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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O cruel problema da velhice desamparada


Assistimos ontem, na TVI, a uma reportagem sobre o encerramento de mais um lar ilegal que, segundo a peça, não teria condições de instalações, nem de higiene, nem de qualidade de tratamento aos idosos que acolhia. Ouviram-se relatos de que haveria fome, falta de aquecimento, falta de banhos e talvez mesmo alguma violência sobre as pessoas. Filmada em direto a cena do encerramento pelas autoridades, também assistimos à preocupação das famílias apanhadas desprevenidas sobre o que fazer, de um momento para o outro, com quem ficou desalojado.
É claro que deve haver muitos casos destes e não podem ser tolerados. Mas é bom pensarmos que um lar decente custa caro, muito caro mesmo se não for da Misericórdia ou da Segurança Social, e para estes há filas de espera. Com uma pensão de 500 € que seja – e para muitos nem isso – onde é que há lares com boa alimentação, conforto e pessoal treinado para lidar com idosos muitas vezes doentes crónicos, frágeis ou com sinais de demência? E com vagas? Um dos maiores problemas dos lares, tal e qual como acontece quando queremos contratar alguém para ficar em casa com as pessoas de idade, é também a falta de pessoas qualificadas para fazer esse trabalho e, havendo, é claro que querem receber um vencimento adequado.
Não basta fechar os lares e fazer um alarido hipócrita sobre as condições quando é impossível esperar que o pouquíssimo dinheiro – cada vez menos – das pensões de reforma dê para ter uma velhice com um mínimo de qualidade de vida. É preciso que haja alternativas, ou uma pessoa daquelas que vimos a sair do lar ficará melhor sozinha em casa, sem apoio, ou amontoada na casa da família que não tem condições para a ter consigo e para a tratar como deve ser? É muito fácil ficar a ver de longe, comovido, e esquecer no minuto seguinte em que o alvo da nossa pena desaparece do écran. O problema da velhice desamparada é um problema cruel, bem real, e que, entre nós, está muito longe de ser bem tratado. Ainda é um “problema das famílias” e estas, pobres famílias, já não sabem o que hão-de fazer, entre impostos, desemprego, contas para pagar, filhos dependentes, pais dependentes, tudo combinado para uma convivência difícil, quando não impossível. Estes lares que na verdade são apenas depósitos de pessoas não devem ser permitidos, acho que não há dúvidas sobre isso, mas onde estão as alternativas? Também não devia ser permitido ser velho, muito velho ou doente, e não ter um mínimo de condições de subsistência. A pobreza também tem o rosto do que vimos ontem na televisão.

6 comentários:

Jorge Lucio disse...

É como diz Suzana, a desgraça dos outros, preferencialmente em directo no "prime time", serve para acalmar muitas consciências.

Pensar no que fazer para ultrapassar esta tragédia social para que estamos a caminhar, um país de velhos, é que custa.

E não parece estar na agenda de ninguém.

Diogo disse...

Mas não há dinheiro para ter lares em condições?

Nunca a tecnologia e, portanto, a capacidade de atender às necessidades e produzir foi tão grande como hoje.

Nunca tivemos tanta gente disponível para trabalhar como agora.

O Grande Dinheiro e a Grande Corrupção empanturram-se nos próprios lucros e nos roubos que praticam diariamente.

A moeda é apenas um meio de troca sem valor intrínseco. Não há dinheiro porquê?

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Suzana
Estamos a envelhecer a passos largos, viver mais tempo é a parte boa deste fenómeno. Não só nada fizemos para contrariar o envelhecimento, como não estamos a integrar nos diversos domínios económicos e sociais a componente da longevidade, designadamente ao nível de políticas públicas. Alguns números ajudam-nos a elucidar o problema: listas de espera de milhares de pessoas idosas a aguardar acolhimento em lares, três mil lares ilegais, cerca de 1,5 milhões de pensionistas com pensões abaixo do salário mínimo nacional.

Ilustre Mandatário do Réu disse...

A velhice é desamparada, mesmo que por vezes por fora pareça amparada.

Talvez as imagens que refere silvam para alguns pensarem duas vezes.

Por outro lado são estranhas afirmações como "é claro que querem receber um vencimento adequado."

Sabemos que os cursos de "assistente social" são os que mais desemprego têm. Esta semana em entrevistas de emprego tive mais um contacto de primeiro grau com uma juventude com alguma qualidade que não faz o mínimo sacrificio para sair do seu perímetro de conforto.

Será que esses assistentes sociais no desemprego, não podiam fazer alguma coisa mais útil que ficar em casa vendo a casa dos segredos, e ir ajudar quem precisa? Ou são casos como o "outro" onde os transportes são caros e andar a pé é para outros?

500 euros são cem contos de reis. Alguma coisa devem valer no 3º país mais pobre do euro.

Suzana Toscano disse...

Caro amigo Jorge Lúcio, já vamos tarde para pensar nos velhos d ehoje, e dos próximos anos, o envelhecimento não apareceu com a crise, acontece que o empobrecimento torna a situação dos velhos dramática, é preciso que fiquem a pedir esmola para que se olhe para eles.E mesmo assim é mais por causa de situações extremas, como a da morte ao abandono, do que por níveis gerais de falta de qualidade mínima de vida e de sossego para o fim de vida a que teriam direito.
Não sei se há dinheiro, caro Diogo, mas sei que não há lares acessíveis ao comum dos vportugueses, mesmo aos que hoje, pomposamente, se chamam "ricos", com 2000 euros por mês.
É isso, Margarida, e mesmo os que têm mais do que o salário mínimo vivem na pobreza, enquanto quanto aos outros que 2escaparam" parece que toda a gente se esforça por os reconduzir a esses níveis d emiséria. Parece que é mais indecente um velho que possa viver com o que tem do que um velho qu eprecisa da sopa dos filhos, quando não do Estado.Confesso que me dá imensa revolta ver como se fala e decide sobre este grupo de pessoas.
Caro mandatário, mesmo que haja muitos jovens assistentes sociais creio que trabalhar permanentemente com velhos não deve ser nada fácil para um jovem, muito menos por meia dúzia de tostões e numa actividade que não dá qualquer perspectiva de progresso. Conviver com a decrepitude, com a demência e com a morte anunciada é muito violento e pesado, física e mentalmente, só mesmo com uma grande vocação é que se aguentará essa profissão, ainda por cima por pouco dinheiro.

Ilustre Mandatário do Réu disse...

Trabalhar permanentemente com velhos é o destino de muitos jovens por essa Europa fora. A preparação de profissões médicas e para-médicas noutros países (em Portugal não conheço mas certamente farão o mesmo) foca muito essa realidade.

A Europa envelhece por todo o lado, mesmo em países com taxas de natalidade menos catastróficas que a portuguesa.

Que as pessoas devem fazer aquilo para que têm vocação, concordo inteiramente. Sobretudo que esse retorno da realização profissional será tão mais importante quanto a situação, de um pais como Portugal que é pobre e onde o dinheiro não abunda, será de pobreza estacionária.

Mas em Portugal pensa-se que o dinheiro cai das árvores e que para trabalhar só bem pago. Dar mais valor ao dinheiro que ao trabalho é receita para a catástrofe.