quando dizem que estamos na presença de uma conspiração da finança internacional. E, como dizem nos casinos, a "banca" ganha sempre.

Nada disto faz sentido. Fico mesmo na dúvida se é a este tipo de "mercados" que um suposto País credível (é a conversa do PM e VG, certo?) quer voltar.

Tavares Moreira disse...

Caro Tonibler,

Mil desculpas pela omissão do nome da Snra. Merkel no título!
Tem toda a razão, mas, sabe, confesso que me custa um bocado fazer concorrência aos outdoors do Bloco...

Caro Paulo Pereira,

Os títulos agora recomprados não vão valer mais nem menos pois deverão ser abatidos à dívida...
Quanto ao fundo do seu comentário, o que poderei concluir é que os mercados foram mesmo altruístas - coisa que eu expressamente não quis admitir...
Com efeito, se a convicção é de que os títulos se vão valorizar (muito) para cima de € 0,335, então porque motivo aceitar vende-los a esse preço? Só por altruísmo manifestamente!
Quanto à remuneração de 7,3% trata-se certamente de um engano: essa taxa é a que resulta da cotação no mercado secundário (taxa de juro implícita ou yield) não a taxa que os títulos vencem, a chamada taxa de cupão, essa anda entre os 4 e os 5,5% para as dívidas de maturidades mais longas - como saberá, aliás.

Carç Jorge Lúcio,

A Grécia, como saberá, nunca colocou dívida a essa taxa de juro nem nada de parecido...essa taxa é a taxa implícita na cotação no mercado secundário (vide, sff, resposta ao comentário do Paulo Pereira).
Quanto ao "odiozinho de estimação" aos Crescimentistas a que se refere, peço-lhe o favor de retirar essa expressão, pois aqui não há ódios nem azedumes, há apenas crítica, por vezes carregada de algum humor, mas apenas crítica.
Confundir crítica aberta e despretensiosa com ódios parece-me um pouco estranho, tem o sabor de uma certa tendência para um moralismo exacrebado, que julgo inapropriado para este tipo de discussões.
Se não se importa, claro.
Quanto ao resto, quero dizer-lhe que tudo isto faz mesmo sentido, no quadro de um equilíbrio de interesses e na busca da preservação da integridade da zona Euro. Se vai cumprir ou não os objectivos pretendidos isso é coisa que ainda se verá, será preciso tempo, bastante tempo mesmo!

Jorge Lucio disse...

Caro Tavares Moreira,

Eu retiro a expressão sem problema se lhe fez tanta confusão assim, mas para mim "odiozinho de estimação entre aspas" como escrevi é apenas essa crítica despretensiosa que refere e confesso que não vejo como pode ter interpretado de outra forma.

Aliás, olhando para outros textos deste blogue, diria por exemplo que o caro Pinho Cardão tem um evidente "odiozinho de estimação para com a RTP". Está (quase) sempre a dizer mal dela!

Paulo Pereira disse...

Caro Tavares Moreira,

O que eu quiz dizer é que dada a dificuldade aparente em ter atingido o objectivo, parece-me que o mercado está á espera que esses titulos possam valor mais no futuro.

Alías , existem mais sinais de que os mercados estão bastante satisfeitos com este pacote de ajudas à Grécia.

Contrariando a tese ilógica de que os mercados não gostam de reduções de prazos e de juros na divida existente.

Tavares Moreira disse...

Caro Jorge Lúcio,

A expressão em causa não me faz confusão nenhuma, pode crer, simplesmente considero-a inadequada para o tipo de discussões que aqui mantemos, abertas e francas, de quando em vez polivlhadas com um pouco mais de sal mas nunca sob o signo do rancor...
Registo com agrado a sua anuência.

Caro Paulo Pereira,

Não me parece que tenha havido dificuldade aparente ou real, na consecução do obejctivo da oferta de recompra. O facto de o preço indicativo inicial da oferta ter sido ligeiramente ajustado, de € 0,3 para € 0,335, resultou de uma avaliação das condições do mercado, a operação, como sabe, concluiu-se com sucesso e a Grécia vai receber a 1ª tranche da ajuda do 2º programa.
Quanto aquilo de que os mercados gostam ou não, sugiro-lhe que não se precipite na conclusão: os mercados gostam quando ganham ou esperam ganhar, não gostam na situação inversa.
Não me parece, de todo, que se possa conluir o que refere - mas é a sua opinião, respeito-a como tal.

Tonibler disse...

Caro Tavares Moreira,

Agora que o novo BCE está criado, afinal a minha previsão até era simpática....

Tavares Moreira disse...

Caro Tonibler,

O novo BCE ou um novo BCE? E já agora, importa-se de me recordar a sua previsão, que rotula de simpática (certamente com todo o fundamento)?

Tonibler disse...

"Eu vejo várias coisas muito negativas nesse processo e algumas recorrentes em tudo o que é processo europeu.

A primeira é ser claramente um processo de centralização para sustentar pançudos, como quase todos aqueles que emanam de Bruxelas.

A segunda é nascer fora do mercado. Um banco central deve ser um banco dos membros do mercado, não um organismo de férias bem pagas de políticos.

A terceira é que a regulação bancária não precisa do BCE para nada. Não se ganha nada com a concentração porque as regras são definidas a nível global acima do BCE.

Finalmente, parece que nada será feito ao nível da definição da liquidez no mercado.

Resumindo, é um mero centro burocrático que não é exactamente um regulador nem um banco central. Imagine-se que será apenas um organismo que faz previsões... Onde é que já vimos isto???"

Face ao que saiu, até estava a ser simpático. O resultado é tão mau que já me parece positiva as saídas do euro.

Tavares Moreira disse...

Caro Tonibler,

Estou tentado a usar a velhe máxima "Nem tanto ao mar nem tanto à terra"...Como já terá entendido, estou muito longE se ser um entusiasta destas soluções de "direcção central", carregadas de esperança no futuro mas que os burocratas acabam invariavelmente por transformar em fracassos pois é essa a sua fundamental missão...
Todavia, no caso em pareço, a solução minimalista a que se chegou (inteligentemente e graças à perspicácia da Alemanha entre outros) parece susceptível de limitar os danos da canga burocrática e até pode contribuir para algum alívio das tensões financeiras que nos têm fustigado.
Veremos, como diz o nosso parceiro jotaC...