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domingo, 2 de dezembro de 2012

Radicalismos


O espetro político ou ideológico é muito vasto e traduz mesmo um continuum que vai da esquerda radical ao ultraconservadorismo da direita.
Nas sociedades que estão em equilíbrio social e económico estas franjas constituem uma pequena fração perfeitamente controlada pelos cidadãos e forças sociais e políticas. Quando começam a ocorrer desequilíbrios, como é o caso presente, o desconforto generaliza-se como um vírus altamente contagioso e extremam-se certas posições. Muitos dos que foram, e ainda são, o garante da estabilidade da paz social apresentam sinais de polarização que se acentuam dia para dia deixando vazio um espaço vital. Basta estar atento, ouvindo os comentários do cidadão comum ou lendo os desabafos e críticas nas redes sociais, sobretudo aqueles que ainda há pouco tempo não faziam qualquer mossa nem manifestavam tal tendência, para confirmar esta preocupação. Os que se posicionam à “direita” afastam-se cada vez mais para o polo conservador, e até mesmo ultraconservador, e os que se situam à “esquerda” radicalizam os seus comentários, opiniões e soluções. Mesmo os que navegam no “meio”, ondulantes ao sabor das suas conveniências e interesses, também começam a manifestar-se, coisa curiosa, porque, de um modo habitual, não costumam exprimir muitas opiniões. A situação em que nos encontramos não é habitual e por isso mesmo sentem - estão no seu pleno direito -, que devem queixar-se, procurando os que lhes oferecem melhores soluções, muitas das quais se identificam com a tríade “Deus, Pátria e Família”. Não é só em Portugal que se observa uma aproximação a este polo, protagonizado durante muito tempo pela religião, mas também não é por uma questão de fé. O que está em causa são os princípios que a religião representa, facto que leva uma parte significativa da sociedade a aceitar soluções do tipo nacional-populismo.
A crispação aumenta de dia para dia, o radicalismo da direita e da esquerda também, o bom senso desaparece, as soluções defendidas para combater a crise são díspares e contraditórias, provocando anticorpos, gerando incompreensões e motivando o despertar de velhos ódios ideológicos que, se atingirem um nível crítico, podem terminar em violência.
A violência, nas suas múltiplas formas, mesmo a mais destruidora, pode emergir mais uma vez, causando dor, sofrimento e morte.
O homem é atreito à compaixão e gosta de saborear a paz, a alegria, o bem-estar e cultivar a solidariedade. É capaz de tudo isto, já provou várias vezes, mas para que possa alcançar a quietude social precisa, paradoxalmente, de vez em quando, mergulhar na lama do sofrimento e da convulsão. Gosta de renascer, sempre gostou, um empenho bíblico, renasce como a fénix, mas esta não tinha impulsos suicidas. O homem tem.
Os primeiros sinais estão aí, e os políticos, face visível da crispação social, já utilizam expressões e manifestam atitudes que convidam ao confronto.
Grande parte da população perfila-se para aderir a movimentos e correntes antagónicas, que em vez de contribuírem para a resolução de problemas poderão originar situações muito graves.
Soluções? Para já é necessário estar atento e analisar os fenómenos sociais, denunciar os riscos resultantes de uma polarização “bélica” e criar mecanismos que possam tranquilizar e dar esperança às populações. É possível, basta que não se empobreça demasiado a sociedade, que se persigam implacavelmente os prevaricadores, que se responsabilizem os agentes políticos e que os cidadãos tenham mais intervenção cívica e política e que saibam os riscos da polarização extrema, desconfiando dos que têm soluções na manga, que na maioria dos casos não passam de cartas viciadas.

4 comentários:

Zuricher disse...

Caro Professor, esses sinais de radicalização são aparentes um pouco por toda a Europa e muitos dos motivos eram expectaveis há mais de uma década. A Europa assenta numa série de valores que são utópicos, não fazem sentido e são irreais. O tratamento das minorias, por exemplo, que para além de insultuoso para os demais é menorizante para as próprias. A filosofia do coitadinho. Sempre foi uma questão de tempo até as sociedades se radicalizarem e começarem a votar naqueles que prometem resolver-lhes o problema seja lá como for. Isto porque os outros nem sequer reconhecem a existência dum problema. No campo económico passa-se algo semelhante e certos países com certas culturas como é o caso Português são presas faceis dessa radicalização. Vá lá que os brandos costumes impedem que depois os radicais do outro lado sejam tratados como em vários outros sitios, sem ir mais longe, em Espanha. Os problemas económicos em Portugal eram previsiveis há muito e o seu corolário era esse radicalismo. Lá pelos idos de 2003-4 e no meio de algumas coisas mais escrevi que por volta de 2020 haveria novamente um regime totalitario a governar Portugal. Apenas o futuro dirá se estou certo mas as probabilidades disso suceder vêm aumentando com o passar do tempo.

Conservador disse...

Meu caro, ... é no pensamento conservador, ultra ou não, ou no pensamento liberal , neo ou não , ou ainda marxista, sem revisionismos, que está a dura análise social...não é no unanimismo essencialista moderado coisinha e tal, na treta pechisbeque a que PS-PSD-CDS nos habituaram.

José Domingos disse...

....criar mecanismos, que possam tranquilizar, e dar esperança....
Quer dizer, evitar , censurando os politicamente não correctos, seja de esquerda ou direita, manter os bem pensantes, que não saiam da bovinidade nacional, manter a ilusão, que os partidos, mais o sistema partidário e eleitoral, que nos meteu neste buraco, são os mesmos que nos vão tirar. Só falta cantar hosanas, pelos dias de sol vindouros e acreditar no homem novo
A questão, é que cada vez mais existem portugueses, que não acreditam,já pensam.

António Almeida disse...

Eu estou, de acordo estamos em tempos de radicalismos.

Não sou nada radical, mas como se combate o radicalismo de esquerda?

Como se combate o "Eu gosto é de malhar na direita."?

A minha visão política é cada vez menos keynesiana, eu sinto-me a radicalizar a minha forma de pensar.

Acho que há valores que nunca irei defender.

Mas não será uma forma de combater o radicalismo de esquerda, que pela sua demagogia, pelo seu ilusionismo (veja a intervenção de Ana Pato) que chama fascista ao centro).

Já ouvi coisas destas ditas pelo cidadão médio.

Será que um pouco de radicalismo é assim tão mau?

Não vejo o movimento liberatário como virtuoso, mas também não o vejo como totalmente errado.