Número total de visualizações de página

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

"Vencidos da vida"


Encontrei, hoje, num alfarrabista, o livro do poeta Manuel da Silva Gaio, "Os vencidos da vida", texto que serviu à conferência proferida na sede da "Associação de Estudantes da Faculdade de Letras da Universidade de Combra, em 28 de abril de 1928.
Destaco a seguinte passagem: "Certa noite, entrando na sala do restaurant onde haviam de cear, souberam os Vencidos que no quarto ao lado estava uma mulher, só, esperando alguém... que não chegava.
Mandaram-na convidar a vir cear com eles.
Aceitou.
Era a célebre Maria Juliana - a mais petulante e engraçada aventureira da época.
A sério, ia um dos convivas (naturalmente Oliveira Martins) explicar o terrível deficit do país, quando ela exclamou:
- Bem o conheço - é o do Banco Inglês.
Aludia a um Duff, então director daquele Banco.
E ali armou ela com Guerra Junqueiro um dos seus mais vivos e renhidos assaltos de frase.
Já no fim, quando o poeta, derivando do assunto, calculava a despesa provável duma esboçada viagem - observou-lhe, impertinente:
- Isso é a minha conta, só no sapateiro.
Ao que ele, sem hesitar, replicou logo:
- Deixa cá ver quantos pés tens."

Moral da passagem, hoje, também, temos um défice terrível, temos de cear, temos de fazer contas, continua a haver Marias Joaquinas, não sei com quantos pés, "directores de bancos" a gozarem connosco e, por fim, os vencidos da vida, mas os atuais não se comparam nem de perto nem de longe à craveira daqueles onze magníficos.

1 comentário:

JM Ferreira de Almeida disse...

Pois é, meu caro Professor, repetem-se as estórias da História, sem que retiremos delas os ensinamentos devidos.
O grupo dos "vencidos da vida", reunindo a inteletualidade de uma época farta em obra e pensamento do melhor que Portugal já teve, assume também o lado cinzento da acidez, do descrédito, da auto-comiseração coletiva e do pessimismo que a lado algum conduzem.